Medicamentos e ondas de calor quais os riscos? As ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas nos últimos anos devido às alterações climáticas. Para além do desconforto, as temperaturas elevadas podem representar um risco sério para a saúde, sobretudo em idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crónicas.¹ ²
Um aspeto frequentemente esquecido é o efeito de determinados medicamentos na capacidade do organismo lidar com o calor. Alguns fármacos favorecem a desidratação, dificultam a transpiração, reduzem a pressão arterial ou alteram a função renal, aumentando o risco de complicações como síncope, insuficiência renal aguda ou golpe de calor.³⁻⁵
Conhecer estes medicamentos e adotar medidas preventivas pode fazer uma diferença significativa durante os dias mais quentes do ano.
Índice
- Introdução
- Porque é que o calor pode ser perigoso?
- Porque é que alguns medicamentos aumentam o risco?
- Quem corre maior risco?
- Quais os medicamentos que merecem maior atenção?
- Como reduzir o risco durante uma onda de calor
- Nunca interrompa a medicação sem aconselhamento médico
- Conclusão
- Bibliografia
Porque é que o calor pode ser perigoso?
O organismo mantém normalmente a temperatura corporal próxima dos 37 °C através de mecanismos como a transpiração e a vasodilatação na pele. Quando a temperatura ambiente é muito elevada, especialmente se existir humidade elevada, estes mecanismos tornam-se menos eficazes.¹
Como consequência, aumenta o risco de:
- Desidratação;
- Hipotensão;
- Cãibras musculares;
- Exaustão pelo calor;
- Golpe de calor, uma emergência médica potencialmente fatal.
Porque é que alguns medicamentos aumentam o risco?
Os medicamentos podem aumentar o risco através de diferentes mecanismos:
- Aumentam a perda de água, favorecendo a desidratação;
- Reduzem a transpiração, dificultando a eliminação de calor;
- Baixam demasiado a pressão arterial, potenciando tonturas e quedas;
- Alteram a função renal, agravando os efeitos da desidratação;
- Aumentam a sensibilidade ao sol, favorecendo queimaduras cutâneas.
Quem corre maior risco?
As complicações são mais frequentes em:
- Pessoas com mais de 65 anos;
- Doentes cardiovasculares;
- Pessoas com insuficiência renal;
- Diabéticos;
- Doentes com doenças neurológicas;
- Pessoas que tomam vários medicamentos simultaneamente (polimedicação).⁶
Descarregue a seguinte infografia para apoio
Quais os medicamentos que merecem maior atenção?
1. Diuréticos
São dos medicamentos mais frequentemente associados a complicações durante o calor.
Exemplos:
- Furosemida
- Hidroclorotiazida
- Indapamida
- Torasemida
Ao aumentarem a eliminação de água e eletrólitos, favorecem a desidratação e podem aumentar o risco de insuficiência renal.³
2. Medicamentos para a hipertensão
Os IECA, ARA, betabloqueadores e bloqueadores dos canais de cálcio continuam a ser fundamentais no tratamento da hipertensão e da insuficiência cardíaca. No entanto, durante uma onda de calor podem potenciar a hipotensão, especialmente quando existe desidratação, aumentando o risco de tonturas e quedas.
Exemplos:
- Enalapril
- Ramipril
- Losartan
- Valsartan
- Bisoprolol
- Atenolol
- Amlodipina
Importante: nunca suspenda estes medicamentos sem indicação médica.
3. Antidepressivos e antipsicóticos
Alguns antidepressivos, particularmente os tricíclicos, e vários antipsicóticos podem diminuir a transpiração e interferir com os mecanismos de regulação da temperatura corporal.⁴
Além disso, alguns provocam sedação, reduzindo a perceção da sede e do calor.
4. Medicamentos com efeito anticolinérgico
São dos fármacos que mais comprometem a capacidade do organismo eliminar calor.
Podem estar presentes em medicamentos para:
- alergias;
- bexiga hiperativa;
- depressão;
- doença de Parkinson.
Ao reduzirem a transpiração, aumentam significativamente o risco de golpe de calor.
5. Medicamentos para a diabetes
Alguns medicamentos utilizados na diabetes, como os inibidores do SGLT2, aumentam a eliminação urinária de glicose e água, favorecendo a desidratação.⁷
Também os agonistas do recetor GLP-1 (como semaglutido e tirzepatida) podem provocar náuseas, vómitos ou diminuição da ingestão de líquidos, aumentando indiretamente o risco de desidratação em alguns doentes.
6. Medicamentos que aumentam a sensibilidade ao sol
Alguns fármacos tornam a pele muito mais sensível à radiação ultravioleta.
Entre os exemplos mais conhecidos encontram-se:
- Doxiciclina;
- Tetraciclinas;
- Hidroclorotiazida;
- Amiodarona;
- Cetoprofeno tópico.
Nestes casos é essencial utilizar protetor solar, roupa adequada e evitar exposição solar prolongada.
Como reduzir o risco durante uma onda de calor
Durante períodos de calor intenso, algumas medidas simples podem reduzir significativamente o risco de complicações:
- Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede (salvo contraindicação médica);
- Evite bebidas alcoólicas em excesso;
- Permaneça em locais frescos e ventilados;
- Utilize roupa leve e de cores claras;
- Evite atividade física intensa nas horas de maior calor;
- Mantenha os medicamentos de acordo com as condições de conservação indicadas na embalagem;
- Vigie sintomas como tonturas, confusão, diminuição da urina, sede intensa ou fraqueza.
Conselho do Farmacêutico
Se toma vários medicamentos e está prevista uma onda de calor, aproveite para falar com o seu médico ou farmacêutico. Em alguns casos poderá ser necessário reforçar a vigilância da pressão arterial, da função renal ou do estado de hidratação, sobretudo em pessoas idosas ou com doenças crónicas.
Nunca interrompa a medicação sem aconselhamento médico
Apesar dos riscos descritos, a maioria destes medicamentos continua a ser essencial para controlar doenças potencialmente graves.
Suspender um anti-hipertensor, um diurético ou um medicamento para a diabetes por iniciativa própria pode ser muito mais perigoso do que continuar a tomá-lo.
Qualquer ajuste terapêutico deve ser sempre decidido pelo médico assistente, tendo em conta o estado clínico de cada doente.
Conclusão
As ondas de calor representam um desafio crescente para a saúde pública. Muitos medicamentos utilizados diariamente podem aumentar a suscetibilidade às temperaturas elevadas, sobretudo em pessoas idosas e doentes crónicos.
Conhecer estes riscos não significa interromper a medicação, mas sim adotar medidas preventivas, manter uma boa hidratação e procurar aconselhamento médico ou farmacêutico sempre que existam dúvidas.
Com informação adequada e alguns cuidados simples é possível reduzir significativamente o risco de complicações e atravessar os períodos de calor extremo com maior segurança.
Bibliografia
- World Health Organization. Heat and health. Geneva: WHO; 2025.
- World Meteorological Organization. State of the Climate reports. Geneva: WMO; 2025.
- Centers for Disease Control and Prevention. Heat and medications – Guidance for clinicians. Atlanta: CDC; 2024.
- National Institute for Health and Care Excellence. Excessive heat: protecting health and reducing harm. London: NICE.
- European Medicines Agency. Medicines and hot weather: recommendations for patients and healthcare professionals.
- Direção-Geral da Saúde. Plano de Contingência para Temperaturas Extremas Adversas – Módulo Calor.
- American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes 2026.

You must be logged in to post a comment.