Medicamentos que aumentam o risco numa onda de calor

Medicamentos que aumentam o risco durante uma onda de calor

Medicamentos e ondas de calor quais os riscos? As ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas nos últimos anos devido às alterações climáticas. Para além do desconforto, as temperaturas elevadas podem representar um risco sério para a saúde, sobretudo em idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crónicas.¹ ²

Um aspeto frequentemente esquecido é o efeito de determinados medicamentos na capacidade do organismo lidar com o calor. Alguns fármacos favorecem a desidratação, dificultam a transpiração, reduzem a pressão arterial ou alteram a função renal, aumentando o risco de complicações como síncope, insuficiência renal aguda ou golpe de calor.³⁻⁵

Conhecer estes medicamentos e adotar medidas preventivas pode fazer uma diferença significativa durante os dias mais quentes do ano.

Índice

  1. Introdução
  2. Porque é que o calor pode ser perigoso?
  3. Porque é que alguns medicamentos aumentam o risco?
  4. Quem corre maior risco?
  5. Quais os medicamentos que merecem maior atenção?
  6. Como reduzir o risco durante uma onda de calor
  7. Nunca interrompa a medicação sem aconselhamento médico
  8. Conclusão
  9. Bibliografia

Porque é que o calor pode ser perigoso?

O organismo mantém normalmente a temperatura corporal próxima dos 37 °C através de mecanismos como a transpiração e a vasodilatação na pele. Quando a temperatura ambiente é muito elevada, especialmente se existir humidade elevada, estes mecanismos tornam-se menos eficazes.¹

Como consequência, aumenta o risco de:

  • Desidratação;
  • Hipotensão;
  • Cãibras musculares;
  • Exaustão pelo calor;
  • Golpe de calor, uma emergência médica potencialmente fatal.

Porque é que alguns medicamentos aumentam o risco?

Os medicamentos podem aumentar o risco através de diferentes mecanismos:

  • Aumentam a perda de água, favorecendo a desidratação;
  • Reduzem a transpiração, dificultando a eliminação de calor;
  • Baixam demasiado a pressão arterial, potenciando tonturas e quedas;
  • Alteram a função renal, agravando os efeitos da desidratação;
  • Aumentam a sensibilidade ao sol, favorecendo queimaduras cutâneas.

Quem corre maior risco?

As complicações são mais frequentes em:

  • Pessoas com mais de 65 anos;
  • Doentes cardiovasculares;
  • Pessoas com insuficiência renal;
  • Diabéticos;
  • Doentes com doenças neurológicas;
  • Pessoas que tomam vários medicamentos simultaneamente (polimedicação).⁶

Descarregue a seguinte infografia para apoio

Infografia medicamentos e ondas de calor
Infografia medicamentos e ondas de calor

Quais os medicamentos que merecem maior atenção?

1. Diuréticos

São dos medicamentos mais frequentemente associados a complicações durante o calor.

Exemplos:

  • Furosemida
  • Hidroclorotiazida
  • Indapamida
  • Torasemida

Ao aumentarem a eliminação de água e eletrólitos, favorecem a desidratação e podem aumentar o risco de insuficiência renal.³


2. Medicamentos para a hipertensão

Os IECA, ARA, betabloqueadores e bloqueadores dos canais de cálcio continuam a ser fundamentais no tratamento da hipertensão e da insuficiência cardíaca. No entanto, durante uma onda de calor podem potenciar a hipotensão, especialmente quando existe desidratação, aumentando o risco de tonturas e quedas.

Exemplos:

  • Enalapril
  • Ramipril
  • Losartan
  • Valsartan
  • Bisoprolol
  • Atenolol
  • Amlodipina

Importante: nunca suspenda estes medicamentos sem indicação médica.


3. Antidepressivos e antipsicóticos

Alguns antidepressivos, particularmente os tricíclicos, e vários antipsicóticos podem diminuir a transpiração e interferir com os mecanismos de regulação da temperatura corporal.⁴

Além disso, alguns provocam sedação, reduzindo a perceção da sede e do calor.


4. Medicamentos com efeito anticolinérgico

São dos fármacos que mais comprometem a capacidade do organismo eliminar calor.

Podem estar presentes em medicamentos para:

  • alergias;
  • bexiga hiperativa;
  • depressão;
  • doença de Parkinson.

Ao reduzirem a transpiração, aumentam significativamente o risco de golpe de calor.


5. Medicamentos para a diabetes

Alguns medicamentos utilizados na diabetes, como os inibidores do SGLT2, aumentam a eliminação urinária de glicose e água, favorecendo a desidratação.⁷

Também os agonistas do recetor GLP-1 (como semaglutido e tirzepatida) podem provocar náuseas, vómitos ou diminuição da ingestão de líquidos, aumentando indiretamente o risco de desidratação em alguns doentes.


6. Medicamentos que aumentam a sensibilidade ao sol

Alguns fármacos tornam a pele muito mais sensível à radiação ultravioleta.

Entre os exemplos mais conhecidos encontram-se:

  • Doxiciclina;
  • Tetraciclinas;
  • Hidroclorotiazida;
  • Amiodarona;
  • Cetoprofeno tópico.

Nestes casos é essencial utilizar protetor solar, roupa adequada e evitar exposição solar prolongada.


Como reduzir o risco durante uma onda de calor

Durante períodos de calor intenso, algumas medidas simples podem reduzir significativamente o risco de complicações:

  • Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede (salvo contraindicação médica);
  • Evite bebidas alcoólicas em excesso;
  • Permaneça em locais frescos e ventilados;
  • Utilize roupa leve e de cores claras;
  • Evite atividade física intensa nas horas de maior calor;
  • Mantenha os medicamentos de acordo com as condições de conservação indicadas na embalagem;
  • Vigie sintomas como tonturas, confusão, diminuição da urina, sede intensa ou fraqueza.

Conselho do Farmacêutico

Se toma vários medicamentos e está prevista uma onda de calor, aproveite para falar com o seu médico ou farmacêutico. Em alguns casos poderá ser necessário reforçar a vigilância da pressão arterial, da função renal ou do estado de hidratação, sobretudo em pessoas idosas ou com doenças crónicas.


Nunca interrompa a medicação sem aconselhamento médico

Apesar dos riscos descritos, a maioria destes medicamentos continua a ser essencial para controlar doenças potencialmente graves.

Suspender um anti-hipertensor, um diurético ou um medicamento para a diabetes por iniciativa própria pode ser muito mais perigoso do que continuar a tomá-lo.

Qualquer ajuste terapêutico deve ser sempre decidido pelo médico assistente, tendo em conta o estado clínico de cada doente.


Conclusão

As ondas de calor representam um desafio crescente para a saúde pública. Muitos medicamentos utilizados diariamente podem aumentar a suscetibilidade às temperaturas elevadas, sobretudo em pessoas idosas e doentes crónicos.

Conhecer estes riscos não significa interromper a medicação, mas sim adotar medidas preventivas, manter uma boa hidratação e procurar aconselhamento médico ou farmacêutico sempre que existam dúvidas.

Com informação adequada e alguns cuidados simples é possível reduzir significativamente o risco de complicações e atravessar os períodos de calor extremo com maior segurança.


Bibliografia

  1. World Health Organization. Heat and health. Geneva: WHO; 2025.
  2. World Meteorological Organization. State of the Climate reports. Geneva: WMO; 2025.
  3. Centers for Disease Control and Prevention. Heat and medications – Guidance for clinicians. Atlanta: CDC; 2024.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Excessive heat: protecting health and reducing harm. London: NICE.
  5. European Medicines Agency. Medicines and hot weather: recommendations for patients and healthcare professionals.
  6. Direção-Geral da Saúde. Plano de Contingência para Temperaturas Extremas Adversas – Módulo Calor.
  7. American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes 2026.