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SIBO: O Guia Científico Definitivo Sobre o Sobrecrescimento Bacteriano do Intestino Delgado

Causas, sintomas, diagnóstico, tratamento, dieta Low-FODMAP, rifaximina e prevenção de recidivas

Por Dr. Franklim | melhorsaude.org

Introdução

O Sobrecrescimento Bacteriano do Intestino Delgado, conhecido internacionalmente como SIBO (Small Intestinal Bacterial Overgrowth), corresponde a uma condição em que existe crescimento excessivo de microrganismos no intestino delgado, frequentemente associado a sintomas digestivos como distensão abdominal, gases, dor abdominal, diarreia, obstipação e má absorção de nutrientes¹˒².

Durante muitos anos, o intestino delgado foi considerado uma região quase estéril. Hoje sabe-se que possui uma microbiota própria, embora muito menos abundante do que a do cólon, sendo o seu equilíbrio mantido por mecanismos como a acidez gástrica, a bílis, as enzimas pancreáticas, a motilidade intestinal e a imunidade da mucosa intestinal²˒⁵.

O interesse científico pelo SIBO aumentou devido à sua associação com síndrome do intestino irritável, diabetes mellitus, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, cirurgia gastrointestinal, esclerodermia e utilização prolongada de inibidores da bomba de protões¹˒⁹˒¹⁴˒¹⁵.

Apesar da crescente notoriedade, o SIBO continua a ser um diagnóstico desafiante, porque os sintomas são inespecíficos e os testes disponíveis apresentam limitações importantes¹˒³˒⁴.


SIBO infografia
SIBO infografia

Índice

  1. O que é o SIBO?
  2. Como funciona normalmente o intestino delgado?
  3. Como surge o SIBO?
  4. Principais fatores de risco
  5. Sintomas mais frequentes
  6. Hidrogénio, metano e sulfureto de hidrogénio
  7. Relação entre SIBO e síndrome do intestino irritável
  8. Consequências nutricionais
  9. Diagnóstico
  10. Testes respiratórios
  11. Cultura jejunal
  12. Tratamento
  13. Rifaximina
  14. Dieta Low-FODMAP
  15. Probióticos
  16. Prevenção de recidivas
  17. Mitos e factos
  18. Perguntas frequentes
  19. Conclusão
  20. Bibliografia

O que é o SIBO?

O SIBO é definido como a presença excessiva de bactérias no intestino delgado ou a colonização desta região por microrganismos habitualmente predominantes no cólon¹˒².

Tradicionalmente, a cultura do aspirado do intestino delgado foi considerada o método de referência, sendo frequentemente usado o limiar de 10³ unidades formadoras de colónias por mililitro como critério sugestivo de SIBO¹˒³.

Mais importante do que a contagem bacteriana isolada é o impacto funcional: fermentação precoce dos hidratos de carbono, produção excessiva de gases, alteração dos ácidos biliares, inflamação local e má absorção de nutrientes²˒⁵˒²⁶.


Tabela 1 — Definição simplificada do SIBO

AspetoIntestino normalSIBO
BactériasPoucasEm excesso
FermentaçãoControladaAumentada
GasesProdução normalProdução excessiva
AbsorçãoEficientePode estar comprometida

Intestino ilustração
Intestino ilustração

Como funciona normalmente o intestino delgado?

O intestino delgado é o principal local de digestão e absorção de nutrientes. Para desempenhar esta função, mantém uma carga microbiana relativamente baixa quando comparado com o cólon²˒⁵.

A acidez gástrica reduz a entrada de microrganismos viáveis, a bílis e as enzimas pancreáticas têm efeito antimicrobiano, e o Complexo Motor Migratório atua como um sistema de “limpeza” que remove resíduos alimentares e bactérias durante o jejum⁵˒⁶.


Mecanismos naturais de proteção:

Estômago ácido

Bílis e enzimas pancreáticas

Motilidade intestinal eficaz

Sistema imunitário da mucosa

Controlo do crescimento bacteriano


Tabela 2 — Mecanismos de defesa contra o SIBO

MecanismoFunção principalFalha associada
Ácido gástricoReduz microrganismos ingeridosMaior colonização
BílisAção antimicrobianaCrescimento bacteriano
MotilidadeLimpeza intestinalEstase
Imunidade intestinalControlo microbianoDisbiose

Como surge o SIBO?

O SIBO raramente surge por acaso. Na maioria dos casos existe uma alteração subjacente que compromete os mecanismos naturais de defesa intestinal¹˒².

A hipomotilidade, a estase intestinal, alterações anatómicas após cirurgia, redução da acidez gástrica e doenças sistémicas podem criar um ambiente favorável à proliferação bacteriana¹˒⁶˒⁸.


Como surge o SIBO?

Fator predisponente

Alteração da motilidade ou anatomia

Estase intestinal

Crescimento bacteriano excessivo

Fermentação aumentada

Gases, inflamação e sintomas


Principais fatores de risco

Entre os fatores de risco mais relevantes encontram-se a idade avançada, diabetes mellitus, cirurgia gastrointestinal, esclerodermia, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, hipocloridria e utilização prolongada de inibidores da bomba de protões¹˒⁶˒¹⁴˒¹⁵.

A diabetes pode favorecer o SIBO através de neuropatia autonómica e alteração da motilidade gastrointestinal⁶˒⁸.

A cirurgia gastrointestinal pode criar ansas cegas, alterações anatómicas ou zonas de estase que facilitam o crescimento bacteriano²˒²⁴.

Na esclerodermia, a redução da motilidade intestinal é um dos principais mecanismos associados ao aparecimento de SIBO¹˒²⁶.


Tabela 3 — Principais fatores de risco

FatorMecanismoRelevância
DiabetesHipomotilidadeFrequente
Cirurgia digestivaEstaseElevada
IBP prolongadosMenor acidezModerada
EsclerodermiaMotilidade reduzidaElevada
Doença celíacaAlteração mucosaVariável

Sintomas mais frequentes

Os sintomas do SIBO são inespecíficos e sobrepõem-se a várias doenças digestivas, sobretudo à síndrome do intestino irritável¹˒⁹.

Os sintomas mais comuns incluem distensão abdominal, flatulência, dor abdominal, diarreia, obstipação, náuseas e sensação de enfartamento¹˒²˒⁷.

A intensidade clínica é muito variável: alguns doentes têm apenas desconforto ligeiro, enquanto outros apresentam sintomas persistentes com impacto relevante na qualidade de vida²˒²⁶.


Tabela 4 — Sintomas digestivos comuns

SintomaMecanismo provávelObservação
InchaçoGasesMuito comum
FlatulênciaFermentaçãoFrequente
DiarreiaÁcidos biliares alteradosComum
ObstipaçãoMetanoFrequente
Dor abdominalDistensãoVariável

Hidrogénio, metano e sulfureto de hidrogénio

A fermentação bacteriana no intestino delgado pode produzir diferentes gases, nomeadamente hidrogénio, metano e sulfureto de hidrogénio³˒⁴.

O hidrogénio está mais associado a diarreia, enquanto o metano se associa frequentemente a obstipação³˒²².

O metano é produzido sobretudo por arqueias, como Methanobrevibacter smithii, razão pela qual alguns autores preferem a designação “sobrecrescimento metanogénico intestinal” para estes casos³˒²².


Tabela 5 — Perfis de gases

PerfilGás dominanteSintomas associados
HidrogénioH₂Diarreia
MetanoCH₄Obstipação
Sulfureto de hidrogénioH₂SDor e diarreia

SIBO e síndrome do intestino irritável

A relação entre SIBO e síndrome do intestino irritável é uma das áreas mais debatidas da gastroenterologia moderna⁹˒²⁷.

Vários estudos demonstraram maior prevalência de testes respiratórios positivos em doentes com síndrome do intestino irritável, mas isso não prova que todos os casos sejam causados por SIBO⁹˒²⁷.

O consenso atual é que existe uma sobreposição parcial entre ambas as condições, devendo o diagnóstico ser interpretado com prudência e sempre em contexto clínico¹˒²˒⁹.


Tabela 6 — SIBO versus Síndrome do Intestino Irritável

AspetoSIBOSII
InchaçoFrequenteFrequente
Dor abdominalFrequenteFrequente
DiarreiaPossívelPossível
ObstipaçãoPossívelPossível
Teste respiratórioPode ser positivoPode ser positivo

Consequências nutricionais

Quando prolongado ou grave, o SIBO pode interferir com a absorção de nutrientes, particularmente vitamina B12, ferro e vitaminas lipossolúveis²˒²⁶.

As bactérias podem consumir vitamina B12, desconjugar ácidos biliares e comprometer a digestão das gorduras²˒²⁴.

Em situações mais avançadas pode ocorrer esteatorreia, perda ponderal, anemia ou défices nutricionais clinicamente relevantes²⁴˒²⁸.


Tabela 7 — Défices nutricionais associados

NutrienteAlteração possívelConsequência
Vitamina B12ReduçãoAnemia, fadiga
FerroReduçãoAnemia
Vitaminas A, D, E, KMá absorçãoDéfices variados
GordurasMá absorçãoEsteatorreia

Diagnóstico

O diagnóstico de SIBO deve integrar sintomas, fatores de risco e exames complementares¹˒².

Nenhum teste é perfeito. A cultura jejunal tem limitações técnicas e os testes respiratórios podem gerar falsos positivos ou falsos negativos¹˒³˒⁴.

Por isso, as guidelines recomendam que os resultados sejam interpretados em conjunto com a história clínica e não como prova isolada¹˒²˒⁴.


Testes respiratórios

Os testes respiratórios com glicose ou lactulose são os métodos mais usados na prática clínica para avaliar a produção de hidrogénio e metano³˒⁴.

A glicose tende a ser mais específica, mas pode falhar casos localizados em segmentos mais distais do intestino delgado³˒⁴.

A lactulose percorre todo o intestino delgado, mas pode ser mais suscetível a falsos positivos relacionados com trânsito intestinal acelerado³˒⁴.


Tabela 8 — Glicose versus lactulose

SubstratoVantagemLimitação
GlicoseMaior especificidadePode falhar SIBO distal
LactuloseAvalia maior extensãoMais falsos positivos
AmbosNão invasivosInterpretação variável

Cultura jejunal

A aspiração jejunal com cultura bacteriana foi historicamente considerada o método de referência, mas é invasiva, dispendiosa e sujeita a contaminação¹˒³.

Além disso, a cultura convencional pode não identificar adequadamente microrganismos anaeróbios ou arqueias produtoras de metano¹˒⁵.

Por estas razões, é utilizada sobretudo em centros especializados ou em casos selecionados¹˒².


Tratamento

O tratamento do SIBO deve ter como objetivos reduzir a carga microbiana excessiva, aliviar sintomas, corrigir défices nutricionais e tratar a causa subjacente¹˒².

A abordagem pode incluir antibióticos, estratégias dietéticas, correção de fatores predisponentes, melhoria da motilidade intestinal e acompanhamento clínico¹˒²˒¹⁰.

Tratar apenas com antibiótico, sem corrigir a causa de base, aumenta o risco de recidiva¹¹.


Estratégia terapêutica moderna:

Confirmar suspeita clínica

Identificar fatores de risco

Tratar crescimento bacteriano

Corrigir défices nutricionais

Melhorar motilidade

Prevenir recidivas


Rifaximina

A rifaximina é o antibiótico mais estudado no SIBO e possui absorção sistémica mínima, atuando predominantemente no lúmen intestinal¹˒¹⁰.

Meta-análises indicam que a terapêutica antibiótica pode melhorar sintomas e normalizar testes respiratórios em parte dos doentes com SIBO¹⁰.

A resposta à rifaximina parece ser mais favorável nos casos com predominância de hidrogénio, enquanto os casos metanogénicos podem necessitar de estratégias combinadas¹˒²².


Tabela 9 — Rifaximina no SIBO

CaracterísticaSignificadoRelevância
Baixa absorçãoAção localMelhor tolerabilidade
Evidência amplaMais estudadaUso frequente
Melhor no H₂DiarreiaMaior resposta
Menor no CH₄ObstipaçãoPode exigir combinação

Dieta Low-FODMAP

A dieta Low-FODMAP reduz hidratos de carbono fermentáveis, podendo diminuir produção de gases, distensão abdominal e dor em doentes com sintomas funcionais gastrointestinais¹⁹˒²⁰.

Apesar de útil no controlo sintomático, esta dieta não deve ser apresentada como “cura” do SIBO¹⁹.

A fase restritiva deve ser temporária, seguida de reintrodução progressiva, idealmente com acompanhamento profissional, para evitar restrição alimentar desnecessária e possível redução da diversidade da microbiota¹⁹˒²⁰.


Tabela 10 — Exemplos FODMAP

Mais ricos em FODMAPMais pobres em FODMAP
CebolaCenoura
AlhoCourgette
MaçãMorango
TrigoArroz
LeguminosasBatata

Probióticos

Os probióticos continuam a ser uma área controversa no SIBO¹⁶˒¹⁷.

Uma meta-análise sugeriu que os probióticos podem melhorar alguns sintomas e reduzir resultados positivos em testes respiratórios, mas a heterogeneidade dos estudos limita conclusões definitivas¹⁶.

Os efeitos dependem da estirpe, dose, duração, contexto clínico e características individuais do doente¹⁶˒¹⁷.

Assim, os probióticos não devem ser recomendados universalmente para todos os casos, mas podem ser ponderados de forma individualizada¹⁶˒¹⁸.


Prevenção de recidivas

As recidivas após tratamento são frequentes, sobretudo quando persistem fatores predisponentes como hipomotilidade, alterações anatómicas, doença sistémica ou uso prolongado de medicação predisponente¹¹.

Um estudo clássico demonstrou recorrência significativa após antibioterapia, reforçando a importância de tratar a causa subjacente e manter vigilância clínica¹¹.

A prevenção passa por rever medicação, otimizar motilidade, corrigir défices nutricionais, controlar doenças de base e evitar dietas excessivamente restritivas sem indicação clínica¹˒²˒¹¹.


Tabela 11 — Estratégias para reduzir recidivas

EstratégiaObjetivo
Tratar doença de baseReduzir fator causal
Rever IBPEvitar hipocloridria desnecessária
Melhorar motilidadeReduzir estase
Corrigir déficesRecuperar estado nutricional
Seguimento clínicoDetetar recidiva precoce

17. Mitos e factos

MitoFacto científico
Todo o inchaço é SIBOExistem muitas causas de distensão abdominal¹˒²
Um teste positivo confirma tudoO contexto clínico é indispensável¹˒³˒⁴
A dieta cura semprePode aliviar sintomas, mas não elimina necessariamente a causa¹⁹
Probióticos resolvem todos os casosA evidência é heterogénea¹⁶˒¹⁷
A rifaximina resulta sempreA resposta varia entre doentes¹˒¹⁰

Perguntas frequentes

O SIBO é contagioso?

Não. O SIBO não é considerado uma doença contagiosa; resulta sobretudo de alterações internas da motilidade, anatomia, secreções digestivas ou doenças associadas¹˒².

O SIBO pode voltar?

Sim. As recidivas são frequentes quando a causa subjacente não é corrigida¹¹.

Todos os doentes precisam de antibiótico?

Não necessariamente. A decisão deve depender da gravidade dos sintomas, contexto clínico, fatores de risco e resultados dos exames¹˒².

A dieta Low-FODMAP deve ser permanente?

Não. Deve ser usada por tempo limitado, com reintrodução gradual de alimentos¹⁹˒²⁰.

Os probióticos são obrigatórios?

Não. Podem ajudar alguns doentes, mas a evidência não justifica uso universal¹⁶˒¹⁷.


Conclusão

O SIBO é uma condição complexa, situada na interseção entre microbiota intestinal, motilidade gastrointestinal, anatomia digestiva, secreções intestinais e doenças sistémicas¹˒²˒⁵. Embora esteja cada vez mais presente na discussão pública sobre saúde digestiva, continua a exigir uma abordagem clínica cuidadosa, porque os sintomas são inespecíficos e os testes disponíveis têm limitações relevantes³˒⁴.

A melhor estratégia passa por uma abordagem integrada: suspeita clínica adequada, uso criterioso dos testes respiratórios, identificação dos fatores predisponentes, tratamento individualizado, correção nutricional e prevenção de recidivas¹˒²˒¹¹. À medida que a investigação sobre microbioma, metabolómica e arqueias intestinais evolui, é provável que surjam métodos diagnósticos mais precisos e terapias mais personalizadas⁵˒²⁹˒³⁰.


Principais mensagens a reter

✓ O SIBO corresponde a crescimento excessivo de microrganismos no intestino delgado¹˒².
✓ Os sintomas mais comuns são inchaço, gases, dor abdominal, diarreia e obstipação¹˒².
✓ O metano está frequentemente associado à obstipação³˒²².
✓ Os testes respiratórios são úteis, mas têm limitações³˒⁴.
✓ A rifaximina é o antibiótico mais estudado¹˒¹⁰.
✓ A dieta Low-FODMAP pode melhorar sintomas, mas não deve ser permanente¹⁹˒²⁰.
✓ As recidivas são frequentes se a causa subjacente não for corrigida¹¹.


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Chás infusões tisanas e medicamentos estratégias de segurança

Chás, infusões e tisanas qual a influência das infusões e do chá na atividade terapêutica dos medicamentos? Quais as principais interações medicamentosas e efeitos adversos das infusões e chás? Qual a diferença entre chá, infusão e tisana?

Neste artigo vou descrever os principais chás, infusões e tisanas, quais as suas propriedades e interações medicamentosas. A lista de infusões ordenada alfabeticamente com os nomes científicos das plantas entre parênteses, para que possas já identificar a tua infusão habitual, é descrita de seguida:

  1. Ashwagandha (Withania somnifera)
  2. Barbas de Milho (Zea mays)
  3. Camomila (Matricaria chamomilla ou Chamaemelum nobile)
  4. Canela – Cinnamomum verum (canela-do-ceilão) ou Cinnamomum cassia (canela-cássia)
  5. Carqueja (Baccharis trimera)
  6. Cavalinha (Equisetum arvense)
  7. Cidreira (Melissa officinalis)
  8. Cogumelo juba-de-leão (Hericium erinaceus)
  9. Equinácea (Echinacea purpurea, Echinacea angustifolia ou Echinacea pallida)
  10. Erva-doce (Foeniculum vulgare)
  11. Erva de São Roberto (Geranium robertianum)
  12. Flor de Laranjeira (Citrus aurantium)
  13. Flor de Tília (Tilia cordata ou Tilia platyphyllos)
  14. Frutos Vermelhos (diversas espécies, geralmente Rubus idaeus ou Vaccinium spp.)
  15. Gengibre (Zingiber officinale)
  16. Hibisco (Hibiscus sabdariffa)
  17. Hipericão (Erva-de-São-João) (Hypericum perforatum)
  18. Hortelã (Mentha spicata ou Mentha piperita)
  19. Jasmim (Jasminum officinale ou Jasminum sambac)
  20. Lavanda (Lavandula angustifolia)
  21. Limonete (Erva-Luísa) (Aloysia citrodora)
  22. Limão (Citrus limon)
  23. Louro (Laurus nobilis)
  24. Macela Cabeças (Achyrocline satureioides)
  25. Malvas (Malva sylvestris)
  26. Pau d’Arco (Tabebuia impetiginosa ou Handroanthus impetiginosus)
  27. Pés de Cereja (Prunus avium)
  28. Quebra-Pedra (Phyllanthus niruri)
  29. Sene (Cassia angustifolia)

Lista de chás referidos no artigo:

  • Chá verde (Camellia sinensis)
  • Chá preto (Camellia sinensis)
  • Chá branco (Camellia sinensis)
  • Chá Oolong (Camellia sinensis)
  • Chá de matcha (Camellia sinensis)
  • Chá imperial (mistura de Camellia sinensis com outras plantas)

Neste artigo vou tratar os seguintes temas:

  • Diferença entre chá, infusão e tisana
  • Plantas mais usadas
  • Propriedades terapêuticas
  • Interações com medicamentos
  • Melhores combinações de plantas para potenciar efeito terapêutico
  • Relaxamento e insónia (melhor tisana)
  • Digestão e alívio de cólicas (melhor tisana)
  • Imunidade melhorada (melhor tisana)
  • Desintoxicação e retenção de líquidos (melhor tisana)
  • Stress e ansiedade (melhor tisana) 
  • Problemas renais e cálculos no rim ou pedra no rim (melhor tisana)
  • Resfriados e tosse (melhor tisana)
  • Obstipação ou intestino preso (melhor tisana)
  • Forma de preparação das tisanas
As cinco grandes mentiras sobre saúde
As cinco grandes mentiras sobre saúde

Chás infusões e tisanas qual a diferença?

Embora muitas pessoas acreditem ser a mesma coisa, grande parte das bebidas quentes a que chamamos chá são, na verdade, infusões. Os chás são bebidas feitas a partir de uma única planta, a Camellia sinenses, também conhecida como “Chá-da-Índia”. Assim, bebidas preparadas a partir de outras plantas como cidreira, camomila, erva doce, melissa ou especiarias, são classificadas como infusões.

Com a planta Camellia sinenses, é possível preparar uma enorme variedade de chás, que variam de acordo com o cultivo, nível de fermentação, coleta e preparação das folhas. No geral, os diversos tipos podem ser divididos em quatro grupos:

  • Chá preto,  altamente fermentado e de sabor forte;
  • Chá oolong, de fermentação mediana com sabor intermediário;
  • Chá verde, levemente fermentado e com sabor suave;
  • Chá branco: produzido a partir de folhas jovens e tenras, não fermentado.

Já a infusão é o nome do processo que utiliza água fervente numa substância para extrair os seus princípios ativos e medicinais. Por exemplo, o denominado chá de camomila é na verdade uma infusão.

Chá

  • Origem: O chá propriamente dito vem da planta Camellia sinensis. As variedades de chá (preto, verde, branco, oolong) são todas derivadas dessa planta, com diferenças no processamento e oxidação das folhas.
  • Cafeína: O chá contém cafeína, com níveis que variam dependendo do tipo e do tempo de infusão.
  • Benefícios: Cada tipo de chá oferece diferentes benefícios para a saúde, como antioxidantes, que ajudam na prevenção de doenças.

Infusão

  • Origem: As infusões são feitas com uma variedade de plantas, ervas, flores, frutas e especiarias que não vêm da Camellia sinensis. Exemplos incluem camomila, hortelã, erva-cidreira, erva-doce e hibisco.
  • Cafeína: Geralmente, infusões não contêm cafeína, tornando-as uma boa opção para quem quer evitar esse estimulante.
  • Benefícios: Dependem dos ingredientes usados. Por exemplo, a camomila é conhecida por suas propriedades calmantes, enquanto a hortelã pode ajudar na digestão.

Preparação

Tanto chás quanto infusões são preparados com a imersão das folhas ou partes das plantas em água quente. No entanto, a temperatura da água e o tempo de infusão podem variar dependendo da planta para otimizar o sabor e as propriedades da bebida.

Em resumo, o chá vem exclusivamente da Camellia sinensis e pode conter cafeína, enquanto as infusões são mais diversificadas em termos de ingredientes e geralmente não contêm cafeína.


Tisanas

As tisanas são preparações feitas à base de ervas, flores, folhas, raízes, cascas ou frutos de plantas, geralmente preparadas através de infusão, decocção ou macerado em água quente ou fria. O termo é frequentemente usado como sinónimo de infusões, mas pode ter um significado mais amplo, englobando diferentes métodos de extração dos princípios ativos das plantas.

Características das Tisanas:

  1. Sem cafeína – Ao contrário do chá (que vem da planta Camellia sinensis), as tisanas não contêm cafeína, tornando-as uma opção mais relaxante e versátil.
  2. Diversidade de ingredientes – Podem incluir ervas medicinais (como camomila, hortelã), frutas secas, especiarias (como canela) e até flores (como hibisco ou lavanda).
  3. Uso terapêutico – Muitas tisanas são utilizadas na medicina natural para tratar ou aliviar condições como ansiedade, insónia, problemas digestivos, resfriados e inflamações.
  4. Preparação variada
    • Infusão – Para partes delicadas como folhas e flores.
    • Decocção – Para partes mais duras, como raízes e cascas.
    • Macerado – Deixar os ingredientes em água fria por horas (ideal para extrair certos compostos sensíveis ao calor).

Exemplos de Tisanas

  • Calmantes: Camomila, erva-cidreira, flor de laranjeira.
  • Digestivas: Hortelã, gengibre, erva-doce.
  • Diuréticas: Cavalinha, hibisco, barbas de milho.
  • Imunológicas: Pau d’arco, equinácea, gengibre com limão.

Benefício principal

As tisanas são altamente personalizáveis, podendo ser misturadas de acordo com o gosto ou a necessidade terapêutica de cada pessoa. Assim, as tisanas representam uma prática tradicional e natural de cuidado com a saúde e bem-estar.

Chás infusões e tisanas propriedades e efeitos adversos
Chás infusões e tisanas propriedades e efeitos adversos

Propriedades terapêuticas e interações com medicamentos

De seguida descrevo as propriedade medicinais mais relevantes e as interações medicamentosas mais perigosas.

Chá Verde, Chá Preto, Chá Branco e Chá Oolong

Propriedades:

Interações:

O chá verde, rico em catequinas com forte ação antioxidante, pode interferir na eficácia de anticoagulantes, elevando o risco de formação de coágulos sanguíneos.

  • Anticoagulantes: Pode aumentar o risco de sangramentos devido à presença de vitamina K (especialmente chá verde).
  • Medicamentos para pressão arterial: Pode interferir no controle da pressão devido ao efeito estimulante da cafeína.
  • Medicamentos para ansiedade e insónia: Pode aumentar os efeitos adversos devido à cafeína.

Infusões

Descrevo de seguida as principais infusões com efeitos medicinais, respetivas propriedades terapêuticas e interações medicamentosas.

Camomila

Camomila propriedades e efeitos adversos
Camomila propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Calmante, anti-inflamatório, auxilia na digestão.

Interações com medicamentos :

A camomila, conhecida pelas suas propriedades digestivas e sedativas, pode potencializar os efeitos de anticoagulantes orais, aumentando o risco de hemorragias. Além disso, em doses elevadas, pode causar paralisia dos músculos lisos do aparelho digestivo, útero e bexiga.

  • Anticoagulantes/antiplaquetários: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Sedativos: Pode intensificar o efeito sedativo.
  • Antidepressivos: Pode potencializar os efeitos de medicamentos como os inibidores da MAO.

Cidreira

Cidreira propriedades e efeitos adversos
Cidreira propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Calmante, melhora a digestão, alivia ansiedade.

Interações com medicamentos :

A Cidreira com o sedativo pentobarbital, potencializa o efeito do medicamento. Não é recomendado para hipotensos (pressão baixa).

  • Sedativos: Pode intensificar o efeito sedativo.
  • Tiróide: Pode interferir no funcionamento da tiróide em doses elevadas.

Flor de Tília

Tília propriedades e efeitos adversos
Tília propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Calmante, diurético leve, ajuda na insónia, ansiedade e problemas respiratórios (tosse e resfriados).

Interações com medicamentos :

  • Sedativos Pode intensificar o efeito sedativo.
  • Diuréticos Pode aumentar o efeito diurético.

Limão

Limão propriedades e efeitos adversos
Limão propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Refrescante, antioxidante, auxilia na digestão.

Interações com medicamentos:

  • Medicamentos para pressão arterial: Pode potencializar o efeito anti-hipertensivo.
  • Antiácidos: Pode alterar a absorção.

Sene

Sene propriedades e efeitos adversos
Sene propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Laxante poderoso, usado para tratar obstipação.

Interações com medicamentos :

  • Laxantes: Pode causar perda excessiva de eletrólitos se usado com outros laxantes.
  • Diuréticos: Pode aumentar o risco de desequilíbrio eletrolítico.
  • Medicamentos cardíacos: Pode interferir devido à perda de potássio, afetando o funcionamento cardíaco.

Hipericão (Erva-de-São-João)

Hipericão propriedades e efeitos adversos
Hipericão propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Antidepressivo natural, anti-inflamatório.

Interações com medicamentos:

A erva-de-São-João, frequentemente utilizada para tratar sintomas de depressão leve, pode interagir com antidepressivos, como a sertralina, levando a efeitos colaterais como sedação excessiva e depressão do sistema nervoso central.

  • Antidepressivos: Pode causar síndrome serotoninérgica se combinado.
  • Anticoncepcionais: Pode reduzir a eficácia.
  • Anticoagulantes: Pode diminuir a eficácia.
  • Imunossupressores: Pode reduzir a eficácia de medicamentos como a ciclosporina.

Gengibre

Gengibre propriedades e efeitos adversos
Gengibre propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Anti-inflamatório, melhora digestão, alivia náuseas.

Interações com medicamentos :

O chá de gengibre, embora popular por causa das suas propriedades anti-inflamatórias, pode aumentar o risco de sangramento quando consumido em grandes quantidades juntamente com anticoagulantes.

  • Anticoagulantes/antiplaquetários: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Hipoglicemiantes: Pode potencializar o efeito, causando hipoglicemia.

 Jasmim

Jasmin propriedades e efeitos adversos
Jasmin propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Relaxante, melhora o humor, antioxidante.

Interações com medicamentos : Pode potencializar o efeito de sedativos e ansiolíticos.


Erva-doce

Erva doce propriedades e efeitos adversos
Erva doce propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Digestivo, anti-inflamatório, alivia cólicas.

Interações com medicamentos:

  • Anticoagulantes/antiplaquetários: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Estrogénios: Pode interferir na eficácia de terapias hormonais.

Hibisco (rosa ou flor da Jamaica)

Hibisco ou rosa da Jamaica ou flor da Jamaica propriedades e efeitos adversos
Hibisco ou rosa da Jamaica ou flor da Jamaica propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Diurético, antioxidante, ajuda no controle da pressão arterial.

Interações com medicamentos :

  • Antihipertensivos: Pode potencializar o efeito, causando pressão arterial muito baixa.
  • Diuréticos: Pode aumentar o efeito diurético, causando desequilíbrios eletrolíticos.

Hortelã

Hortelã propriedades e efeitos adversos
Hortelã propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Digestivo, alivia dores de cabeça, calmante.

Interações com medicamentos:

  • Antiácidos: Pode interferir na eficácia.
  • Sedativos: Pode intensificar o efeito sedativo.

Barbas de Milho

Barbas de milho propriedades e efeitos adversos
Barbas de milho propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Diurético, anti-inflamatório, ajuda na saúde renal.

Interações com medicamentos:

  • Diuréticos: Pode intensificar o efeito, levando a desidratação ou desequilíbrios eletrolíticos.
  • Antihipertensivos: Pode potencializar a redução da pressão arterial.

Pés de Cereja

Pés de cereja propriedades e efeitos adversos
Pés de cereja Prunus avium

Propriedades: Diurético, purificante, usado para tratar problemas renais e urinários.

Interações com medicamentos:

  • Diuréticos: Pode aumentar o efeito diurético, causando desequilíbrios eletrolíticos.
  • Medicamentos para pressão arterial: Pode intensificar o efeito hipotensor.

Erva de São Roberto

Erva de São Roberto propriedades e efeitos adversos
Erva de São Roberto propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Anti-inflamatório, diurético, hemostático.

Interações com medicamentos:

  • Anticoagulantes/antiplaquetários: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Diuréticos: Pode potencializar o efeito diurético.

Frutos Vermelhos

Frutos vermelhos framboesas propriedades e efeitos adversos
Frutos vermelhos framboesas propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Antioxidante, anti-inflamatório, fortalece o sistema imunológico.

Interações com medicamentos: Geralmente, tem menos interações, mas em quantidades elevadas, pode interferir na absorção de certos medicamentos.


Cavalinha

Cavalinha propriedades e efeitos adversos
Cavalinha propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Diurético, adstringente, rico em sílica (bom para ossos e unhas), ajuda no tratamento de infeções urinárias e retenção de líquidos.

Interações com medicamentos:

  • Diuréticos: Pode intensificar o efeito, causando desequilíbrios eletrolíticos.
  • Antihipertensivos: Pode diminuir excessivamente a pressão arterial.
  • Lítio: Pode alterar a excreção do lítio, aumentando o risco de efeitos colaterais.

Flor de Laranjeira

Flor de laranjeira propriedades e efeitos adversos
lor de laranjeira propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Calmante, sedativo leve, ajuda na ansiedade, insônia e problemas digestivos.

Interações com medicamentos :

  • Sedativos: Pode intensificar o efeito sedativo.
  • Antidepressivos: Pode interagir com inibidores da MAO (raro, mas possível).

Limonete (Erva-Luísa)

Limonete (Erva -Luísa) propriedades e efeitos adversos
Limonete (Erva -Luísa) propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Calmante, digestivo, antioxidante, alivia cólicas e problemas gastrointestinais.

Interações com medicamentos :

  • Sedativos: Pode potencializar o efeito sedativo.
  • Medicamentos gastrointestinais: Pode alterar o pH gástrico e interferir na eficácia de alguns medicamentos.

Macela Cabeças

Macela propriedades e efeitos adversos
Macela propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Anti-inflamatório, calmante, digestivo, ajuda a aliviar dores de estômago e cólicas.

Interações com medicamentos :

  • Anticoagulantes: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Medicamentos gastrointestinais: Pode potencializar ou interferir no efeito.

Malvas

Malva propriedades e efeitos adversos
Malva propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Emoliente, calmante, expetorante, ajuda em problemas respiratórios, digestivos e na inflamação das mucosas.

Interações com medicamentos :

  • Antidiabéticos: Pode interferir nos níveis de glicose no sangue.
  • Medicamentos respiratórios: Pode potencializar o efeito mucolítico.

Pau d’Arco

Pau D´'arco propriedades e efeitos adversos
Pau D´’arco propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Antifúngico, anti-inflamatório, antioxidante, fortalece o sistema imunológico, usado no tratamento de infeções e doenças crónicas.

Interações com medicamentos :

  • Anticoagulantes: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Imunossupressores: Pode reduzir a eficácia.
  • Antidiabéticos: Pode interferir nos níveis de glicose.

Quebra-Pedra

Quebra-pedra propriedades e efeitos adversos
Quebra-pedra propriedades e efeitos adversos

Propriedades: Diurético, ajuda no tratamento de cálculos renais, anti-inflamatório, protetor hepático.

Interações com medicamentos:

  • Diuréticos: Pode aumentar o efeito, causando desequilíbrios eletrolíticos.
  • Antihipertensivos: Pode reduzir excessivamente a pressão arterial.
  • Medicamentos para diabetes: Pode potencializar a hipoglicemia.

Equinácea

Equinácea propriedades e efeitos adversos
Equinácea propriedades e efeitos adversos

Propriedades:

  • Fortalece o sistema imunitário;
  • Previne e trata resfriados e gripes;
    • Antiviral e antibacteriano;
    • Anti-inflamatório, útil em infecções respiratórias e problemas de pele.

Interações com medicamentos:

  • Imunossupressores;
    • Pode reduzir a eficácia de medicamentos como ciclosporina, tacrolimus e corticosteroides;
    • Medicamentos para alergias: Pode aumentar o risco de reações alérgicas em pessoas sensíveis;
    • Anticoagulantes/antiplaquetários: Pode interferir na coagulação, aumentando o risco de hemorragias;
  • Observação: Não é recomendado para uso prolongado (geralmente até 10-14 dias) ou para pessoas com doenças autoimunes.

Canela

Canela propriedades e efeitos adversos
Canela propriedades e efeitos adversos

Propriedades:

  • Antioxidante;
    • Anti-inflamatória e antimicrobiana;
    • Ajuda no controle da glicemia (reduz os níveis de açúcar no sangue);
    • Estimula a circulação e pode ajudar na digestão.

Interações com medicamentos:

  • Anticoagulantes (ex.: varfarina);
    • Pode aumentar o risco de sangramentos, especialmente com o uso de Cinnamomum cassia devido ao alto teor de cumarina;
    • Medicamentos para diabetes – pode potencializar a redução de glicemia, causando hipoglicemia;
    • Antibióticos e hepatotóxicos – pode sobrecarregar o fígado em doses elevadas ou prolongadas;
  • Observação: O consumo em quantidades moderadas é seguro; evite o uso excessivo, especialmente da canela-cássia.

Lavanda

Lavanda propriedades e efeitos adversos
Lavanda propriedades e efeitos adversos

Propriedades

  • Calmante, sedativa e relaxante;
    • Ajuda na ansiedade, insônia e tensão nervosa;
    • Antiespasmódica, útil para aliviar dores musculares e cólicas;
    • Antisséptica, pode ser usada externamente para pequenas feridas e irritações na pele.

Interações com medicamentos:

  • Sedativos (ex.: benzodiazepinas, barbitúricos);
    • Pode intensificar o efeito sedativo, causando sonolência excessiva;
    • Antidepressivos: Pode potencializar o efeito calmante, o que pode levar à sonolência;
    • Anticonvulsivantes: Pode interferir na eficácia ou intensificar os efeitos de medicamentos para convulsões;
  • Observação: Geralmente segura quando consumida em doses moderadas. Evitar o uso excessivo em crianças pequenas e mulheres grávidas sem orientação.

Carqueja

Carqueja propriedades e efeitos adversos
Carqueja propriedades e efeitos adversos

Propriedades:

  • Digestiva;
    • Hepatoprotetora (auxilia na proteção e desintoxicação do fígado);
    • Diurética (ajuda na eliminação de líquidos e no funcionamento renal).
    • Anti-inflamatória e antioxidante;
    • Ajuda a reduzir os níveis de glicose no sangue e é utilizada tradicionalmente no controle da diabetes.

Interações com medicamentos:

  • A Carqueja potencia o efeito do lítio (usado em medicamentos que controlam a depressão);
    • Medicamentos para diabetes: Pode potencializar a redução da glicose, causando hipoglicemia;
    • Anticoagulantes: Pode aumentar o risco de sangramento devido às suas propriedades circulatórias;
    • Anti-hipertensivos: Pode intensificar o efeito, levando à hipotensão.

Louro

Louro propriedades e efeitos adversos
Louro propriedades e efeitos adversos

Propriedades:

  • Digestiva (ajuda em casos de má digestão e gases);
    • Antisséptica;
    • Antimicrobiana;
    • Anti-inflamatória, útil para aliviar dores articulares;
    • Calmante, podendo ajudar em situações de ansiedade leve.

Interações com medicamentos

  • Sedativos;
    • Pode aumentar a sonolência quando combinado com medicamentos como benzodiazepinas;
    • Anticoagulantes: Pode interferir na coagulação, aumentando o risco de hemorragias;
    • Antidiabéticos: Pode reduzir a glicose no sangue, exigindo monitorização para evitar hipoglicemia.

Ashwagandha

Ashwagandha propriedades e efeitos adversos
Ashwagandha propriedades e efeitos adversos
  • Propriedades:
    • Adaptogénica, ajuda o corpo a lidar com o estresse.
    • Reduz a ansiedade e melhora a qualidade do sono.
    • Aumenta a energia, reduzindo o cansaço.
    • Anti-inflamatória, útil para dores musculares e articulares.
  • Interações com Medicamentos:
    • Sedativos: Pode intensificar os efeitos de medicamentos para ansiedade e insónia.
    • Imunossupressores: Pode interferir, já que estimula o sistema imunológico.
    • Medicamentos para a tiroide: Pode potencializar o efeito de medicamentos para hipotireoidismo, causando hiperatividade da tiroide.
  • Observação: Deve ser evitada por grávidas ou lactantes sem orientação médica.

Cogumelo juba-de-leão (Lion’s Mane)

Cogumelo juba-de-leão (Lion´s Mane) propriedades e efeitos adversos
Cogumelo juba-de-leão (Lion´s Mane) propriedades e efeitos adversos
  • Propriedades:
    • Neuroprotetora (ajuda a melhorar a memória e a cognição).
    • Estimula a produção de fator de crescimento nervoso (NGF), auxiliando na regeneração neuronal.
    • Anti-inflamatória e antioxidante.
    • Melhora a saúde gastrointestinal.
  • Interações com Medicamentos:
    • Antidepressivos: Pode potencializar os efeitos devido à estimulação da regeneração nervosa.
    • Medicamentos imunossupressores: Pode interferir devido ao efeito estimulante no sistema imunológico.
    • Anticoagulantes: Pode aumentar o risco de sangramento.
  • Observação: Geralmente bem tolerado, mas deve ser consumido com precaução em pessoas com condições autoimunes.

Matcha (chá)

  • Nome Científico: Camellia sinensis (derivado das folhas do chá verde, moídas em pó)
  • Propriedades:
    • Rico em antioxidantes (catequinas) que combatem o envelhecimento celular.
    • Aumenta a energia e a concentração devido ao teor de cafeína e L-teanina.
    • Auxilia no metabolismo e pode ajudar na perda de peso.
    • Melhora a função cerebral e é anti-inflamatório.
  • Interações com Medicamentos:
    • Estimulantes (ex.: anfetaminas): Pode aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial.
    • Anticoagulantes: O teor de vitamina K pode reduzir a eficácia de medicamentos como a varfarina.
    • Antidepressivos: Pode interagir com medicamentos que atuam no sistema nervoso central.
  • Observação: Evitar o consumo em excesso para prevenir insónia, palpitações ou irritabilidade.

Chá Imperial

  • Propriedades: Pode variar dependendo da composição, mas geralmente inclui uma mistura de ervas como chá verde, ginseng, jasmim, etc., focando em benefícios como antioxidantes, melhora da energia e da função cerebral.
  • Interações: Depende dos ingredientes específicos. Pode ter interações semelhantes às do chá verde (cafeína, anticoagulantes) e ginseng (anticoagulantes, estimulantes).

Essas infusões, especialmente as mais potentes como o sene e o barbas de milho, devem ser usadas com cautela, especialmente em combinação com medicamentos. Consultar um profissional de saúde antes de incluí-las na rotina é sempre recomendável para evitar interações adversas.


Tisanas – combinações terapêuticas

Aqui estão algumas sugestões de combinações de tisanas específicas para diferentes finalidades. Cada uma delas é composta por ingredientes que trabalham em sinergia para promover os efeitos desejados:


Relaxamento e Insónia 🌙

Ingredientes:

  • Camomila (Matricaria chamomilla ou Chamaemelum nobile)
  • Erva-cidreira (Melissa officinalis)
  • Flor de laranjeira (Citrus aurantium)
  • Lavanda (Lavandula angustifolia) (opcional, para aroma e efeito relaxante)

Modo de preparação:
Faça uma infusão de 1 colher de chá de cada erva em 250 ml de água quente por 5-7 minutos. Beba antes de dormir.


Digestão e alívio de Cólicas 🍵

Ingredientes:

  • Hortelã-pimenta (Mentha piperita)
  • Erva-doce (Foeniculum vulgare)
  • Gengibre (Zingiber officinale)
  • Limonete (Aloysia citrodora)

Modo de preparação:
Use 1 colher de chá de cada ingrediente em 300 ml de água quente. Deixe em infusão por 5-8 minutos. Pode tomar após as refeições.


Imunidade melhorada 💪

Ingredientes:

  • Pau d’arco (Tabebuia impetiginosa)
  • Gengibre (Zingiber officinale)
  • Hibisco (Hibiscus sabdariffa)
  • Canela em pau (Cinnamomum verum)

Modo de preparação:
Faça uma decocção: ferva 1 colher de chá de pau d’arco e canela por 10 minutos. Retire do fogo, adicione gengibre e hibisco e deixe em infusão por 5 minutos. Coe e beba quente.


Desintoxicação e retenção de líquidos 💧

Ingredientes:

  • Cavalinha (Equisetum arvense)
  • Barbas de milho (Zea mays)
  • Hibisco (Hibiscus sabdariffa)
  • Pés de cereja (Prunus avium)

Modo de preparação:
Faça uma infusão de 1 colher de chá de cada ingrediente em 500 ml de água quente por 8-10 minutos. Beba ao longo do dia.


Stresse e ansiedade 🌼

Ingredientes:

  • Flor de tília (Tilia cordata)
  • Jasmim (Jasminum officinale)
  • Camomila (Matricaria chamomilla)
  • Limonete (Aloysia citrodora)

Modo de preparação:
Use 1 colher de chá de cada erva em 300 ml de água quente. Infusão por 5-7 minutos. Adoce com mel, se desejar.


Problemas renais e cálculos (Pedras nos Rins) 💎

Ingredientes:

  • Quebra-pedra (Phyllanthus niruri)
  • Cavalinha (Equisetum arvense)
  • Barbas de milho (Zea mays)

Modo de preparação:
Faça uma infusão de 1 colher de chá de cada erva em 300 ml de água quente por 8 minutos. Tome 2-3 vezes ao dia, conforme orientação médica.


Resfriados e tosse 🤧

Ingredientes:

  • Gengibre (Zingiber officinale)
  • Malvas (Malva sylvestris)
  • Erva-doce (Foeniculum vulgare)
  • Canela em pau (Cinnamomum verum)

Modo de preparação:
Ferva gengibre e canela por 10 minutos. Retire do fogo, adicione malvas e erva-doce, e deixe em infusão por 5 minutos. Beba quente.


Regular o intestino (obstipação) 🌱

Ingredientes:

  • Sene (Cassia angustifolia) (usar com moderação)
  • Erva-doce (Foeniculum vulgare)
  • Hortelã (Mentha spicata)

Modo de preparação:
Use 1 colher de chá de cada erva em 300 ml de água quente. Infusão por 5-7 minutos. Tome ocasionalmente, pois o uso contínuo do sene pode causar dependência.


Concluindo

Estas combinações de plantas em chá, infusão ou tisana, devem ser ajustadas ao teu gosto e necessidades terapêuticas, sendo sempre recomendável consultar o médico ou farmacêutico antes de usar ervas para qualquer condição de saúde que te afete, especialmente se está grávida, se tem diagnósticos de doenças graves, se toma algum medicamento importante e/ou é um polimedicado ou seja se toma 4 ou mais medicamentos, para que se analise possíveis interações com as plantas, que tanto podem aumentar como diminuir o efeito terapêutico desses medicamentos.

Bibliografia

As cinco grandes mentiras sobre saúde

As melhores vitaminas e minerais para o cérebro

Vitaminas para o cérebro fadiga e cabelo quais as mais importantes? Quais os minerais mais relevantes? O que são exatamente as vitaminas e para que servem? Quando devo tomar um suplemento? Qual o melhor suplemento vitamínico? O excesso de vitaminas que problemas pode causar? Quais os sintomas de falta e de excesso?

Na minha prática profissional quase diariamente alguém me pede vitaminas para o cérebro e cansaço, mas serão mesmo necessárias? Para conseguir ajudar corretamente preciso de descobrir, antes de mais, o tipo de alimentação que têm, os suplementos que tomam, quais os sintomas para os quais procuram ajuda e os medicamentos que estão a tomar pois alguns, de facto, podem causar deficiência vitamínica.

No entanto antes de tudo isso deixo claro que o fator mais relevante, estruturante e decisivo para para o nosso cérebro e para um bom desempenho cognitivo é a qualidade do nosso sono… sem o qual não existem vitaminas ou minerais que possam fazer milagres!

A neurocientista dinamarquesa Maiken Nedergaard, descobriu, no nosso cérebro, o que designou de sistema glinfático, responsável pela “limpeza” diária do nosso cérebro e que ocorre durante a fase de sono profundo. Saiba tudo sobre este assunto no meu artigo sobre os segredos do sono, clicando na imagem abaixo.

Estudo: The Glymphatic System: A Beginner’s Guide


Neste artigo vou tratar os seguintes temas:

  • O que são as vitaminas
  • Quantas vitaminas existem
  • Relação entre a microbiota e as vitaminas
  • Funções das vitaminas
  • Alimentos ricos em vitaminas
  • Doses diárias recomendadas
  • Doses tóxicas
  • Doenças associadas à falta de vitaminas
  • Interações com medicamentos
  • Deficiência vitamínica causada por fármacos e drogas
  • As vitaminas e minerais mais importantes para o cérebro
  • O que faz bem ao cérebro
As cinco grandes mentiras sobre saúde
As cinco grandes mentiras sobre saúde
As cinco grandes mentiras sobre saúde
As cinco grandes mentiras sobre saúde

Vitaminas o que são?

As vitaminas e os minerais são considerados nutrientes essenciais, isto é, não podem ser sintetizados pelo organismo e, portanto, devem ser consumidos na dieta. No entanto se tivermos uma microbita intestinal equilibrada e saudável este geralmente incluiu bactérias produtoras de certas vitaminas.

O que são vitaminas? As vitaminas são chamadas de micronutrientes essenciais porque são necessárias ao organismo em pequenas quantidades em inúmeras reações químicas que incluem desde o metabolismo de hidratos de carbono, proteínas e gorduras, passando pela manutenção de um bom sistema imunitário, estabilidade do sistema nervoso central e até ás funções de reparação de DNA nas nossas células.

Sem as vitaminas estas reações químicas essenciais não se realizam ou ficam descompensadas causando com o tempo diversas doenças, algumas bastante graves! O organismo não armazena a maioria das vitaminas, nomeadamente as hidrossolúveis como as do complexo B (exceto a B12) e vitamina C. A deficiência dessas vitaminas geralmente desenvolve-se em semanas a meses. Portanto, as pessoas devem consumi-las regularmente.


Quantas vitaminas existem?

Atualmente a lista contém 20 vitaminas. O complexo de vitaminas B contém 8, o complexo de vitaminas K contém 5, o complexo de vitaminas D contém 4 e as vitaminas A, E e C completam a lista, conforme descrevo de seguida:

  • Vitamina A (retinol);
  • Vitamina D ou D3 (colecalciferol), D2, D4 e D5;
  • Vitamina E (tocoferol);
  • Vitamina K (naftoquinona), K1, K2, K3 e K4;
  • Vitamina C (ácido ascórbico);
  • Vitamina B1 (tiamina);
  • Vitamina B2 (riboflavina);
  • Vitamina B3 (niacina, vitamina PP, ácido nicotínico ou nicotinamida);
  • Vitamina B5 (ácido pantoténico);
  • Vitamina B6 (piridoxina, piridoxal ou piridoxamina);
  • Vitamina B7, B8 ou H (biotina);
  • Vitamina B9 (ácido fólico);
  • Vitamina B12 (cianocobalamina).

As vitaminas são classificadas conforme a sua solubilidade na água. Assim dividem-se em:

  • Vitaminas hidrossolúveis – Vitamina C e os oito membros do complexo da vitamina B;
  • Vitaminas lipossolúveis – Vitaminas A, D, E e K.

Apenas as vitaminas A, E e B12 são armazenadas em grande quantidade no corpo.


Microbioma e vitaminas

As bactérias do cólon são responsáveis por sintetizar vitaminas, sobretudo, a tiamina (B1), a B12, a biotina (B7), o ácido fólico (B9), e a vitamina K e fermentam hidratos de carbono indigeríveis (fibras) em ácidos gordos de cadeia curta que constituem fontes de energia para o hospedeiro (Gerritsen et al., 2011; Prakash, 2011).

As bactérias residentes do trato gastrintestinal contribuem para preservar parte da energia contida nos hidratos de carbono
indigeríveis da dieta como a celulose, hemicelulose e pectina, metabolizando os mesmos em ácidos gordos que são fontes de energia para as células do epitélio intestinal e facilitam a absorção de sódio e água, além de sintetizarem proteínas e vitaminas do complexo B (Prakash, 2011).

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Funções alimentos doenças e dose diária

As vitaminas são essenciais em inúmeras funções vitais do nosso corpo. Nas tabelas seguintes descrevo:

  • Todas as vitaminas que existem;
  • Funções;
  • Alimentos onde existem;
  • Doenças provocadas pela falta de vitaminas;
  • Ingestão diária recomendada;
  • Toxicidade ou limite superior de segurança.

Atualmente as vitaminas B4, B10 já não são consideradas vitaminas por não serem essenciais e a vitamina B11 não existe. a tabela seguinte descreve então as funções mais relevantes de cada vitamina no nosso organismo.

VitaminaFunções mais relevantes
A
(retinol ou axeroftol)
Mucosas, pele, imunidade e visão.
– Necessária para formar células nervosas sensíveis à luz (fotorreceptores) na retina, ajudando a manter a visão noturna;
– Ajuda a manter a saúde da pele, da córnea e do revestimento dos pulmões, do intestino e do trato urinário;
– Ajuda a proteger contra infeções;
– Formação de rodopsina (um pigmento fotorreceptor na retina);
– Integridade do epitélio;
– Estabilidade do lisossoma;
– Síntese de glicoproteína (união de uma proteína com um hidrato de carbono. As glicoproteínas estão muitas vezes presentes na superfície das células, como proteínas da membrana plasmática ou como parte da matriz extracelular e desempenham um papel crítico nas interações entra células e nos mecanismos de infeção por vírus e bactérias.
D ou D3 (colecalciferol)
D2 (ergocalciferol)
D4 (diidroergocalciferol)
D5
Coração, dentes, músculos e imunidade.
– Promove a absorção de cálcio e fósforo a partir do intestino;
– Necessária para a formação, crescimento e reparação (mineralização) dos ossos;
– Fortalece o sistema imunológico e reduz o risco de doenças autoimunes.
– Função reguladora do metabolismo da insulina (deficiência pode diminuir a resistência à insulina);
– Função reguladora do bom funcionamento da tiroide;
E
(tocoferol)
Células.
– Antioxidante intracelular;
– Remove os radicais livres nas membranas biológicas.
K (naftoquinona)
K1 (filoquinona)
K2 (menaquinonas)
K3 (menadiona)
K4 (menadiol)
Coagulação, ossos, coração e dentes.
– Auxilia na formação de protrombina, outros fatores de coagulação sanguínea e, portanto, é necessária para a normal coagulação do sangue.
– Necessária para a saúde dos ossos, dentes e outros tecidos.
B1
(tiamina)
Cérebro, coração e energia.
– Necessária para o metabolismo dos hidratos de carbono, glicose, aminoácidos e proteínas, gorduras e álcool;
– Funcionamento normal dos nervos (função celular nervosa central e periférica) e do coração (função miocardia).
B2
(riboflavina)
Células, cérebro, coração, energia e visão.
– Vários aspectos do metabolismo dos hidratos de carbono e proteínas;
– Integridade da mucosa. (ex: mucosa bucal).
B3
(niacina, vitamina PP, ácido nicotínico ou nicotinamida)
Mucosas, pele, cérebro e energia.
– Metabolismo celular de hidratos de carbono, de gorduras e muitas outras substâncias, para o funcionamento normal das células;
– Reações de oxidação e redução.
B4 ou Adenina
Atualmente não é considerada uma vitamina
B5
(ácido pantoténico)
Cérebro e energia.
– Necessário para o metabolismo de hidratos de carbono, proteínas e gorduras. É essencial na síntese da coenzima A, sendo por isso uma vitamina essencial no metabolismo dos mamíferos. 
B6
(piridoxina, piridoxal, piridoxamina )
Cérebro, coração, energia e imunidade.
– Necessária para o metabolismo de hidratos de carbono, aminoácidos e gorduras, para o funcionamento normal dos nervos, para a formação de glóbulos vermelhos e para uma pele saudável;
– Importante em muitos aspectos do metabolismo do nitrogênio (p. ex., transaminação, síntese heme e porfirina, conversão do triptofano em niacina)
– Biossíntese de ácido nucleico.
B7 ou
B8 ou
H
(biotina)
Digestão, mucosas, pele, unhas e energia.
Essencial a todos os organismos. Alguns conseguem sintetizá-la, como algumas estirpes de bactérias, leveduras, fungos, algas e certas espécies de plantas.
– Necessária para o metabolismo de carboidratos e ácidos gordos. Funciona como uma coenzima no metabolismo das purinas e dos hidratos.
– Atua na formação da pele, unhas e cabelo,.
B9
(ácido fólico)
Digestão, cérebro, coração, energia, imunidade e reprodução.
– Necessária para a formação dos glóbulos vermelhos do sangue (maturação dos eritrócitos) para a síntese do DNA e do RNA e para o desenvolvimento normal do sistema nervoso no feto;
– Síntese de purinas, pirimidinas e metionina;
B10
(ácido 4-aminobenzoico)
Atualmente não é considerada uma vitamina
B11 não existe
B12
(cianocobalamina)
Cérebro, coração e imunidade.
– Necessária para a formação e maturação dos glóbulos vermelhos do sangue, para o funcionamento dos nervos e para a síntese do DNA.
– Síntese e reparação de mielina. A bainha de mielina é uma membrana protetora essencial do axónio que é uma parte relevante das células nervosas.
C
(ácido ascórbico)
Células, mucosas, pele, unhas, coração, dentes, músculos, imunidade e energia.
– Necessária para a formação, crescimento e reparação dos ossos, pele e tecido conjuntivo;
– Melhora a cicatrização de feridas e queimaduras. É importante para o funcionamento normal dos vasos sanguíneos;
– Atua como um antioxidante, protegendo as células contra danos causados pelos radicais livres;
– Ajuda o organismo a absorver o ferro;
– Formação de colagénio;
– Síntese de aminoácidos, hormonas e carnitina;
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson , MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences


Alimentos com vitaminas

A maior parte das vitaminas encontram-se quer na carne quer nos vegetais. No entanto algumas só se encontram na quantidade saudável necessária a nossa alimentação incluir carne e vegetais.

Assim, se não comer carne, por exemplo se for vegan, dificilmente conseguirá um aporte saudável de vitamina B12. Por outro lado se não comer vegetais, por exemplo se seguir uma dieta carnívora, dificilmente conseguirá ingerir a quantidade necessária de vitamina C.

VitaminasFontes
alimentares
A (retinol)Como vitamina pré-formada: óleos de fígado de peixe, fígado, gemas de ovos, manteiga, produtos lácteos enriquecidos com vitamina A
Como carotenoides pró-vitamina: vegetais verdes escuros e amarelos, cenoura e frutas amarelas e laranjas
D (colecalciferol)Irradiação direta da pele por ultravioleta B (fonte principal); derivados do leite enriquecidos (principal fonte dietética), óleos de fígado de peixe, peixes gordos, fígado
E (tocoferol)Óleos vegetais (prefira azeite extra virgem) e oleaginosas como nozes, amêndoas, avelãs, castanha de caju, castanha do Pará, pistáchios e macadâmia.
K (naftoquinona)Vegetais folhosos verdes (em especial couve, espinafre e saladas verdes), soja, óleos vegetais
Bactérias do trato gastrointestinal após o período neonatal.
B1 (tiamina)Grãos integrais, carnes (em especial porco e fígado), cereais enriquecidos, oleaginosas, legumes, batatas.
B2 (riboflavina)Leite, queijos, fígado, carnes, ovos, cereais enriquecidos.
B3 (niacina)Fígado, carne vermelha, peixe, aves, legumes, pães e cereais de grãos integrais ou enriquecidos.
B5 (ácido pantoténico)Fígado, carne, gema de ovo, levedura, batatas, brócolos e cereais integrais. O termo pantoténico tem origem no grego “pantos” significando “em toda a parte”. Assim, a vitamina B5 encontra-se na maioria dos alimentos de origem vegetal e animal. A B5 também pode ser sintetizada pelas bactérias intestinais.
B6 (piridoxina)Vísceras (p. ex., fígado), cereais integrais, peixe, legumes.
B7 ou B8 ou H (biotina)Fígado, rim, carnes, ovos, leite, peixe, levedura seca, batata-doce, sementes e nozes.
B9 (ácido fólico)Verduras folhosas frescas, frutas, vísceras (p. ex., fígado), pães e cereais enriquecidos.
B12 (cianocobalamina)Carnes (em especial bovina, de porco e vísceras [p. ex., fígado]), aves, ovos, cereais enriquecidos, leite e laticínios, mariscos, ostras, cavala, salmão.
C
(ácido ascórbico)
Frutas cítricas, tomates, batatas, brócolos, morango, pimentas doces.
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences

No que concerne à tabela acima descrita e nomeadamente a fontes alimentares a minha opinião é clara e pode ser resumida nos seguintes pontos mais relevantes:

  • Inclua nas refeições diversidade de alimentos de produção biológica/orgânica quer de origem animal quer de origem vegetal, em quantidades sempre moderadas;
  • Exclua todos os alimentos processados;
  • Coma muito pouco (ou nenhum) pão, cereais, sementes e leite;
  • Não exagere na fruta por causa do excesso de frutose;
  • Coma poucas vezes por dia, de preferência apenas duas refeições;
  • Se não tiver doenças graves, todos os dias faça pelo menos 12 a 16 horas de jejum (incluindo as horas de sono), mas comece de forma moderada se não estiver habituado. Se tiver alguma doença crónica e/ou grave deve, obviamente, falar com o seu médico e pedir o seu apoio, desde que este tenho um conhecimento atualizado sobre os benéficos do jejum (a maioria infelizmente vai dizer que é muito perigoso!). Se a resposta for negativa ouça uma segunda opinião médica mas pergunte qual o suporte científico dessa decisão. Se ambas as opiniões médicas forem negativas aceite e esqueça o jejum.

Doenças associadas

As vitaminas são uma parte vital de uma dieta saudável. Foi determinada a ingestão diária recomendada (IDR) para a maioria das vitaminas, ou seja, a quantidade diária que a maioria das pessoas saudáveis precisa para se manter saudável. Para algumas vitaminas, foi determinado um limite superior de segurança (nível superior de ingestão tolerado). O consumo que excede esse nível aumenta o risco de ocorrência de um efeito prejudicial (toxicidade).

A falta de vitaminas pode provocar doenças graves mas o seu excesso, a hipervitaminose, também esconde muitos perigos! A tabela seguinte descreve as doenças provocadas pela falta de vitaminas.

VitaminasEfeitos da deficiência e do excesso (toxicidade)
A (retinol)Deficiência: Cegueira noturna, hiperqueratose peri folicular, xeroftalmia, queratomalacia, aumento da morbidade e mortalidade em crianças mais novas.
Toxicidade: Queda de cabelo, lábios rachados, pele seca, enfraquecimento dos ossos, dores de cabeça, elevações dos níveis de cálcio no sangue e um distúrbio raro caracterizado pelo aumento da pressão dentro do crânio, denominado hipertensão intracraniana idiopática e hepatoesplenomegalia.
D (colecalciferol)Deficiência: Raquitismo (às vezes com tetania), osteomalacia.
Toxicidade: Hipercalcemia (cálcio elevado no sangue), calcificação das artérias, anorexia, falência renal, calcificação metastática.
E (tocoferol)Deficiência: Hemólise de eritrócitos, deficites neurológicos.
Toxicidade: Tendência a sangramento.
K (naftoquinona)Deficiência: Sangramento decorrente de deficiência de protrombina e outros fatores, osteopenia.
B1 (tiamina)Deficiência: Beribéri (neuropatia periférica, insuficiência cardíaca), síndrome de Wernicke-Korsakoff e psicose de Korsakoff.
B2 (riboflavina)Deficiência: Queilose, estomatite angular, vascularização corneal.
B3 (niacina)Deficiência: Anemia megaloblástica, defeitos do tubo neural no nascimento, confusão.
B5 (ácido pantoténico)Deficiência: Está presente na maioria dos alimentos, por isso a carência é rara. Nestes casos os sintomas serão náuseas, vómitos, diarreia, dores abdominais, alopécia, fadiga e dor de cabeça.
Toxicidade: Rara. Transtornos gastrointestinais e probabilidade de hemorragias quando tomado em simultâneo com antiagregantes plaquetários (salicilatos).
B6 (piridoxina)Deficiência: Convulsões, anemias, neuropatias, dermatite seborreica.
Toxicidade: Neuropatia periférica.
B7 ou B8 ou H (biotina)Deficiência: Rara mas pode originar alopécia, letargia e ataxia. Ocorre geralmente em três situações, são elas a alimentação parentérica prolongada sem suplemento de biotina, lactentes alimentados com leite em pó sem biotina e consumo de clara do ovo crua por um período prolongado. A clara do ovo contém uma glicoproteína, chamada avidina que se liga à biotina com grande afinidade e impede a sua absorção. Quando a clara é cozinhada, a avidina sofre alterações e perde essa capacidade de ligação à biotina.
B9 (ácido fólico)Deficiência: Anemia megaloblástica, defeitos do tubo neural no nascimento, confusão.
B12 (cianocobalamina)Deficiência: Anemia megaloblástica, deficits neurológicos (confusão, parestesias, ataxia).
C
(ácido ascórbico)
Deficiência: Escorbuto (hemorragias, perdas dentárias, gengivites, defeitos ósseos).
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences

Ingestão diária recomendada e toxicidade

As vitaminas A, D, E, B3, B6, B9 e C apresentam uma dosagem limite superior de segurança. Quando esta dosagem diária máxima é ultrapassada pode causar toxicidade e doenças associadas.

VitaminasIngestão diária recomendada (IDR)
num adulto
Limite superior de segurança
A (retinol)700 microgramas para mulheres
900 microgramas para homens
770 microgramas para gestantes
1.300 microgramas para mulheres a amamentar
3.000 microgramas
D (colecalciferol)600 UI para pessoas de 1 a 70 anos
800 UI para pessoas com mais de 70 anos
4.000 UI (unidades internacionais)
E (tocoferol)15 miligramas (22 unidades de natural ou 33 unidades de sintética)
19 miligramas para mulheres a amamentar
1.000 miligramas
K (naftoquinona)90 microgramas para mulheres
120 microgramas para homens
B1 (tiamina)1,1 miligramas para mulheres
1,2 miligramas para homens
1,4 miligramas para gestantes ou mulheres que estejam a amamentar
B2 (riboflavina)1,1 miligramas para mulheres
1,3 miligramas para homens
1,4 miligramas para gestantes
1,6 miligramas para mulheres a amamentar
B3 (niacina)14 miligramas para mulheres
16 miligramas para homens
18 miligramas para gestantes
17 miligramas para mulheres a amamentar
35 miligramas
B5 (ácido pantoténico)5 miligramas (mas a QDR não foi estabelecida)
6 miligramas para gestantes
7 miligramas para mulheres a amamentar
B6 (piridoxina)1,3 miligramas para mulheres e homens mais jovens
1,5 miligramas para mulheres com mais de 50 anos
1,7 miligramas para homens com mais de 50 anos
1,9 miligramas para gestantes
2,0 miligramas para mulheres a amamentar
100 miligramas
B7 ou B8 ou H (biotina)30 microgramas (mas a QDR não foi estabelecida)
35 microgramas para mulheres a amamentar
B9 (ácido fólico)400 microgramas
600 microgramas para gestantes
500 microgramas para mulheres a amamentar
1.000 microgramas
B12 (cianocobalamina)2,4 microgramas
2,6 microgramas para gestantes
2,8 microgramas para mulheres a amamentar
C
(ácido ascórbico)
75 miligramas para mulheres
90 miligramas para homens
85 miligramas para gestantes
120 miligramas para mulheres a amamentar
35 miligramas a mais no caso de fumadores
2.000 miligramas
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences

Interações com medicamentos

VitaminasFármacos
A (retinol)Colestiramina, óleo mineral
D (colecalciferol)Antipsicóticos, corticoides, óleo mineral, anticonvulsivantes, rifampicina
E (tocoferol)Óleo mineral, varfarina
K (naftoquinona)Antibióticos, anticonvulsivantes, óleo mineral, rifampicina, varfarina
B1 (tiamina)Álcool, contraceptivos orais, antagonistas de tiamina presentes no café, chá, peixe cru e repolho roxo
B2 (riboflavina)Álcool, barbitúricos, fenotiazinas, diuréticos tiazídicos, antidepressivos tricíclicos
B3 (niacina)Álcool, isoniazida
B5 (ácido pantoténico)
B6 (piridoxina)Álcool, anticonvulsivantes, corticoides, ciclosserina, hidralazina, isoniazida, levodopa, contraceptivos orais, penicilamina
B7 ou B8 ou H (biotina)Antibióticos (matam bactérias produtoras de biotina), anticonvulsivantes ( carbamazepina, fenobarbital, 
fenitoína e primidona).
B9 (ácido fólico)Álcool, 5-fluoruracila, metformina, metotrexato, contraceptivos orais, anticonvulsivantes (p. ex., fenobarbital, fenitoína, primidona), sulfassalazina, triantereno, trimetoprima
B12 (cianocobalamina)Antiácidos, metformina, óxido nitroso (exposição recorrente)
C
(ácido ascórbico)
Corticoides
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences

Deficiência vitamínica causada por fármacos e drogas

No geral, todos os medicamentos cujo princípio activo seja uma molécula estranha ao nosso corpo causam alguma deficiência vitamínica ou mineral que pode ser importante e originar outros problemas de saúde. Na tabela seguinte descrevo as carências vitamínicas mais conhecidas causadas por medicamentos importantes muito utilizados como antibióticos, antidiabéticos, antiácidos e outras substâncias que ingerimos.

Fármaco ou substânciaVitaminas afetadas
ÁlcoolÁcido fólico
Tiamina
Vitamina B6
Antiácidos (para o estômago) como bicarbonato de sódio, carbonato de cálcio, hidróxido de alumínio e hidróxido de magnésio.Vitamina B12
Antibióticos, como a isoniazida, tetraciclina e sulfametoxazol/trimetoprim
Vitaminas do complexo B
Ácido fólico
Vitamina K
Anticoagulantes, como a varfarina
(utilizados para evitar tromboses)
Vitamina E
Vitamina K
Anticonvulsivantes, como fenitoína e fenobarbital
(utilizados na epilépsia)
Biotina
Ácido fólico
Vitamina B6
Vitamina D
Vitamina K
AntipsicóticosRiboflavina
Vitamina D
Barbitúricos, como o fenobarbitalÁcido fólico
Riboflavina
Vitamina D
Medicamentos quimioterápicos, como o metotrexato
(utlilizados como anticancerígenos)
Ácido fólico
Colestiramina
(capta o colesterol e transforma-o em ácidos biliares. Diminui o colesterol no sangue)
Vitamina A
Vitamina D
Vitamina E
Vitamina K
Corticosteroides
(utilizados em doenças autoimunes e inflamação)
Vitamina C
Vitamina D
Cicloserina
(antibiótico para tratar tuberculose)
Vitamina B6
Hidralazina
(hipertensão arterial e pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva)
Vitamina B6
Levodopa
(antiparkinsónicos)
Vitamina B6
Óleo mineral (parafina ou vaselina liquida)
se usado por prazo longo
Vitamina A
Vitamina D
Vitamina E
Vitamina K
Metformina
(antidiabético mais utilizado no mundo)
Ácido fólico
Vitamina B12
Óxido nitroso se exposição repetida
(anestésico fraco com efeito analgésico)
Vitamina B12
Contraceptivos orais
(para evitar gravidez)
Ácido fólico
Tiamina
Vitamina B6
Penicilamina
(anti-reumático e antiurolítico)
Vitamina B6
Fenotiazinas como a clorpromazina
(antipsicóticos e neuroléticos)
Riboflavina
Primidona
(anticonvulsivante)
Ácido fólico
Vitamina D
Rifampicina
(antibiótico usado na tuberculose)
Vitamina D
Vitamina K
Sulfassalazina
(antimicrobiano. Possui ação anti-reumatoide e também é utilizada na doença intestinal inflamatória crónica)
Ácido fólico
Hidroclorotiazida e diuréticos tiazídicos
(hipertensão arterial e Insuficiência cardíaca inicial)
Riboflavina
Triantereno
(diurético usado na hipertensão e edema)
Ácido fólico
Antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina e a imipraminaRiboflavina
Fonte: Manual MSD, Por 
Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences

Vitaminas e minerais mais importantes para o cérebro?

As vitaminas e os minerais são nutrientes necessários ao funcionamento fisiológico normal. Muitas delas desempenham funções cruciais no cérebro numa variedade de processos. Mas será que são assim tão importantes ou existem outros fatores bem mais relevantes para a nossa saúde cerebral? Vamos por partes!

Vitamina B1 (tiamina)

Vitamina B1 ou tiamina, é uma coenzima do ciclo das pentoses fosfato, que é um passo necessário na síntese de ácidos gordos, esteroides, ácidos nucleicos e aminoácidos para neurotransmissores e outros compostos bioativos essenciais na função cerebral (Kerns et al., 2015).
Desempenha um papel neuromodulador sobre o neurotransmissor acetilcolina e contribui para a estrutura e função das membranas celulares, incluindo neurónios e células da glia (Bâ, 2008).

Numa revisão de ensaios clínicos randomizados controlados envolvendo
suplementação com tiamina na dose de 3 mg/dia, os resultados da função cognitiva foram inconsistentes. O tamanho pequeno da amostra e o desenho do estudo inadequado, tal como um estudo cruzado que não é recomendado para doenças progressivas como o Alzheimer, foram as principais causas para essa inconsistência (Rodríguez-Martín et al., 2001).

O limitado número de estudos e a falta de ensaios clínicos randomizados
indicam que há evidência insuficiente para tirar conclusões acerca da influência da tiamina na função cognitiva em idosos saudáveis. São necessários melhores estudos coorte e experimentais concebidos nesta área (Koh et al., 2015).


Vitamina B2 (riboflavina)

Vitamina B2 ou riboflavina, é um poderoso antioxidante obtido a partir da carne e de produtos lácteos. Contudo, apesar dessa sua característica, há poucos estudos de neuroprotecção com riboflavina. A sua deficiência leva a sintomas como fadiga, mudança de personalidade e disfunção cerebral (Zempleni, 2007). Baixos níveis de vitaminas B estão associados ao aumento de homocisteína, conhecida por ter efeito neurotóxico direto (Ho et al., 2001).

Num estudo com população idosa coreana, a hiperhomocisteinémia manifestou-se como um fator de risco significativo para o declínio cognitivo. Na população com Alzheimer desse mesmo estudo, não se observou associação entre a função cognitiva e os parâmetros dietéticos. Por outro lado, nos participantes com défice cognitivo leve, a ingestão de vitamina B2 influenciou positivamente os testes de memória e de reconhecimento.

Já no grupo dos indivíduos saudáveis, não houve associação entre a ingestão de vitamina B2 e a função cognitiva. Contudo, sendo este estudo observacional, não pode provar a causalidade, para além de os resultados serem difíceis de interpretar e aplicar à população em geral, pois não foi usada uma amostra aleatória. Assim, são necessários mais estudos prospetivos para investigar a relação de causalidade entre a função cognitiva e a ingestão de vitamina
B2 (Kim et al., 2014).


Vitamina B3 (niacina)

Vitamina B3 ou nicotinamida, tem sido extensivamente estudada como agente neuroprotetor. O tratamento com nicotinamida demonstrou melhoria sensorial, motora e cognitiva (Vonder Haar et al., 2011; Vonder Haar et al., 2014).

Com base na evidência em modelos animais, há um potencial considerável para o uso de nicotinamida em patologias neurológicas, todavia ainda há alguns fatores, nomeadamente o limite máximo para a toxicidade humana e a eficácia na população idosa e a longo prazo, que precisam de ser investigados antes de evoluir para os ensaios clínicos (Vonder Haar et al., 2013).


Vitamina B6 (piridoxina)

Vitamina B6 ou piridoxina, é essencial à síntese dos neurotransmissores dopamina e serotonina para além de reduzir os níveis de homocisteína, visto que o seu aumento está associado ao risco de doença cerebrovascular e possíveis efeitos tóxicos sobre os neurónios do SNC (Ford et al., 2012).

Estudos epidemiológicos indicam que um nível baixo de vitamina B6 é comum entre os idosos, sendo a hiperhomocisteinémia uma possível causa da demência. No entanto, numa revisão que incluiu ensaios duplamente cegos e cujo objetivo primário era avaliar a eficácia da suplementação de vitamina B6 na cognição, não foi encontrada evidência do seu benefício, a curto prazo, sobre o humor (sintomas de
depressão, fadiga e tensão) ou nas funções cognitivas. (Malouf et al, 2003).

Também num ensaio multicêntrico e duplamente cego, cujo objetivo era a avaliação da eficácia e segurança da suplementação com vitaminas B, entre as quais a B6, não se observou o decréscimo do declínio cognitivo em doentes de Alzheimer (Aisen et al., 2008).

Deste modo, são necessários mais ensaios clínicos para explorar os possíveis benefícios da suplementação com esta vitamina em indivíduos saudáveis bem como com défice cognitivo e demência.


Vitamina B9 (ácido fólico)

Vitamina B9 ou ácido fólico, tem sido largamente estudado no que diz respeito aos seus efeitos na cognição, particularmente em idosos. Juntamente com a vitamina B6 e a B12, a vitamina B9 é um importante cofator no ciclo da homocisteína, que é crucial para inúmeros processos, incluindo a expressão de ADN e a síntese de creatina, melatonina e noradrenalina (Haar et al., 2015).

Num ensaio clínico randomizado, unicêntrico e controlado, envolvendo 180 indivíduos acima dos 65 anos, foram avaliados os efeitos da suplementação com ácido fólico na função cognitiva dessa mesma população. Nos 159 que completaram o ensaio, verificaram-se melhorias no ácido fólico sérico, na homocisteína e na vitamina B12 sérica.

De um modo geral, encontrou-se evidência do efeito benéfico da suplementação, a curto prazo, em dois testes de avaliação da função cognitiva. Num futuro próximo, será necessário realizar ensaios maiores, a longo prazo e cujo um dos resultados a avaliar seja a demência, a fim de se chegar a uma melhor conclusão (Ma et al., 2015).


Vitamina B12 (cianobalamina)

Vitamina B12 ou cianocobalamina, é necessária na metilação da homocisteína. A sua deficiência tem sido associada a doenças neurodegenerativas e comprometimento cognitivo, contudo o tratamento com suplementação de vitamina B12 não altera consideravelmente a função cognitiva em indivíduos com
deficiência pré-existente (Moore et al., 2012). Por outro lado, o tratamento com vitamina B12 e ácido fólico, em indivíduos com comprometimento cognitivo, levou à diminuição da atrofia cerebral (Health Quality Ontario, 2013).

Há ainda uma grande necessidade de ensaios clínicos para compreender a natureza da associação de insuficiência de vitamina B12 com doença
neurodegenerativa. As vitaminas B6, B9 e B12 são essenciais ao normal funcionamento do cérebro à medida que envelhecemos, como resultado da sua ação sobre o metabolismo da homocisteína e outros mecanismos.

Contudo, investigações até ao momento ainda não demonstraram evidência convincente do benefício da suplementação de vitaminas B na capacidade cognitiva, sendo prematuro concluir acerca desta terapia.
São necessárias mais pesquisas para avaliar a dose ideal, a janela terapêutica e as diferenças individuais (Forbes et al., 2015).


Vitamina C (ácido ascórbico)

Vitamina C ou ácido ascórbico, é um antioxidante essencial no cérebro que exerce numerosas funções, incluindo a eliminação de ROS, neuromodulação e envolvimento na angiogénese. Estudos experimentais em animais apontam a vitamina C como um fator chave na prevenção do declínio cognitivo, tanto no envelhecimento como em doenças neurodegenerativas. Contudo, ensaios clínicos em humanos não têm sido capazes de confirmar os efeitos benéficos da suplementação e/ou intervenção da vitamina C, tendo como uma das principais razões a diferença dos critérios de inclusão.

Consequentemente, são necessários mais estudos usando a vitamina como única substância, ao invés de combinações de vitaminas, e focando subgrupos específicos com aumento da prevalência de deficiência de vitamina C (Hansen et al., 2014).


Vitamina E (tocoferol)

Vitamina E sob a forma de tocoferóis e tocotrienóis, desempenha um papel crucial na proteção do SNC, atuando como antioxidante. A evidência de que os radicais livres podem contribuir para os processos patológicos da função cognitiva, incluindo a doença de Alzheimer, levou ao aumento do interesse pela utilização de vitamina E no tratamento do défice cognitivo ligeiro (DCL) e da DA (Mangialasche et al., 2010).

Contudo, há também a evidência de que a vitamina E usada em doses elevadas é considerada tóxica (acima de 3000 UI/dia) e pode estar associada a sintomas como fadiga e distúrbios gastrointestinais, ou mesmo conduzir à mortalidade. Por outro lado, tem havido um aumento crescente de evidências de que a suplementação com esta vitamina, em doses terapêuticas, pode também causar efeitos adversos como o aumento da tendência para hemorragias e a potenciação do efeito da aspirina. (Farina et al., 2012; Miller et al., 2005).

No entanto, as conclusões acerca da eficácia da vitamina são baseadas apenas na forma alfa-tocoferol e, portanto, não é possível comentar acerca das outras formas, sendo necessárias investigações futuras acerca destas para encontrar provas convincentes de que a vitamina E é ou não benéfica no tratamento de demências (Farina et al., 2012).


Sódio (Na)

O sódio (Na) é consumido na forma de cloreto de sódio (NaCl) ou sal. Controla a função nervosa e muscular em estreita ligação com o potássio K) , mantendo o equilíbrio hídrico nas células e nos tecidos do nosso corpo. Nos países ocidentais, a maioria das pessoas ingere sal em excesso, por isso a deficiência de sódio é rara.

Precauções sobre o sódio

Obviamente o excesso de sódio (sal) é sabido que pode causar sérios problemas de hipertensão arterial, pelo que deve ser cuidadoso.


Potássio (K)

O potássio é essencial para a transmissão de impulsos nervosos, sendo um dos eletrólitos do corpo, que são minerais que carregam uma carga elétrica quando dissolvidos em líquidos corporais, como o sangue. O corpo precisa de potássio para as células nervosas e musculares funcionarem. Assim, os sinais iniciais de deficiência de potássio são geralmente apatia e fraqueza. Os alimentos de origem vegetal, geralmente, são boas fontes de potássio. Alguns bons exemplos são as bananas, oleaginosas, sementes, leguminosas, abacate, grãos integrais, frutos secos, tomates e batatas. 

Precauções sobre o potássio

O excesso de potássio (hipercalémia) também pode interferir na função transmissora de impulsos nervosos. Por si só, o aumento da ingestão de potássio geralmente não causa hipercalemia, uma vez que os rins normais realizam um bom trabalho na excreção de qualquer potássio em excesso.

Regra geral, a hipercalemia resulta de diversos problemas simultâneos, tais como:

  • Distúrbios renais que impedem que os rins excretem potássio suficiente;
  • Medicamentos que impedem que os rins excretem quantidades normais de potássio (causa comum de hipercalemia leve);
  • Uma dieta rica em potássio;
  • Tratamentos que contenham potássio;

A causa mais comum da hipercalemia leve é o uso de medicamentos que diminuem o fluxo sanguíneo para os rins ou impedem que os rins excretem quantidades normais de potássio. Alguns exemplos são os seguintes:

  • Alisquireno (anti-hipertensivo);
  • Inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), são dos anti-hipertensivos mais utilizados;
  • Bloqueadores dos recetores da angiotensina (anti-hipertensivos);
  • Ciclosporina (usada para prevenir a rejeição de órgãos transplantados);
  • Diuréticos que ajudam os rins a conservar potássio, como eplerenona, espironolactona e triantereno;
  • Medicamentos anti-inflamatórios não esteroides;
  • Tacrolimo (usado para prevenir a rejeição de órgãos transplantados)
  • Trimetoprima (antibiótico)

A insuficiência renal pode provocar hipercalemia grave. A doença de Addison também pode causar hipercalemia.

A hipercalemia leve causa poucos sintomas, ou nenhum. Às vezes, a pessoa pode apresentar fraqueza muscular. Em uma doença rara chamada paralisia periódica hipercalêmica familiar, a pessoa apresenta crises de fraqueza que podem progredir até a paralisia.

Quando a hipercalemia se torna mais grave, ela pode causar ritmos cardíacos anormais . Se os níveis estiverem muito altos, o coração pode parar de bater.


Cálcio (Ca)

O cálcio é essencial para promover o funcionamento adequado dos nervos e músculos porque está envolvido na condução de impulsos elétricos ao longo dos axónios das células nervosas. A sua deficiência, designada hipocalcemia, pode manifestar-se por espasmos musculares e fadiga generalizada. São boas fontes de cálcio o leite e derivados, hortaliças de folhas verde-escuras e sardinha em lata com a espinha.

Precauções sobre o cálcio

O hiperparatiroidismo é a causa mais comum de hipercalcémia (excesso de cálcio).

A ingestão de doses elevadas de cálcio durante algum tempo aumenta o risco de formação de pedra nos rins e pode originar insuficiência renal, calcificação dos tecidos moles e vasculares e hipercalciúria (níveis elevados de cálcio na urina).

Parte do cálcio absorvido é eliminado pela urina, fezes e suor, o que pode ser afetado pela ingestão de sódio (a ingestão de níveis altos de sódio aumenta a excreção de cálcio), consumo de cafeína (aumenta a excreção de cálcio) e álcool (reduz a absorção de cálcio).

O cálcio diminui a absorção de antibióticos, bifosfonatos (medicamentos para a osteoporose) e da levotiroxina (medicamento para a tiroide), por isso a toma destes medicamentos e de suplementos de cálcio deve ser separada por um intervalo de 2 horas.

Os antagonistas dos recetores H2 e os inibidores da bomba de protões diminuem a absorção de carbonato de cálcio e fosfato de cálcio. Sabe-se ainda que os glucocorticoides também diminuem a absorção de cálcio.

Os diuréticos, tal como as tiazidas (medicamentos para a hipertensão), aumentam o risco de hipercalcémia (excesso de cálcio) por aumento da reabsorção de cálcio nos rins.

Doses elevadas de cálcio em pessoas que tomam digoxina (medicamento para o coração) aumenta a probabilidade de alterações no ritmo cardíaco, por isso é preciso precaução nesta associação.

O cálcio será mais eficaz se for acompanhado das vitaminas A, C e D, ferro, magnésio e fósforo.


Magnésio (Mg)

O magnésio é um dos minerais mais importantes para o nosso organismo estando envolvido em mais de 300 reações essenciais do nosso corpo. O magnésio é importante para o funcionamento do hipocampo, que é uma parte do sistema límbico que controla o humor, a memória e a aprendizagem. Boas fontes de magnésio são por exemplo as oleaginosas, damascos secos, figos secos, aveia, farinha integral e extrato de levedura.

Precauções sobre o magnésio

No entanto a suplementação com magnésio deve ser cuidadosa pois pode causar sérios transtornos gastro intestinais, nomeadamente diarreias perigosas.


Ferro (Fe)

O ferro é essencial para a formação de hemoglobina nas hemácias. a hemoglobina é a substância que leva um fluxo constante de oxigênio para o cérebro. O consumo adequado melhora a função mental e o desempenho académico. Os sinais iniciais de deficiência de ferro são a fadiga e falta de concentração. Exemplos de boas fontes de ferro são a carne, os miúdos do animal, sardinha, gemas e hortaliças de folhas verde-escuras.

Precauções sobre o ferro

A suplementação com ferro deve ser cuidadosamente vigiada pelo médico pois o excesso de ferro pode ser muito perigoso por causa da sua enorme capacidade de oxidação. Na natureza pode observa-se esse poderoso fenómeno de oxidação com a ferrugem das peças compostas de ferro.


Zinco (Zn)

O zinco é um mineral essencial encontrado em alguns alimentos e suplementos. É necessária a sua ingestão diária uma vez que o nosso organismo não possui reservas deste mineral.

A importância do zinco na nutrição humana e na saúde pública foi conhecida há relativamente pouco tempo. A deficiência neste mineral foi descrita pela primeira vez em 1961, quando o consumo de dietas com baixa biodisponibilidade de zinco devido aos fitatos presentes nos alimentos foi associado ao nanismo. Assim, a deficiência em zinco foi reconhecida como um problema importante de saúde pública, principalmente nos países em desenvolvimento.

O zinco está envolvido inúmeras etapas do metabolismo celular. É essencial para a atividade de mais de 300 enzimas e tem um papel relevante nas seguintes funções e processos:

  • Função imunitária,
  • Síntese proteica, 
  • Metabolismo dos hidratos de carbono,
  • Metabolismo dos lípidos,
  • Medeia o metabolismo de algumas vitaminas como a vitamina A (retinol), vitamina B6 (piridoxina) e vitamina B9 (folato ou ácido fólico),
  • Cicatrização de feridas,
  • Síntese do DNA, 
  • Divisão celular e apoptose,
  • Libertação de hormonas como a testosterona,
  • Transmissão dos impulsos nervosos,
  • Promove a ação da insulina,
  • Essencial para os sentidos do olfato e paladar e tem propriedades antioxidantes,
  • Contribui ainda para o normal crescimento e desenvolvimento durante a gravidez, infância e adolescência.

A ingestão de zinco contribui ainda para uma normal função cognitiva, para uma fertilidade e reprodução normal, e para a manutenção de ossos, cabelo, unhas, pele e visão normais.

Fontes de zinco

O zinco pode ser encontrado numa grande variedade de alimentos tais como carne vermelha e de aves, feijão, nozes, marisco (ostras, caranguejo e lagosta), cereais enriquecidos, gérmen de trigo, levedura de cerveja, sementes de abóbora, ovos e laticínios.

As melhores fontes de zinco são:

  • Marisco 7,14mg/100g
  • Queijo 2,94mg/100g
  • Carne 2,86mg/100g
  • Ovos 1,04mg/100g
  • Peixe 0,59mg/100g

Fonte: Minerals Basics, Manual, Roche Consumer Health. 

Valores de referência do nutriente (VRN)

Não existem estudos que permitam estabelecer o VRN, mas os seguintes valores garantem uma nutrição saudável:

  • Homens 11mg/dia,
  • Mulheres 8mg/dia.

Cuidado com os fitatos!

Os fitatos do pão integral, cereais, legumes e outros alimentos ligam-se ao zinco e inibem a sua absorção, por isso a biodisponibilidade do zinco a partir de cereais e vegetais é menor do que a partir de alimentos de origem animal.

Carência em zinco

Não são comuns os casos de deficiência em zinco. Quando ocorre regra geral deve-se à ingestão ou absorção inadequadas, aumento das perdas de zinco no organismo ou aumento das necessidades.

A carência em zinco pode ocorrer em casos de doenças associadas ao trato gastrointestinal, vegetarianismo, gravidez e amamentação, ou pessoas que sofrem de alcoolismo e caracteriza-se por atraso no crescimento, perda de apetite e função imunitária alterada.

Nos casos graves ocorre queda de cabelo, diarreia, infeções frequentes, desenvolvimento sexual retardado, impotência, hipogonadismo nos homens, danos nos olhos e pele, perda de peso, cicatrização de feridas demorada, alterações no paladar e letargia.

Uso terapêutico

Doentes com úlceras crónicas na perna apresentam alterações no metabolismo do zinco e baixos níveis deste mineral no sangue, assim, os médicos tratam as úlceras com suplementos de zinco.

A deficiência em zinco provoca uma alteração na resposta imunitária que contribui para uma maior susceptibilidade a infeções, o que pode aumentar a probabilidade de contrair diarreia, principalmente nas crianças. Por isso a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) recomendam um suplemento diário de zinco de 20mg durante 10 a 14 dias para crianças com diarreia aguda e 10mg para bebés com menos de 6 meses de idade para reduzir a gravidade da situação e prevenir novas ocorrências nos 2-3 meses seguintes.

Nas constipações, foi demonstrado que o zinco é benéfico na redução da duração e gravidade em pessoas saudáveis, se usado nas primeiras 24 horas após o aparecimento dos sintomas. No entanto, são necessários mais estudos para determinar a dose, formulação e duração do tratamento para uma recomendação mais precisa.


Precauções

A toxicidade causada pelo zinco pode ser aguda ou crónica. Na fase aguda, podem ocorrer náuseas, vómitos, perda de apetite, dores abdominais, diarreia e dores de cabeça.

Na toxicidade crónica, teremos níveis baixos de cobre, alterações no ferro, redução da função imunitária e níveis reduzidos de HDL (colesterol bom).

Grandes quantidades de ferro nos suplementos podem diminuir a absorção de zinco, por isso os suplementos de ferro devem ser tomados no intervalo das refeições de modo a diminuir esta interação. Por outro lado, doses elevadas de zinco podem inibir a absorção de cobre.

A deficiência em zinco está associada a uma diminuição da libertação de vitamina A a partir do fígado. Assim, aumentando a ingestão de zinco, torna-se necessário aumentar também a ingestão de vitamina A.

Algumas substâncias inibem a absorção do zinco, tais como fibras, cálcio, magnésio, fósforo, ferro inorgânico e fitatos. Outras substâncias promovem a sua absorção, tais como a carne, metionina, cisteína, ácido cítrico e ácido láctico.

Alguns medicamentos podem diminuir os níveis de zinco, como é o caso da cisplatina, desferroxamina, diuréticos, IECAs (Inibidores da Enzima Conversora da Angiotensina) e valproato de sódio.

O zinco fortalece o sistema imunitário, por isso não deve ser tomado juntamente com medicamentos imunossupressores como corticosteroides ou ciclosporina.

O zinco reduz a absorção e a ação da penicilamina, por isso, os suplementos de zinco, devem ser tomados pelo menos 2 horas antes ou depois da toma de penicilamina.

O zinco atua melhor em associação com a vitamina A, cálcio e fósforo.


O que faz bem ao cérebro?

Desengane-se se considera que apenas um suplemento multivitamínico e mineral, por si só, vai resolver o problema de saúde do nosso cérebro pois este é demasiado complexo para uma abordagem tão simplista como gostaríamos! Para além das vitaminas e minerais acima descritas serem importantes para a nossa saúde cerebral, existem outros fatores muito relevantes sem os quais dificilmente teremos a capacidade para manter uma boa memória, raciocino, boas decisões, lucidez e provavelmente felicidade! Descrevo de seguida os mais importantes e os artigos que já publiquei (basta clicar na imagem para ler) sobre esses temas tão importantes:

  • Qualidade do sono;
  • Atividade física;
  • Ansiedade ou stress sob controle;
  • Tensão arterial controlada;
  • Não beber álcool.

Os temas acima descritos estão detalhados nos seguintes artigos já publicados:

Referências

Doenças da piscina e dor de ouvido

Piscina e doenças toda a verdade sobre as diversas doenças que pode apanhar na água da piscina! Um dia na piscina a descontrair, nadar e relaxar pode ser magnífico! No entanto se a água das piscinas não estiver bem tratada o dia pode acabar em pesadelo com a “hospedagem” no nosso organismo de vírus, bactérias e parasitas que provocam doenças que podem ser muito perigosas!

Por exemplo, nas páginas Swimming pools  e Stay Safe In and Around Swimming Pools do CDC, Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, quem estiver ou tenha estado com diarreia nas últimas duas semanas corre o risco de contaminar a água da piscina com germes e transmitir o problema a outras pessoas.

Neste artigo vou falar das seguintes doenças:


Leia também: Como bronzear sem queimar?


Piscina e doenças que pode apanhar na água

A água da piscina é geralmente uma água artificial no sentido em que raramente é usada água captada directamente do mar ou de um rio com água de alta qualidade não poluida. Sendo assim tem de ser cuidadosamente tratada para eliminar inumeros microorganismos como bactérias, vírus, fungos e parasitas patogénicos que estão sempre á espreita de uma oportunidade de se instalarem num hospedeiro humano e conseguirem reproduzir-se mais depressa!

Além disso os tratamentos quimicos aplicados á água da piscina também têm os seus efeitos adversos no organismo humano. Assim descrevo de seguida algumas doenças que, se não tiver cuidado, pode apanhar na sua visita á piscina.

Otite externa

Também designada otite de surfista ou de mergulhador. É provocada habitualmente pela entrada de água no ouvido, associada a um quadro clínico de otalgia (dor de ouvido). Ocorre frequentemente após entrada de água no ouvido ou em situações de infeção e eczema do canal auditivo externo. Trata-se de uma inflamação da orelha externa e do canal auditivo.

Leia também: Dor de ouvido tudo o que não sabe.

Diarreia

Os vírus e as bactérias que provocam diarreia são a principal fonte de contágio nas piscinas. De acordo com o CDC, Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, quem estiver ou tenha estado com diarreia nas últimas duas semanas corre o risco de contaminar a água da piscina com germes e transmitir o problema a outras pessoas. Os germes que causam diarreia conseguem sobreviver vários dias antes de serem eliminados pelo cloro. Para ficar doente basta engolir uma pequena quantidade da água infectada das piscinas.

Giardíase

A giardíase é uma infeção intestinal causada por um parasita microscópico. Pode provocar sintomas como cólicas abdominais, flatulência, náuseas e episódios de diarreia. A infeção pode ser causada por parasitas encontrados em riachos, lagos, piscinas ou zonas aquáticas de recreação. A maneira mais comum de se infetar com giardíase é engolir água contaminada, por exemplo da piscina.

Animais e crianças que usam fraldas e pessoas com diarreia podem acidentalmente contaminar piscinas e spas. É mais frequente em crianças e em doentes com infeção por VIH/SIDA, fibrose quística e outras formas de imunodeficiência pois têm um sistema imunitário mais frágil. Num trabalho realizado na região Norte de Portugal, em crianças com idades entre um e cinco anos, foi detetada uma taxa de infeção de 3,4% por Giardia lamblia.

Leia também: Como fortalecer o seu sistema imunitário, toda a verdade!

Criptosporidíase

Criptosporidíase é uma doença causada pelos parasitas unicelulares coccidios Cryptosporidium parvum e C.hominis. Estes podem ser ingeridos juntamente com comida ou água contaminada. Infetam o intestino, onde se reproduzem. Em pessoas imunosuprimidas causam gastroenterite, diarreia, dor abdominal e náuseas. Uma pessoa com diarreia e com este tipo de bactéria pode facilmente contaminar a água.

Legionella

Na legionella segundo explica o médico e patologista clínico Germano de Sousa, a infeção pela bactéria legionella pneumophila pode causar a febre de Pontiac (manifestação ligeira da bactéria com sintomas semelhantes a uma gripe) e a Doença dos Legionários, a manifestação mais grave, que consiste num tipo de pneumonia potencialmente letal.

A legionella está geralmente presente em ecossistemas naturais de água doce e quente, como a superfície de lagos, rios, águas termais, tanques, mas também piscinas. A infeção ocorre por inalação (via respiratória) de aerossóis/gotículas contaminados pela bactéria, através dos chuveiros domésticos, torres de arrefecimento, sistemas de climatização, instalações termais, saunas e jacuzzis e que chegam aos pulmões. Não existe transmissão de pessoa para pessoa, nem pela ingestão de água contaminada.

Leia também: Pneumonia causas sinais e toda a verdade

Irritação química

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos lembra que os nadadores e utilizadores da piscina queixam-se recorrentemente de ardor nos olhos, irritação nasal ou dificuldades em respirar. A investigação revelou que estes sintomas surgem devido à acumulação de substâncias irritantes na água e no ar, conhecidas como cloraminas. Essa irritação é provocada pela combinação do cloro com sub-produtos. Estes subprodutos são o resultado da ligação do suor, urina e outros resíduos dos nadadores/utilizadores ao cloro.

Dermatite ou foliculite

É uma inflamação dos folículos capilares causada pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. A foliculite é sobretudo diagnosticada em pessoas que usam jacuzzi, sauna, piscina ou banheira de hidromassagem. Qualquer pessoa exposta a água contaminada com esta bactéria pode contrair este tipo de foliculite. Trata-se de uma inflamação da raiz dos pelos que, normalmente, pode ser tratada em casa com o uso de sabão anti-séptico ou fármacos prescritos por clínicos. Os sintomas de foliculite por Pseudomonas aeruginosa aparecem primeiro como caroços, prurido e pequenas espinhas com pus. As erupções de foliculite tipicamente surgem no tronco, axilas e partes superiores dos braços e pernas.

Piolhos

Os piolhos não são susceptíveis de serem transmitidos através da água das piscinas. Embora os níveis de cloro da piscina também não matem os piolhos, estes dificilmente conseguem sobreviver debaixo de água uma vez que não se conseguem parasitar. Porém, os piolhos podem espalhar-se em balneários. Basta partilhar toalhas, escovas de cabelo, toucas ou outros itens que tenham estado em contacto com o cabelo de uma pessoa infetada para adquirir a “praga”.

Infeções estafilocócicas

Embora não tenha havido relatos de transmissão deste tipo de bactéria através de águas de recreio, há um risco potencial de propagação das doenças causadas pela bactéria staphylococcus aureus em instalações de recreio através do contacto com a infeção de pessoa para pessoa ou através de objetos e superfícies contaminadas.

Trata-se de uma bactéria que vive muitas vezes no nariz ou na pele de pessoas saudáveis. Pode provocar doenças, que vão desde uma simples infeção (espinhas, furúnculos e celulites) até infecões graves (pneumonia, meningite, endocardite, síndrome do choque tóxico, septicemia e outras), dependendo do sistema imunitário e do historial clínico de cada pessoa.

Os sintomas mais comuns deste tipo de infeções são náuseas e vómitos, por vezes acompanhados por diarreia e dores abdominais. A melhor forma de as evitar é não frequentar águas de recreio se tiver infeções cutâneas ou irritações da pele, manter todas as superfícies tocadas ou manipuladas com frequência limpas e não partilhar objetos pessoais como lâminas ou escovas.

Teníase

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos alerta para vários cuidados a ter de forma a evitar este tipo de doença, embora admita que dificilmente a teníase se propague através da água das piscinas. Esta infeção ocorre quando uma pessoa engole ovos de ténia presentes em superfícies ou dedos contaminados. Esta instituição lembra que os fatos de banho devem ser lavados e secos a cada utilização. Por outro lado, todas as pessoas devem lavar as mãos antes e depois de usar a casa da banho.

Molusco contagioso vírus ou Molluscum contagiosum virus

O vírus Molusco contagioso ou Molluscum contagiosum é uma doença dermatológica causada pelo Molluscum contagiosum. Caracteriza-se por bolhas rosadas ou brancas pela pele em qualquer parte do corpo e podem dar comichão. É mais comum em crianças dos 0 aos 12 anos de idade e transmitido por contato físico. Desaparecem sozinhas em 6 a 12 meses, mas podem deixar cicatrizes.

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Como se transmite?

O vírus é transmitido por contato físico ou por tecidos, por exemplo tocando a mão de alguém que coçou uma bolha causada por molusco contagioso ou compartilhando toalhas. Pode ser transmitido através de contato sexual. É mais comum em locais húmidos e com muita gente a viver na mesma casa que partilham as mesmas toalhas e roupas, uma vez que essas condições são favoráveis para a transmissão do vírus. É mais comum em crianças e imunodeprimidos.

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Parâmetros microbiológicos de avaliação obrigatória

Os parâmetros microbiológicos avaliados são no caso das piscinas de utilização colectiva os referenciados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, IP (INSA), e por outros documentos oficiais. Para o caso das piscinas de empreendimentos turísticos e de hidroterapia e com fins terapêuticos, são os indicados no Decreto-Regulamentar n.º 5/97, de 31 de Março:

  • Germes totais 37ºC (às 48 horas para piscinas de utilização colectiva, e às 24 horas para piscinas de empreendimentos turísticos, de hidroterapia e com fins terapêuticos)
  • Coliformes totais
  • Escherichia coli
  • Enterococos fecais
  • Estafilococos produtores de coagulase
  • Total de Estafilococos
  • Pseudomonas aeruginosa
  • Legionella (desejável nos jacúzis)

Parâmetros físico-químicos mínimos para avaliação

Os parâmetros físico-químicos mínimos para avaliação, devendo a sua determinação ser feita sistematicamente no local de colheita, são os seguintes:

  • Temperatura
  • Cloro residual livre
  • Cloro combinado
  • Bromo total
  • pH (quando não houver possibilidade de determinação laboratorial)

A determinar em laboratório:

  • pH
  • Turvação
  • Condutividade
  • Oxidabilidade
  • Cloretos
  • Amoníaco (a pedido da Autoridade de Saúde)

Considera-se desejável, quando se justifique, proceder-se à determinação de:

  • Ácido isocianúrico (quando forem utilizados como desinfectantes os derivados de ácido isocianúrico)
  • Brometos
  • Trihalometanos
  • Ozono
  • Outros desinfectantes

Leia também: Orientações do Programa de Vigilância Sanitária das Piscinas

Concluindo

Antes de escolher uma piscina tente informar-se sobre a qualidade da água, frequência das análises e resultados disponiveis para consulta pública. Se conhecer alguém que tenha frequentado a piscina pergunte se houve algum problema de saúde nos dias seguintes a ter estado na piscina.

Fique bem!

Franklim Moura Fernandes

Fontes: 

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Sarna quais os sinais e qual o melhor tratamento

 

Sarna ou escabiose como tratar (scabies) toda a verdade! Conhecida popularmente por sarna humana ou pereba, segundo a Public Library of Science (PLoS) é uma doença de pele causada por um ácaro chamado Sarcoptes scabiei. A sarna é uma infeção contagiosa, que pode-se espalhar rapidamente através de contacto físico próximo, entre pessoas que habitam na mesma casa ou crianças em creches e escolas.

Sarna sinais e melhor tratamento
Sarna sinais e melhor tratamento

Neste artigo vou responder ás seguintes questões:

  • Sarna: O que é?
  • Causas da sarna: Quais são?
  • Ácaro sarcoptes scabiei: O que é?
  • Como se transmite a sarna?
  • Posso apanhar sarna do meu cão ou gato?
  • Qual o período de incubação da sarna?
  • Em que altura do ano é mais comum?
  • Quais os sintomas?
  • Quais as características do túneis de sarna?
  • O que é a sarna crostosa ou Norueguesa?
  • Quem corre maior risco de infestação?
  • Qual o tratamento mais eficaz para a sarna?
  • Qual o tratamento mais eficaz para a sarna crostosa ou Norueguesa?
  • Quem teve contacto com infectados deve ser tratado?
  • Que cuidados deve ter com a roupa?
  • Quais os estudos mais recentes?

Sarna e ácaro Sarcoptes scabiei o que é?

No Homem, a doença é causada pela subespécie Sarcoptes scabiei var hominis, designando-se por Sarna Sarcótica ou Escabiose. O ácaro Sarcoptes scabiei é uma espécie de aracnídeo considerada como tipo, com diversas variedades que se distinguem pelo tamanho, disposição das escamas dorsais, dimensões, entre outras caraterísticas diferenciais e estas, por sua vez, podem-se encontrar em hospedeiros distintos, como Mamíferos e Homem. São, ainda, consideradas, quanto ao tipo de parasitismo, como ectoparasitas, dado que vivem na superfície do corpo (pele) do hospedeiro, do qual extraem nutrientes.

Os ácaros são seres microscópicos de oito patas, da classe dos aracnídeos. O Sarcoptes scabiei tem um tamanho médio de 0,3 milímetros, que é aproximadamente o limite do que o olho humano consegue ver.

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Ácaro da sarna:  Sarcoptes scabiei

O Sarcoptes scabiei é um parasita que vive, alimenta-se e reproduz-se na nossa pele. O ciclo de vida deste ácaro dura cerca de 30 dias. Após a cópula, o ácaro macho morre enquanto a fêmea penetra através das camadas superficiais da pele, criando um microscópico túnel, onde fica alojada, depositando os seus ovos durante toda a sua vida, que dura cerca de 30 a 60 dias. A fêmea do Sarcoptes scabiei liberta 2 a 3 ovos por dia. Os ovos eclodem em três ou quatro dias, e as larvas recém nascidas fazem o caminho de volta em direção à superfície da pele, onde amadurecem e se podem espalhar para outras áreas do corpo.

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Sarna melhorsaude.org melhor blog de saude

Os ácaros Sarcoptes scabiei produzem enzimas que degradam as proteínas da pele, principalmente a queratina, que serve de alimento para os mesmos. Conforme eles se movem através da epiderme, vão deixando para trás as suas fezes, criando lesões lineares na pele. As lesões e a comichão da escabiose são resultados de uma reação alérgica da pele contra o próprio ácaro, os seus ovos e as suas fezes.

Causas da escabiose 

Ter sarna não é necessariamente um sinal de má higiene. A escabiose é uma infecção transmitida entre pessoas através de contacto próximo.  Os casos mais habituais são entre familiares que vivem na mesma casa. A via sexual é outra maneira comum de se adquirir sarna. Exército, lares para idosos, creches, escolas e prisões são locais onde frequentemente há surtos de sarna.

O contacto entre crianças e adolescentes na escola não costuma ser próximo o suficiente para causar a transmissão, o que de modo algum significa que não haja risco. Do mesmo modo, um simples aperto de mão ou um rápido abraço não costumam ser suficientes para haver transmissão.

A transmissão ocorre, fundamentalmente, por contacto direto, ou seja, um doente entra em contacto com outro hospedeiro, ocorrendo a transferência das fêmeas recém fertilizadas (fêmeas ovígeras) pessoa a pessoa. Pode, contudo, surtir vetorização do tipo fomite, quando objetos inanimados veiculam o parasita entre os hospedeiros (por ex., roupas de cama ou vestuário, como é o caso de roupas íntimas).

O risco de contágio aumenta proporcionalmente com o número de ácaros que subsistem na pessoa atingida, assim como o respetivo período de contacto. Desta forma, considera-se que o contacto sexual constitui, provavelmente, o meio de transmissão mais proeminente entre os adultos.

Quanto tempo sobrevive o ácaro?

Quando S. scabiei abandona o hospedeiro, este poderá sobreviver no meio ambiente por um período de tempo estimado de 24 a 36 horas, à temperatura ambiente (21°C) e com uma humidade normal (40 a 80% de humidade relativa) e, ainda, por períodos de tempo mais longos, a temperaturas mais baixas e com uma humidade elevada. Esta circunstância torna possível a transmissão através de roupas, lençóis ou toalhas, apesar desta via não ser a mais comum. Verifica-se, contudo, que ao aumentar o tempo fora do hospedeiro, diminui proporcionalmente a capacidade do ácaro para contagiar outro hospedeiro. Este aracnídeo, com ausência visual, recorre aos meios sensoriais (odor) e estímulos térmicos para se fixar no hospedeiro

O ácaro Sarcoptes scabiei consegue sobreviver no ambiente durante 24 a 48 horas, o que torna possível a transmissão através de roupas, lençóis ou toalhas, apesar desta via não ser a mais comum.

Sarna do meu cão ou gato será contagiosa?

Animais, como cães e gatos, também podem ter sarna, mas o ácaro que os infecta é diferente, tornando a transmissão para humanos pouco comum. Quando ela ocorre é geralmente em animais realmente infestados pelo ácaro. Todavia, como o homem não é o hospedeiro habitual da sarna canina ou felina, o ácaro dos cães e gatos não se reproduz no humano e a infecção dura apenas alguns dias (o tempo de vida do ácaro).

Periodo de incubação

O período médio de incubação da sarna é de cerca de 6 semanas. Porém, nas pessoas reinfectadas, os sintomas podem surgir em apenas 24 horas. Uma pessoa contaminada é capaz de transmitir a sarna, mesmo que ainda esteja sem sintomas, durante o período de incubação.

Inverno é “amigo” da sarna!

A sarna aparece mais durante o Inverno porque o frio permite ao ácaro resistir um pouco mais nas superficies expostas.

Sintomas

O sintoma clássico da escabiose é uma comichão difusa pelo corpo, que costuma ser mais intensa à noite.

As lesões típicas da escabiose são:

  • Pequenas pápulas (pontinhos ou bolinhas com relevo) avermelhadas, de 1 a 3 mm de diâmetro. As lesões, às vezes, são tão pequenas que podem passar despercebidas ou camufladas pelos arranhões causados pela intensa comichão.

As lesões da sarna podem ser difusas e as partes do corpo mais afectadas são:

  • Mãos (principalmente entre os dedos),
  • Pulsos,
  • Cotovelos,
  • Axilas,
  • Mamilos (especialmente em mulheres),
  • Áreas à volta do umbigo,
  • Genitais (especialmente em homens),
  • Joelhos,
  • Nádegas,
  • Coxas,
  • Pés.

As costas são habitualmente poupadas e a cabeça, palmas e solas só costumam ser afectadas em crianças. As lesões da sarna, a comichão associada e o acto de coçar aumentam o risco de infecções secundárias e simuntâneas por bactérias.

Sarna melhorsaude.org melhor blog de saude

Tuneis de sarna

Os túneis produzidos pelas fêmeas do Sarcoptes scabiei também podem ser visíveis, apesar de não serem tão comuns como as pápulas. Estae tuneis geralmente apresentam-se como finos traçados na pele, discretamente elevados, que podem ter até 10mm de comprimento.

Sarna crostosa ou Norueguesa

Na maioria das pessoas com sarna, o número total de ácaros presentes não costuma ultrapassar uma centena. Após um aumento exponencial no início da doença, o sistema imunológico do doente consegue travar a multiplicação do Sarcoptes scabiei, mantendo a sua população mais ou menos estável.

Em doentes s com o sistema imunológico fragilizado, os ácaros podem conseguir multiplicar-se indefinidamente, chegando a alcançar uma população de mais de um milhão em alguns casos. Esta super infestação de Sarcoptes scabiei é chamada de sarna crostosa ou sarna norueguesa, que é a forma mais grave da escabiose.

Risco de infestação

As pessoas com maior risco contrair uma super infestação ou sarna Norueguesa são:

  • Idosos,
  • Portadores de SIDA (AIDS),
  • Hanseníase,
  • Linfoma,
  • Síndrome de Down
  • Outras doenças que provoquem alterações do sistema imunológico.

A sarna crostosa provoca grandes crostas vermelhas na pele, que se espalham facilmente se não forem tratadas. O couro cabeludo, mãos e pés são frequentemente afectados, embora as manchas possam ocorrer em qualquer parte do corpo. As lesões da sarna crostosa geralmente não provocam comichão e contêm um grande número de ácaros.

Tratamento da sarna

As opções mais utilizadas para o tratamento da escabiose são a Permetrina 5% ou a Ivermectina a 12 mg em comprimidos ou cápsulas acompanhadas da aplicação local de uma pomada de enxofre precipitado a 8%. Descrevo de seguida opções mais utilizadas:

  • Benzoato de benzilo, 277mg/ml, solução cutânea ( Acarilbial®);
  • Pomada de enxofre precipitado a 8%esta pomada é geralmente preparada de forma manual, cerca de 200 g, na Farmácia que receber a prescrição médica; Aplicar 1 x dia, 3 dias.  Repetir passado uma semana mais 3 dias;
  • Permetrina 5% por via tópica – deve ser aplicada em todo corpo do pescoço para baixo (nas crianças pode ser aplicada no rosto, com cuidado para não atingir os olhos), sendo enxaguada no banho após 8 a 14 horas. Após 1 ou 2 semanas, o processo pode ser repetido;
  • Ivermectina 3 a 12 mg por via oral (Ivermectol®, Stromectol®, Ivomec®) –  usada em dose única, com repetição após 14 dias. Na dosagem de 12 mg a posologia mais habitual num adulto é 1 comprimido semanal durante 2 semanas;
  • Moxidectina (cydectin®) – novo tratamento

Moxidectina, estudo recente:


Preclinical Study of Single-Dose Moxidectin, a New Oral Treatment for Scabies: Efficacy, Safety, and Pharmacokinetics Compared to Two-Dose Ivermectin in a Porcine Model

Ivermectina

A taxa de sucesso dos tratamentos tópicos é elevada mas a Ivermectina é o tratamento mais adequado para surtos em lares de idosos, prisões ou habitações com muitos moradores porque é muito mais simples tomar um comprimido do que aplicar um creme por todo o corpo.

Em casos mais resistentes pode ser necessário um tratamento mais agressivo em cápsulas com dosagem mais elevada de Ivermectina. Descrevo, de seguida, formulas para manipulação (não existe comercialmente) prescrita por um dermatologista:

Ivermectina …………………………………. 12 mg

Lactose ………………………….. q.b.p 1 cápsulas

FSA

Quantidade: 2 cápsulas

Posologia: 1 cápsula por semana ao jantar durante 2 semanas

Pomada de enxofre PP a 8%:

Enxofre precipitado ………………………. 8%

Excipiente …………………………………… q.b.p. 200 g

FSA

Posologia: Aplicar 1 x dia durante 3 dias. Repetir passado uma semana mais 3 dias.

Benzoato de benzilo (Acarilbial®)

Destaco este tratamento em particular por ser muito eficaz e ter poucos efeitos secundários em parte devido à sua aplicação apenas local. O tratamento com o medicamento Benzoato de benzilo a 277mg/ml, solução cutânea (Acarilbial®) destina-se exclusivamente à aplicação na pele e tem uma taxa de sucesso próxima de 100% se forem efectuadas duas aplicações em dois dias consecutivos.

A não ser que o seu médico lhe dê outras indicações, no tratamento da escabiose (sarna) deve ser aplicado da seguinte forma:

  1. Tomar um banho quente durante cerca de 10 minutos, de preferência por imersão e secar convenientemente;
  2. Friccionar levemente, durante alguns minutos, com algodão embebido do medicamento, a pele do corpo (com exceção da face, olhos, mucosas e canal urinário) e deixar secar;
  3. Repetir a aplicação, deixar secar novamente e vestir-se;
  4. Passadas 24 a 48 horas, tomar outro banho e mudar a roupa do corpo e da cama.

Embora em alguns doentes um único tratamento seja suficiente para se obter a cura, a experiência mostra que, por vezes, é necessário aplicar o medicamento, nas condições acima referidas, durante 2 dias consecutivos e, eventualmente, repeti-lo após um intervalo de 7 a 10 dias.

O volume do produto não deve exceder os 30ml em adultos e os 20ml em crianças, em cada aplicação. Além do doente, devem ser tratados os seus parceiros sexuais e todas as pessoas em contacto próximo, nomeadamente os indivíduos que partilham a habitação. Recomenda-se a lavagem, em água quente, de toda a roupa que esteve em contacto com a pele, incluindo roupa da cama e toalhas.

Tratamento da sarna crostosa

A sarna crostosa é tratada com uma combinação dos dois medicamentos quem são usados simultâneamente cumprindo o seguinte esquema posológico:

  • Permetrina 5% aplicada diariamente durante 7 dias
  • Ivermectina 3mg, uma dose por dia nos dias 1, 2, 8, 9 e 15

Contacto sem sintomas deve ser tratado

É importante lembrar a pessoa infectada com o ácaro da sarna costuma demorar até 6 semanas para apresentar sintomas. Por isso, o tratamento também é recomendado para os membros da família e contatos sexuais, mesmo que estes não apresentem sintomas de escabiose.

Roupa e cuidados a ter

Toda a roupa de cama e vestuário das pessoas afectadas pelo ácaro ou que com estas tiveram contacto físico, deve ser lavada na máquina a 60ºC. A roupa que não possa ser lavada a essa temperatura deve ser colocada dentro de um saco plástico bem fechado durante uma semana porque porque o ácaro geralmente não resite mais de 3 dias no ambiente externo (na maioria dos casos apenas sobrevive 48 horas). Depois desse tempo lave à temperatura normal.

Estudos mais recentes

Neste espaço farei a actualização dos estudos recentes que forem relevantes para o estudo da sarna, publicados em plataformas credíveis. Aqui ficam alguns:


Preclinical Study of Single-Dose Moxidectin, a New Oral Treatment for Scabies: Efficacy, Safety, and Pharmacokinetics Compared to Two-Dose Ivermectin in a Porcine Model

The effects of climate factors on scabies. A 14-year population-based study in Taiwan

The Treatment of Scabies – A Systematic Review of Randomized Controlled Trials

Scabies: Advances in Noninvasive Diagnosis

Scabies increased the risk and severity of COPD: a nationwide population-based study

The Prevalence of Scabies and Impetigo in the Solomon Islands: A Population-Based Survey

Protocol for the systematic review of the prevention, treatment and public health management of impetigo, scabies and fungal skin infections in resource-limited settings

A Study of Clinical Profile and Quality of Life in Patients with Scabies at a Rural Tertiary Care Centre

A scabies outbreak in a diabetic and collagen disease ward: Management and prevention

Safety of Topical Medications for Scabies and Lice in Pregnancy

Concluindo

A sarna ou escabiose é uma doença que impressiona não só pelos sintomas mas também quando pensamos na possibilidade de termos um parasita que utiliza a nossa pele para fazer os seus tuneis e colocar os seus ovos! A presença de um parasita a colonizar-nos de forma tão visivel não deixa ninguém indiferente! A boa notícia é ter um tratamento de poucos dias, sendo essencialmente local e com elevada eficácia. De realçar mais uma vez que a sarna nem sempre está ligada ás condições de higiene podendo por isso afectar qualquer adulto ou criança e com maior incidência no tempo frio. Se começar a ter diversas erupções cutâneas estranhas e comichão consulte o seu médico para ter a certeza que nada de cuidado se passa.

Fique bem

Franklim Moura Fernandes

Bibliografia:

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Menopausa e terapêuticas não hormonais

A menopausa, definida retrospetivamente como a inexistência de menstruação nos 12 meses prévios,1 é frequentemente acompanhada pela ocorrência de sintomas vasomotores (SVM), conhecidos como afrontamentos suores noturnos.1-5 Manifestam-se como uma súbita sensação de calor localizada na zona superior do peito e na face, que rapidamente se generaliza e que dura habitualmente entre 2-4 minutos, frequentemente associada a sudação profusa e por vezes seguida de arrepios e tremores. Quando ocorrem durante a noite podem perturbar o sono de modo significativo, sendo mais frequentes durante as primeiras horas de sono.2

Resumo rápido

  • Os afrontamentos e suores noturnos afetam até 80% das mulheres durante a menopausa.
  • A terapêutica hormonal de substituição (THS) continua a ser a opção mais eficaz para aliviar os sintomas vasomotores.
  • Quando a THS está contraindicada ou não é desejada, existem alternativas não hormonais com benefício clínico relevante.
  • Os ISRS/IRSN e o fezolinetant são atualmente as opções não hormonais com melhor evidência científica.
  • A escolha do tratamento deve ser individualizada, considerando sintomas, doenças associadas, medicamentos em uso e preferências da mulher.

Conteúdo baseado em artigo elaborado e publicado pela Ordem dos Farmacêuticos

Os sintomas vasomotores (SVM) são os sintomas mais comuns da menopausa e ocorrem em até 80% das mulheres,1-5 podendo impactar significativamente a sua qualidade de vida,1-4 produtividade5 e inclusive a sua saúde geral,2,4,5 pois têm sido associados a aumento do risco cardiovascular e diminuição da densidade mineral óssea.1,4,5 Persistem habitualmente entre sete e dez anos.1,3,5

terapêutica hormonal de substituição (THS) permanece a abordagem terapêutica mais efetiva. Porém, algumas mulheres podem recusá-la ou ter contraindicações ao seu uso,1-4 tal como antecedentes de cancro sensível aos estrogénios, como o cancro da mama, historial de doença coronária, acidente vascular cerebral, tromboembolismo venoso2-4 ou elevado risco genético de doença tromboembólica,3,4 entre outros. As mulheres com cancro da mama são particularmente impactadas pelos SVM, pois são um possível efeito colateral de muitas das abordagens terapêuticas.2

Menopausa tratamento não hormonal
Menopausa tratamento não hormonal

Em mulheres que não são candidatas à THS, é importante considerar alternativas farmacológicas não hormonais1-4 que, apesar de não serem tão eficazes, podem ainda assim ser muito úteis no alívio dos SVM.1,4

As abordagens terapêuticas não hormonais que têm sido investigadas para alívio dos SVM incluem os inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), os inibidores de recaptação da serotonina e noradrenalina (IRSN), o fezolinetant, a gabapentina, a pregabalina, a oxibutinina e a clonidina.1-6

Menopausa tratamento não hormonal
Menopausa tratamento não hormonal

Terapêuticas não hormonais

FármacoBenefícioVantagemLimitação
ISRS/IRSN↓ afrontamentosAjuda ansiedadeNáuseas
Fezolinetant↓ SVM intensosMelhora sonoVigiar fígado
Gabapentina↓ SVM noturnosAjuda dormirSonolência
Oxibutinina↓ frequência SVMÚtil na bexigaRisco cognitivo

ISRS/IRSN

Existe evidência de que os ISRS/IRSN estão associados a melhoria ligeira a moderada dos sintomas vasomotores.1-5 Alguns fármacos destes grupos demostraram, em ensaios controlados por placebo, constituírem a alternativa farmacológica mais efetiva à THS.2 Podem igualmente ser úteis no tratamento de condições coexistentes, como depressão ou ansiedade,4,5 ou nas perturbações do sono.5 As doses que proporcionam controlo dos SVM são tipicamente inferiores às necessárias para o tratamento de alterações do humor,4,5 o que pode favorecer a sua tolerabilidade,5 pois os seus efeitos adversos mais significativos estão relacionados com a dose.4,6 

Apesar de não existirem estudos que realizem comparações diretas, ensaios controlados, aleatorizados e com dupla ocultação indicam que os fármacos mais eficazes são a paroxetina, o citalopram, o escitalopram, a venlafaxina1-6 e a desvenlafaxina.1-5 A paroxetina é o fármaco para o qual existe maior evidência de benefício,6 estando inclusivamente aprovada em alguns países para esta indicação.1,6 

No que concerne a outros ISRS, a fluoxetina e a sertralina não demostraram benefícios consistentes,1,2,4 pelo que não estão recomendadas.1-5 Quanto a IRSN, a duloxetina também mostrou efetividade,3-5 mas a evidência é inferior.2,4 

Caso um ISRS/IRSN não se mostre eficaz, pode ser tentado outro antes de avançar para outra classe farmacológica.2 É importante ter presente que a paroxetina inibe a atividade da isoenzima CYP2D6, responsável pela conversão do tamoxifeno ao seu metabolito ativo, com o potencial de reduzir a sua efetividade.1-4

Consequentemente, a paroxetina não deve ser utilizada em mulheres tratadas com tamoxifeno.2,4-6 Escolhas seguras nestas mulheres incluem a venlafaxina,1,3,5,6 a desvenlafaxina, o escitalopram ou o citalopram.1,3,5 

Entre os seus efeitos adversos mais significativos incluem-se as náuseas,3,4,6 que tipicamente melhoram no intervalo de 1-2 semanas.3 Podem ser mitigadas pela toma com alimentos,6 ou, no caso da venlafaxina, pelo uso de uma formulação de libertação controlada.2,6 Estão também associados a secura bucal, obstipação1,6 e a disfunção sexual.4-6 É importante informar as mulheres que sintomas frequentemente associados à menopausa, como cefaleias ou perturbações do sono, podem ser efeitos adversos dos ISRS/IRSN.4 

ISRS/IRSN mais usados

FármacoEvidênciaVantagemNota
ParoxetinaMuito elevadaMuito eficazEvitar tamoxifeno
EscitalopramElevadaBem toleradoSeguro
CitalopramElevadaPoucas interaçõesBoa opção
VenlafaxinaElevadaÚtil no cancro mamaPode causar náuseas

Leia também: Síndrome musculoesquelético da menopausa, como diminuir as dores?

Síndrome musculoesquelético da menopausa
Síndrome musculoesquelético da menopausa

Fezolinetant

É um antagonista seletivo do recetor da neurocinina 3, aprovado para o tratamento dos sintomas vasomotores da menopausa.1-6  Demonstrou efeitos benéficos comparativamente ao placebo até 12 semanas de utilização,1-4 reduzindo a frequência e gravidade de SVM moderados a intensos.1,4 Mostrou ainda produzir melhorias clinicamente significativas no sono.2,4,5 Os seus principais efeitos adversos incluem diarreia, náuseas, cefaleias, 4,5 sonolência,5 alterações gastrointestinais 4 e elevações das transaminases.2,4,5 

Gabapentinoides

gabapentina e a pregabalina têm vindo a ser propostas para alívio dos SVM.1,6 Esta mostrou benefício face ao placebo num ensaio de curta duração.3 Contudo, a evidência atual é insuficiente para recomendar o seu uso.1-3
 

A gabapentina demonstrou melhorar a frequência e gravidade dos SVM em diversos estudos,1-5 mas de curta duração. 6 Os seus efeitos adversos estão relacionados com a dose e podem comprometer a adesão.6 Os mais frequentes são sonolência, tonturas,1,3-6 desequilíbrios,1,3-5 cefaleias,4,5 edema, náuseas,1,4 aumento de peso 4-6 e secura bucal.1,6 Têm o potencial de causar dependência 6 e deve ser usada na menor dose eficaz.4 Devido à sonolência que induz, a toma ao deitar pode constituir uma opção favorável em mulheres com SVM predominantemente noturnos,2-5 ao contribuir para melhorar o sono,1,2,5 minimizando os efeitos adversos diurnos.2,3

Oxibutinina

É um fármaco anticolinérgico utilizado no tratamento da bexiga hiperativa1-6 e da urgência urinária.1,4,5 Alguns estudos mostraram que proporciona uma redução significativa da frequência de SVM.1-6 Pode ser útil em mulheres com condições urinarias concomitantes,4,5 o que é frequente durante a menopausa.4 Porém, o seu uso pode não ser adequado em pessoas mais velhas, pela associação entre o uso prolongado de anticolinérgicos e declínio cognitivo.1-4 

Os seus efeitos adversos são dependentes da dose1,3 e os mais comuns são secura bucal1-6 e ocular, náuseas, alterações gastrointestinais,1,4,6 dificuldades urinárias,1,3-5 cefaleias1,6 e alterações da visão.1,4 

Efeitos adversos principais

FármacoEfeitosDose-dependenteDica
ISRS/IRSNNáuseasSimTomar com comida
FezolinetantCefaleiasParcialVigiar transaminases
GabapentinaTonturasSimTomar à noite
OxibutininaBoca secaSimCautela idosos

Clonidina

É um agonista adrenérgico α-2 de ação central, aprovado para esta indicação em alguns países, mas com evidência discordante.6  Demostrou benefício modesto face ao placebo,2-4 mas inferior ao proporcionado pelos ISRS, ISRN e pela gabapentina na redução dos SVM.3,4 Devido ao seu perfil de efeitos adversos e à existência de alternativas mais efetivas, o seu uso não é atualmente recomendado.2-4 

Menos recomendados

TerapêuticaEvidênciaProblemaEstado
ClonidinaModestaMuitos EANão recomendada
PregabalinaFracaPoucos estudosUso limitado
SuplementosInconsistenteSegurança incertaNão recomendados
Plantas medicinaisInsuficienteInteraçõesEvitar cautela

Outras abordagens terapêuticas

terapia cognitiva comportamental pode ser útil no alívio dos SVM2-4,6 ao alterar a sua perceção;4 parece mais eficaz para a insónia. Outras terapêuticas alternativas ou técnicas de autoajuda estão ainda insuficientemente estudadas ou não mostraram benefício.2 

A evidência atual acerca da eficácia e segurança de suplementos alimentares e produtos à base de plantas para alívio de SVM na menopausa é insuficiente para recomendar o seu uso,1-4 uma vez que muitos dos estudos têm falhas metodológicas, desenhos inadequados,4 pequena dimensão e curta duração.2 Os dados de segurança em mulheres com história de cancro da mama são inconsistentes, pelo que o seu uso deve ser evitado. Adicionalmente, alguns produtos acarretam risco de interação com o tamoxifeno.6 

seleção do tratamento deve ser individualizada em função das necessidades e preferências da mulher.4 A escolha do fármaco depende do padrão dos SVM, de estar ou não a tomar tamoxifeno,2 do risco de exacerbar outros sintomas da menopausa,4 ou da presença concomitante de alterações do humor2,5,6 ou do sono.2,5 

As terapêuticas farmacológicas para alívio dos SVM permanecem subutilizadas. É importante que o farmacêutico conheça as diferentes opções disponíveis, contribuindo, desta forma, para informar e melhorar o acesso das mulheres aos melhores cuidados.1 

Escolha conforme perfil

SituaçãoMelhor opçãoMotivo
AnsiedadeISRS/IRSNDuplo benefício
InsóniaGabapentinaMelhora sono
TamoxifenoVenlafaxinaMenos interação
Sintomas urináriosOxibutininaBenefício urinário

Referências bibliográficas:

1. Carson E, Vernon V, Cunningham L, Mathew S. Cooling the flames: Navigating menopausal vasomotor symptoms with nonhormone medications. Am J Health Syst Pharm. 2025 Apr 16;82(7):e332-e344. doi: 10.1093/ajhp/zxae254. 

2. Casper RF. Menopausal hot flashes. UpToDate®, topic last updated: Jan 06, 2026.

3. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023 Jun 1;30(6):573-590. doi: 10.1097/GME.0000000000002200. 

4. Iyer TK, Fiffick AN, Batur P. Nonhormone therapies for vasomotor symptom management. Cleve Clin J Med. 2024 Apr 1;91(4):237-244. doi: 10.3949/ccjm.91a.23067. 

5. Kling JM, Stuenkel CA, Faubion SS. Management of the Vasomotor Symptoms of Menopause: Twofers in Your Clinical Toolbox. Mayo Clin Proc. 2024 Jul;99(7):1142-1148. doi: 10.1016/j.mayocp.2024.03.028. 

6. British Menopause Society (BMS) Consensus Statement. Non-hormonal-based treatments for menopausal symptoms. Reviewed: November 2025 [acedido a 20-04-2026]. British Menopause Society. Disponível em: https://thebms.org.uk/wp-content/uploads/2025/11/04-BMS-ConsensusStatement-Non-hormonal-based-treatments-for-menopausal-symptoms-NOV2025-C.pdf

Mentiras médicas online e como evitar erros perigosos

Mentiras médicas e desinformação sobre saúde online, como distinguir ciência real de desinformação médica na internet. A internet revolucionou o acesso ao conhecimento médico. Nunca foi tão fácil aprender sobre doenças, medicamentos, nutrição, exercício físico, saúde mental ou prevenção. Milhões de pessoas conseguem hoje compreender melhor o seu corpo, reconhecer sinais de alerta precoces e tomar decisões mais informadas sobre a própria saúde graças ao acesso a boas fontes científicas e médicas credíveis. A democratização do conhecimento pode literalmente salvar vidas quando baseada em evidência robusta, revisões sistemáticas, ensaios clínicos e recomendações de sociedades médicas reconhecidas.¹

Contudo, o mesmo fenómeno criou um dos maiores problemas de saúde pública da era moderna: a propagação massiva de informação incorreta, pseudociência, manipulação comercial e desinformação médica. A velocidade com que conteúdos falsos se tornam virais é frequentemente superior à velocidade com que a ciência consegue refutá-los.² Em muitos casos, conteúdos emocionalmente apelativos ou sensacionalistas têm mais alcance do que análises médicas rigorosas. Isso pode levar a atrasos diagnósticos, abandono de terapêuticas eficazes, automedicação perigosa, intoxicações, ansiedade extrema e até morte.³

A Organização Mundial da Saúde classificou este fenómeno como uma “infodemia”, ou seja, uma epidemia de excesso de informação — correta e incorreta — que dificulta encontrar fontes fiáveis durante decisões importantes relacionadas com saúde pública.⁴


Objetivos do artigo

Este artigo pretende:

  • Explicar porque tanta informação online sobre saúde está errada
  • Demonstrar os mecanismos psicológicos usados para manipular leitores
  • Ensinar a reconhecer fontes médicas confiáveis
  • Identificar sinais de pseudociência e fraude
  • Explicar os perigos clínicos da desinformação médica
  • Analisar o papel das redes sociais e algoritmos
  • Fornecer ferramentas práticas para avaliar conteúdos de saúde
  • Promover literacia científica e pensamento crítico

Índice dos temas abordados

  • A explosão da informação médica online
  • Porque o cérebro humano acredita facilmente em informação falsa
  • O modelo económico da desinformação
  • Redes sociais e algoritmos: o problema invisível
  • Pseudociência e manipulação emocional
  • Influencers sem formação científica
  • Os perigos da automedicação baseada na internet
  • “Estudos científicos” manipulados ou mal interpretados
  • Como reconhecer fontes credíveis
  • Ferramentas práticas para verificar informação médica
  • O papel da inteligência artificial na desinformação
  • Como proteger a população da fraude em saúde
  • Conclusão científica e prática

A explosão da informação médica online

A internet contém atualmente milhares de milhões de páginas relacionadas com saúde. Nunca existiu tanta informação disponível. O problema é que quantidade não significa qualidade.

Muitos conteúdos são produzidos sem revisão científica, sem validação clínica e frequentemente por indivíduos sem qualquer formação médica. Em inúmeros casos, o verdadeiro objetivo não é informar, mas gerar tráfego, vender suplementos, captar cliques ou explorar emocionalmente pessoas vulneráveis.⁵

Tabela — Principais fontes de desinformação médica

FonteProblema principalRisco
Redes sociaisViralização emocionalInformação falsa
Blogs sem revisãoFalta de rigorConselhos perigosos
InfluencersAusência de formaçãoCredibilidade falsa
Sites comerciaisInteresse financeiroManipulação

Porque o cérebro humano acredita facilmente em informação falsa

O cérebro humano não foi desenhado para avaliar ciência complexa. Foi desenhado para sobrevivência rápida, emocional e intuitiva.

Informação simples, emocional, assustadora ou surpreendente tende a ser mais facilmente aceite e partilhada do que explicações científicas complexas.⁶

Principais mecanismos psicológicos explorados

Viés de confirmação

As pessoas tendem a procurar informação que confirma aquilo em que já acreditam.

Heurística emocional

Conteúdos que provocam medo ou esperança extrema têm maior impacto emocional e parecem mais “verdadeiros”.

Efeito de repetição

Quanto mais vezes uma afirmação é repetida, maior a tendência para ser considerada verdadeira, mesmo sem evidência científica.⁷


Como nasce a desinformação médica

Medo → Pesquisa rápida → Redes sociais → Influencer → Informação falsa

Ausência de pensamento crítico

Partilha viral

Automedicação / atraso terapêutico

O modelo económico da desinformação

Grande parte da desinformação médica gera enormes receitas publicitárias.

Conteúdos sensacionalistas produzem mais cliques do que informação equilibrada e científica. Isto cria um incentivo económico perverso.⁸

Exemplos típicos

  • “A cura do cancro que os médicos escondem”
  • “Este alimento destrói tumores”
  • “A indústria farmacêutica não quer que saiba isto”
  • “Desintoxique o fígado naturalmente”
  • “Pare já este medicamento”

Estas mensagens exploram medo, desconfiança e emoções fortes.


Redes sociais e algoritmos: o problema invisível

As plataformas digitais utilizam algoritmos que promovem conteúdos capazes de manter atenção durante mais tempo.⁹

O problema é que conteúdos extremos, polémicos ou assustadores geram mais interação.

Tabela — Porque conteúdos falsos se tornam virais

FatorConsequência
Emoção forteMais partilhas
Simplificação excessivaFácil compreensão
Linguagem conspirativaElevado envolvimento
Promessas milagrosasEsperança emocional

Pseudociência e manipulação emocional

A pseudociência utiliza linguagem aparentemente científica para parecer credível.

Frequentemente observam-se expressões como:

  • “Clinicamente comprovado”
  • “100% natural”
  • “Desintoxicação”
  • “Equilíbrio energético”
  • “Reforço quântico”
  • “Ativa genes da longevidade”

Na maioria dos casos, estas expressões não possuem significado clínico validado.¹⁰


Como reconhecer pseudociência

Tabela — Ciência real vs pseudociência

CiênciaPseudociência
Evidência replicávelTestemunhos pessoais
Revisão por pares“Segredo escondido”
Limitações reconhecidasPromessas absolutas
Dados mensuráveisLinguagem vaga

Influencers sem formação científica

Uma das maiores alterações recentes no ecossistema da informação médica é o crescimento de “influencers de saúde”.

Muitos possuem enorme capacidade de comunicação, mas ausência quase total de formação científica.

O problema agrava-se quando utilizam:

  • Bata branca
  • Linguagem técnica
  • Referências científicas fora de contexto
  • Experiências pessoais como prova clínica

A aparência de autoridade pode criar falsa confiança.¹¹


Os perigos da automedicação baseada na internet

A automedicação inadequada é uma das consequências mais perigosas da desinformação médica.

Exemplos clínicos reais observados

Uso excessivo de suplementos

Vitaminas em excesso podem causar toxicidade hepática, renal ou neurológica.¹²

Suspensão de medicamentos prescritos

Alguns doentes abandonam terapêuticas eficazes devido a medo induzido online.

Antibióticos usados incorretamente

Contribuem para resistência antimicrobiana global.¹³

Terapias “naturais” perigosas

Nem tudo o que é natural é seguro.


Ciclo de risco da desinformação

Informação falsa

Medo ou esperança

Automedicação

Complicações clínicas

Agravamento da doença

“Estudos científicos” manipulados ou mal interpretados

Um dos maiores problemas modernos é o uso incorreto de estudos científicos.

Muitos conteúdos online:

  • Citam estudos em animais como se fossem evidência humana
  • Utilizam estudos observacionais para provar causalidade
  • Escolhem apenas estudos favoráveis
  • Ignoram meta-análises
  • Distorcem conclusões estatísticas

A ciência médica exige interpretação contextualizada e análise crítica da qualidade metodológica.¹⁴


Como reconhecer fontes credíveis

Quais as características das fontes de informação confiáveis em saúde? Descrevo de seguida as 3 principais assinaturas de uma marca credivel.

Instituições reconhecidas

  • World Health Organization
  • Centers for Disease Control and Prevention
  • European Medicines Agency

TOP 10 instituições mais credíveis do mundo em informação médica e saúde

  1. World Health Organization
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC)
  3. National Institutes of Health (NIH) como Pubmed, National Library of Medicine e Medline
  4. European Medicines Agency
  5. Food and Drug Administration
  6. Cochrane
  7. Mayo Clinic
  8. National Health Service
  9. The Lancet
  10. New England Journal of Medicine

1. World Health Organization

A principal autoridade global em saúde pública. Produz recomendações internacionais, guidelines clínicas, relatórios epidemiológicos e alertas sanitários globais.

Excelente para:

  • doenças infecciosas
  • vacinação
  • saúde pública
  • epidemiologia
  • resistência antimicrobiana

World Health Organization


2. Centers for Disease Control and Prevention

Uma das instituições mais respeitadas do mundo em prevenção de doença e vigilância epidemiológica.

Muito forte em:

  • infeções
  • vacinação
  • doenças crónicas
  • toxicologia
  • estatísticas médicas

CDC


3. National Institutes of Health

Maior centro mundial de investigação biomédica pública.

Inclui:

  • PubMed
  • Medline
  • National Library of Medicine
  • múltiplos institutos especializados

NIH


4. European Medicines Agency

Autoridade reguladora europeia do medicamento.

Especialmente importante para:

  • segurança dos medicamentos
  • farmacovigilância
  • aprovação terapêutica
  • avaliação risco-benefício

European Medicines Agency


5. Food and Drug Administration

Provavelmente a agência reguladora mais influente do mundo.

Extremamente relevante para:

  • medicamentos
  • dispositivos médicos
  • suplementos
  • segurança alimentar

FDA


6. Cochrane

Referência mundial em revisões sistemáticas e medicina baseada na evidência.

Uma das fontes mais importantes para:

  • meta-análises
  • eficácia terapêutica
  • guidelines clínicas

Cochrane


7. Mayo Clinic

Centro médico e científico extremamente respeitado internacionalmente.

Reconhecido por:

  • educação médica
  • conteúdos clínicos para público
  • investigação clínica

Mayo Clinic


8. National Health Service

O NHS britânico produz algumas das melhores informações médicas acessíveis ao público.

Excelente para:

  • explicações clínicas simples
  • informação prática
  • guidelines populacionais

NHS


9. The Lancet

Uma das revistas médicas mais prestigiadas do planeta.

Publica:

  • investigação de topo
  • grandes ensaios clínicos
  • análises epidemiológicas globais

The Lancet


10. New England Journal of Medicine

Considerada por muitos a revista médica clínica mais influente do mundo.

Extremamente importante para:

  • medicina interna
  • cardiologia
  • oncologia
  • terapêutica farmacológica

NEJM


Menções Honrosas de Excelência Mundial

  • JAMA
  • BMJ
  • Nature
  • Science
  • European Society of Cardiology
  • American Heart Association

TOP 10 Revistas científicas e médicas mais reputadas do mundo

  1. New England Journal of Medicine
  2. The Lancet
  3. JAMA
  4. BMJ
  5. Nature
  6. Science
  7. Cell
  8. Nature Medicine
  9. Annals of Internal Medicine
  10. PLOS Medicine

Como usar corretamente estas fontes

Regra prática muito importante

Quanto mais uma informação:

  • estiver alinhada entre múltiplas instituições,
  • tiver meta-análises,
  • revisões sistemáticas,
  • guidelines oficiais,
  • e consenso científico internacional,

maior a probabilidade de ser confiável.

Por outro lado:

  • “curas milagrosas”,
  • teorias conspirativas,
  • ataques generalizados à medicina,
  • ou promessas absolutas,

devem ser considerados sinais de alerta importantes.

Profissionais qualificados

Verificar sempre:

  • Formação académica
  • Especialidade
  • Conflitos de interesse
  • Transparência científica

Ferramentas práticas para verificar informação médica

Tabela — Perguntas essenciais antes de acreditar

PerguntaImportância
Existe fonte científica?Fundamental
Há revisão por pares?Muito elevada
Promete cura milagrosa?Sinal de alerta
Existe interesse comercial?Avaliar enviesamento

O papel da inteligência artificial na desinformação

A inteligência artificial poderá melhorar enormemente a educação médica da população. Contudo, também pode acelerar dramaticamente a produção de desinformação convincente.¹⁵

Hoje já é possível criar:

  • Vídeos falsos
  • Médicos fictícios
  • Estudos inexistentes
  • Imagens clínicas manipuladas
  • Vozes artificiais credíveis

Isso torna ainda mais importante o desenvolvimento de literacia científica.


Como avaliar informação médica online

1. Quem escreveu?

2. Existe evidência científica?

3. Há revisão por pares?

4. Existe conflito comercial?

5. Outras fontes concordam?

6. Sociedade médica recomenda?

Como proteger a população da fraude em saúde

O combate à desinformação médica exige múltiplas estratégias. As medidas fundamentais são as seguintes:

  • Melhor educação científica
  • Literacia digital
  • Regulamentação de publicidade enganosa
  • Responsabilização de plataformas
  • Divulgação científica acessível
  • Formação contínua de profissionais de saúde

Os profissionais de saúde têm hoje um papel crítico como filtros científicos confiáveis numa era de excesso de informação.


Conclusão

A internet transformou profundamente a medicina moderna e pode representar uma das maiores ferramentas de promoção da saúde alguma vez criadas. O acesso rápido a conhecimento científico de qualidade permite aumentar a prevenção, melhorar a adesão terapêutica, reconhecer sintomas precocemente e capacitar milhões de pessoas para decisões mais informadas. Contudo, essa mesma facilidade de acesso abriu espaço para uma explosão sem precedentes de desinformação médica, pseudociência e manipulação emocional. Quando informação incorreta se mistura com medo, interesses comerciais e algoritmos desenhados para maximizar atenção, o resultado pode ser extremamente perigoso para a saúde pública.

Num mundo onde qualquer pessoa pode publicar conteúdos aparentemente “científicos”, o pensamento crítico tornou-se uma competência de sobrevivência médica. Verificar fontes, compreender níveis de evidência, desconfiar de promessas milagrosas e procurar profissionais qualificados são estratégias essenciais para evitar erros graves. A literacia científica deixou de ser apenas uma vantagem intelectual — tornou-se um verdadeiro mecanismo de proteção da saúde individual e coletiva.

Principais mensagens finais

  • Nem toda a informação médica online é confiável
  • Emoção e medo facilitam manipulação
  • Redes sociais amplificam desinformação
  • “Natural” não significa seguro
  • Estudos científicos podem ser mal interpretados
  • Influencers não substituem profissionais qualificados
  • Revisão por pares continua essencial
  • Pensamento crítico salva vidas
  • Fontes institucionais devem ser priorizadas
  • Literacia científica será cada vez mais importante na era da inteligência artificial

Fontes bibliográficas

  1. “Health literacy and public health: a systematic review and integration of definitions and models”
    https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/1471-2458-12-80
  2. “The spread of true and false news online”
    https://www.science.org/doi/10.1126/science.aap9559
  3. “Medical misinformation and potential cures on social media”
    https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2772692
  4. “Infodemic” — World Health Organization
    World Health Organization
  5. “Online health information seeking and the impact on health behavior”
    https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3071474/
  6. “Cognitive biases and how they affect decision making”
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK574545/
  7. “The illusory truth effect”
    https://psycnet.apa.org/record/1977-22102-001
  8. “The economics of misinformation”
    https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/715829
  9. “Social media algorithms and public health misinformation”
    https://www.nature.com/articles/s41599-023-01749-0
  10. “Pseudoscientific health beliefs and practices”
    https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7041331/
  11. “Health misinformation on social media: review”
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7350576/
  12. “Vitamin toxicity and adverse effects of supplements”
    https://www.merckmanuals.com/professional/injuries-poisoning/poisoning/vitamins
  13. “Antimicrobial resistance: global report on surveillance”
    World Health Organization – Antimicrobial resistance report
  14. “Why Most Published Research Findings Are False”
    https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.0020124
  15. “Artificial intelligence and misinformation in health care”
    https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp2301718

Os 5 erros mais comuns no uso de medicamentos que vejo todos os dias


Interações e erros comuns com medicamentos podem comprometer a eficácia e causar efeitos adversos. Saiba como evitá-los com base na melhor evidência científica.

Os medicamentos representam uma das maiores conquistas da medicina moderna, responsáveis por aumentos significativos na esperança média de vida e no controlo de doenças agudas e crónicas. Desde antibióticos até terapias biotecnológicas avançadas, a farmacoterapia transformou profundamente o panorama da saúde global. No entanto, o seu benefício depende criticamente de uma utilização correta.

Segundo a World Health Organization, os erros relacionados com medicamentos são uma das principais causas evitáveis de danos em sistemas de saúde, contribuindo para milhões de eventos adversos todos os anos¹. Estes erros ocorrem frequentemente fora do ambiente hospitalar — em casa, na rotina diária dos doentes — e são muitas vezes invisíveis até gerarem consequências clínicas.


Objetivos do artigo

  • Melhorar a literacia em saúde relativamente ao uso de medicamentos
  • Identificar erros frequentes na prática diária
  • Reduzir riscos associados à terapêutica
  • Promover a adesão e eficácia dos tratamentos
  • Capacitar o doente para decisões seguras

Índice dos temas abordados

  • Tomar medicamentos de forma inconsistente
  • Interromper o tratamento precocemente
  • Misturar medicamentos sem avaliar interações
  • Utilizar doses incorretas
  • Ignorar instruções específicas de administração

1. Tomar medicamentos de forma inconsistente

A eficácia terapêutica depende da manutenção de níveis plasmáticos estáveis. A toma irregular compromete a farmacocinética, reduzindo a eficácia e podendo favorecer resistência (no caso de antibióticos) ou descompensação de doenças crónicas como hipertensão e diabetes².

📊 Tabela resumo

ErroConsequênciaComo evitar
Toma irregularPerda de eficáciaCriar rotina fixa
EsquecimentosDescontrolo clínicoAlarmes/caixas semanais
Dose esquecida → ↓ concentração plasmática → Falha terapêutica

2. Interromper o tratamento precocemente

Muitos doentes suspendem a medicação assim que se sentem melhor, ignorando que a doença pode não estar resolvida a nível fisiológico. Este comportamento é particularmente crítico em infeções bacterianas, favorecendo recidivas e resistência antimicrobiana³.

📊 Tabela resumo

ErroConsequênciaComo evitar
Parar cedoRecidivaCumprir duração
Suspensão abruptaEfeito reboundSeguir orientação médica
Melhoria clínica → Interrupção → Doença ativa → Recaída

3. Misturar medicamentos sem avaliar interações

As interações medicamentosas representam uma das causas mais subestimadas de falha terapêutica e eventos adversos. Podem ocorrer por mecanismos farmacocinéticos (absorção, metabolismo, excreção) ou farmacodinâmicos (efeito sinérgico ou antagonista), sendo particularmente relevantes em doentes polimedicados. A sua identificação precoce é crítica para prevenir complicações potencialmente graves⁴⁷.


Tabela resumo das interações mais frequentes

CombinaçãoRisco principalRecomendação
AINE + anticoagulanteHemorragiaEvitar
IECA/ARA II + diurético + AINELesão renal agudaMonitorizar
Estatina + macrólidoMiopatiaAjustar
Benzodiazepina + álcoolDepressão respiratóriaContraindicado
ISRS + AINEHemorragia GIPrecaução
Varfarina + vitamina KRedução efeitoEstabilizar dieta
Metformina + álcoolAcidose lácticaEvitar
Digoxina + diuréticoArritmiasMonitorizar
Clopidogrel + IBP (omeprazol)↓ eficáciaPreferir pantoprazol
Antibiótico + contraceptivo oral↓ eficácia contracetivaMétodo adicional

Análise detalhada das interações

Descrevo de seguida algumas das mais relevantes e comuns interações que podem alterar o efeito terapêutico dos medicamentos. Algumas interações potenciam e outras diminuem a ação terapêutica do medicamento.

AINE + anticoagulante (ex: ibuprofeno + varfarina)

A associação entre anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e anticoagulantes aumenta significativamente o risco de hemorragia gastrointestinal e sistémica, devido a efeito sinérgico na inibição da coagulação e agressão da mucosa gástrica⁴.


IECA/ARA II + diurético + AINE (“triple whammy”)

Esta combinação pode levar a insuficiência renal aguda por redução da perfusão glomerular: os AINEs reduzem a vasodilatação aferente, enquanto IECA/ARA II diminuem a pressão eferente, e os diuréticos reduzem volume plasmático⁷.

AINE → ↓ fluxo renal  
IECA → ↓ pressão glomerular
Diurético → ↓ volume → Lesão renal aguda

Estatinas + antibióticos macrólidos (ex: claritromicina)

Os macrólidos inibem o citocromo P450 (CYP3A4), aumentando os níveis de estatinas e o risco de miopatia e rabdomiólise⁸.


Benzodiazepinas + álcool

Ambos deprimem o sistema nervoso central, podendo causar sedação profunda, depressão respiratória e risco de morte⁹.


ISRS (antidepressivos) + AINE

Esta combinação aumenta o risco de hemorragia digestiva devido à interferência na agregação plaquetária⁴.


Varfarina + alimentos ricos em vitamina K

A vitamina K antagoniza o efeito da varfarina, reduzindo a anticoagulação e aumentando o risco trombótico. A consistência da ingestão alimentar é essencial¹⁰.


Metformina + álcool

O álcool potencia o risco de acidose láctica, uma complicação rara mas potencialmente fatal, especialmente em doentes com compromisso hepático ou renal¹¹.


Digoxina + diuréticos (ex: furosemida)

Os diuréticos podem causar hipocaliémia, aumentando a sensibilidade cardíaca à digoxina e o risco de arritmias graves¹².


Clopidogrel + omeprazol

O omeprazol inibe o CYP2C19, reduzindo a ativação do clopidogrel e diminuindo o seu efeito antiagregante. Alternativas como pantoprazol são preferíveis.


Antibióticos + contraceptivos orais

Alguns antibióticos podem reduzir a eficácia dos contracetivos orais, possivelmente por alteração da flora intestinal e recirculação entero-hepática, justificando método adicional temporário¹³.

Fármaco A + Fármaco B → Alteração metabolismo/efeito → ↑ toxicidade ou ↓ eficácia

Interpretação clínica

Estas interações são particularmente relevantes em:

  • Idosos (polimedicação)
  • Doentes crónicos
  • Automedicação sem aconselhamento
  • Uso simultâneo de suplementos

A intervenção farmacêutica é determinante para identificar e prevenir estas situações, reforçando o papel crítico do farmacêutico comunitário na segurança do medicamento.

Fármaco A + Fármaco B → Interação → ↑ toxicidade / ↓ eficácia

4. Utilizar doses incorretas

A sobredosagem pode levar a toxicidade aguda, enquanto a subdosagem compromete a eficácia. Este erro é comum em pediatria e idosos devido a dificuldades na medição ou compreensão das instruções⁵.

📊 Tabela resumo

Tipo de erroConsequênciaPrevenção
SobredosagemToxicidadeRespeitar dose
SubdosagemIneficáciaMedir corretamente
Dose errada → Alteração farmacodinâmica → Risco clínico

5. Ignorar instruções específicas de administração

Alguns medicamentos requerem condições específicas para absorção ideal (ex: em jejum, com alimentos, evitar certos nutrientes). Ignorar estas orientações pode comprometer a biodisponibilidade⁶.

📊 Tabela resumo

Instrução ignoradaImpactoExemplo
Tomar com alimentos↓ irritaçãoAINE
Tomar em jejum↑ absorçãoLevotiroxina
Administração incorreta → ↓ absorção → ↓ eficácia

📊 Tabela comparativa global

Tipo de erroFrequênciaGravidadePrevenção
InconsistênciaAltaModeradaRotina
InterrupçãoAltaAltaEducação
InteraçõesMédiaAltaAvaliação
Dose incorretaMédiaAltaInformação
Administração erradaAltaModeradaInstruções

Conclusão

A utilização correta de medicamentos é um dos pilares fundamentais da medicina moderna. Pequenos erros aparentemente inofensivos podem comprometer significativamente a eficácia terapêutica e aumentar o risco de efeitos adversos. A evidência científica demonstra que a maioria destes erros é evitável com educação adequada e acompanhamento profissional.

O papel do farmacêutico comunitário é absolutamente central na prevenção destes erros, funcionando como um elo crítico entre o medicamento e o doente. A promoção da literacia em saúde e o acompanhamento próximo permitem transformar a terapêutica farmacológica numa ferramenta segura e altamente eficaz.

✔️ Pontos-chave finais

  • Uso correto melhora resultados clínicos
  • Erros são frequentes mas evitáveis
  • Adesão terapêutica é determinante
  • Informação reduz riscos
  • Farmacêutico é essencial na segurança

Perguntas frequentes (FAQs)

1. O que devo fazer se me esquecer de tomar um medicamento?
Na maioria dos casos, deve tomar a dose assim que se lembrar. No entanto, se estiver próximo da próxima toma, deve ignorar a dose esquecida e retomar o esquema habitual. Nunca deve duplicar a dose sem indicação médica.


2. Posso parar um antibiótico quando me sinto melhor?
Não. A interrupção precoce pode não eliminar completamente a bactéria, aumentando o risco de recaída e desenvolvimento de resistências bacterianas.


3. É seguro tomar vários medicamentos ao mesmo tempo?
Depende. Muitos medicamentos podem ser usados em conjunto, mas algumas combinações podem causar interações perigosas. Deve sempre confirmar com um profissional de saúde.


4. O que acontece se tomar uma dose maior do que a recomendada?
Pode ocorrer toxicidade, que varia desde sintomas ligeiros (náuseas, tonturas) até situações graves como lesão hepática ou renal, dependendo do medicamento.


5. Posso tomar medicamentos com álcool?
Em geral, não é recomendado. O álcool pode potenciar efeitos sedativos, aumentar toxicidade hepática ou interferir com a eficácia de vários medicamentos.


6. É importante tomar os medicamentos sempre à mesma hora?
Sim. Manter horários regulares ajuda a garantir níveis constantes do medicamento no organismo, aumentando a eficácia e reduzindo efeitos adversos.


7. Posso partir ou esmagar comprimidos?
Nem sempre. Alguns comprimidos têm libertação modificada ou revestimento especial. Alterá-los pode comprometer a eficácia ou segurança. Deve confirmar antes.


8. Os suplementos naturais podem interferir com medicamentos?
Sim. Substâncias como hipericão, ginkgo biloba ou suplementos ricos em vitamina K podem interferir com antidepressivos, anticoagulantes e outros fármacos.


9. É seguro tomar medicamentos fora do prazo de validade?
Não é recomendado. Embora alguns medicamentos mantenham estabilidade, outros podem perder eficácia ou tornar-se inseguros.


10. Devo tomar medicamentos em jejum ou com alimentos?
Depende do medicamento. Alguns requerem jejum para melhor absorção (ex: levotiroxina), enquanto outros devem ser tomados com alimentos para reduzir irritação gástrica (ex: anti-inflamatórios).

Referências bibliográficas

  1. Medication Without Harm – WHO
    https://www.who.int/initiatives/medication-without-harm
  2. Adherence to Long-Term Therapies
    https://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_report/en/
  3. Antimicrobial resistance report
    https://www.who.int/publications/i/item/9789241564748
  4. Drug Interactions – U.S. Food and Drug Administration
    https://www.fda.gov/drugs/resources-you-drugs/drug-interactions-what-you-should-know
  5. Preventing Medication Errors
    https://nap.nationalacademies.org/catalog/11623
  6. Food-Drug Interactions
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5359060/
  7. Triple whammy kidney injury
    https://www.bmj.com/content/346/bmj.e8525
  8. Statin-associated myopathy
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6019601/
  9. Drug Interactions: What You Should Know – U.S. Food and Drug Administration https://www.fda.gov/drugs/resources-you-drugs/drug-interactions-what-you-should-know
  10. Concurrent use of diuretics, ACE inhibitors, and NSAIDs and risk of acute kidney injury https://www.bmj.com/content/346/bmj.e8525
  11. Statin-associated myopathy: a review and update https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6019601/
  12. Benzodiazepines and alcohol: a dangerous combination https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537321/
  13. Warfarin and vitamin K intake: a review https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3019087/
  14. Metformin-associated lactic acidosis: current perspectives
  15. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5673604/
  16. Digoxin toxicity: clinical features and management https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459165/
  17. Antibiotics and oral contraceptive failure https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3250726/

Peptídeos terapêuticos revolução metabólica semaglutido, tirzepatida, trulicity, ozempic, wegovy e mounjaro

Peptídeos terapêuticos explicados: semaglutido (Ozempic, Wegovy, Rybelsus), tirzepatida (Mounjaro) e dulaglutido (Trulicity), DPP-4, GIP, risco tiroideu e análise dos 12 peptídeos reclassificados pela FDA em 2026. Evidência científica, doses e segurança.

Os peptídeos terapêuticos representam uma das áreas mais promissoras da farmacologia moderna, posicionando-se na interseção entre pequenas moléculas e biológicos complexos. Com elevada especificidade de ligação a recetores, menor toxicidade sistémica e potencial para modular vias fisiológicas críticas, estes compostos têm vindo a ganhar destaque em áreas como regeneração tecidular, neurologia e metabolismo¹.

O impacto desta classe tornou-se evidente com o sucesso de Semaglutido, comercializado com os nomes Ozempic, Wegovy, Rybelsus; Tirzepatida comercializada com o nome Mounjaro e também do Dulaglutido, comercializado com o nome Trulicity18, amplamente utilizado no tratamento da diabetes tipo 2 e com benefícios cardiovasculares demonstrados¹²¹⁸.

Em abril de 2026, a Food and Drug Administration introduziu uma alteração relevante ao remover 12 peptídeos da lista “Categoria 2 – Do Not Compound”. Esta decisão representa um ponto de inflexão regulatório, permitindo maior flexibilidade na manipulação magistral — embora não constitua aprovação formal para uso clínico generalizado, um ponto essencial para interpretação correta dos dados científicos e implicações terapêuticas².


Objetivo do artigo

  • Explicar os fundamentos dos peptídeos terapêuticos
  • Analisar semaglutido, tirzepatida e dulaglutido
  • Comparar eficácia, segurança e utilização clínica
  • Avaliar os 12 peptídeos reclassificados
  • Apoiar decisões clínicas baseadas em evidência

O que são peptídeos terapêuticos

Os peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos (tipicamente <50), capazes de atuar como ligandos altamente seletivos para recetores celulares, modulando vias de sinalização específicas. Ao contrário de pequenas moléculas, apresentam menor interação inespecífica; e comparativamente aos anticorpos monoclonais, oferecem maior penetração tecidular e menor custo de produção³.

Esquema conceptual simplificado

Peptídeo → Recetor celular → Ativação/inibição de via → Efeito biológico → Aplicação terapêutica

Os peptídeos terapêuticos deixaram de ser uma promessa distante para se tornarem uma realidade clínica consolidada. Dois exemplos paradigmáticos — Semaglutido e Tirzepatida — são hoje utilizados por milhões de pessoas em todo o mundo, com resultados clínicos robustos no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2¹².

Estes fármacos representam uma verdadeira mudança de paradigma: demonstram que os peptídeos, quando devidamente estudados e aprovados, podem alcançar eficácia elevada com perfis de segurança aceitáveis. Este sucesso clínico recente reforça o interesse crescente noutras classes de peptídeos, incluindo os 12 compostos recentemente reclassificados pela Food and Drug Administration em abril de 2026.

Importa, contudo, distinguir claramente dois níveis:

  • Peptídeos aprovados com evidência clínica robusta (como semaglutido e tirzepatida)
  • Peptídeos em fase experimental ou com evidência limitada (como BPC-157 ou MOTS-c)

O que são o semaglutido e a tirzepatida

O semaglutido é um análogo do GLP-1 (glucagon-like peptide-1), resistente à degradação pela DPP-4, que prolonga a sua ação biológica¹. Atua através de:

  • Aumento da secreção de insulina dependente da glicose
  • Redução da secreção de glucagon
  • Atraso do esvaziamento gástrico
  • Aumento da saciedade central

A tirzepatida é um agonista duplo dos recetores GIP e GLP-1, combinando efeitos incretínicos sinérgicos². Este duplo mecanismo traduz-se em maior eficácia metabólica comparativamente aos agonistas isolados de GLP-1.


Efeitos terapêuticos comprovados

Semaglutido

  • Redução de peso: até ~15% em estudos clínicos¹
  • Melhoria do controlo glicémico (HbA1c ↓)
  • Redução de risco cardiovascular

Tirzepatida

  • Redução de peso: até ~20–22%²
  • Maior redução da HbA1c comparativamente ao semaglutido
  • Potencial superior na reversão da resistência à insulina

DPP-4 e recetores GIP

A DPP-4 degrada incretinas como GLP-1 e GIP⁴, enquanto os recetores GIP potenciam a secreção de insulina⁵. A tirzepatida atua em ambos os recetores, aumentando a eficácia metabólica.


Dulaglutido (Trulicity): enquadramento clínico

O dulaglutido é um agonista do recetor GLP-1 de longa duração, administrado semanalmente, com uma estrutura modificada que aumenta a sua estabilidade e meia-vida¹⁸.

Efeitos terapêuticos

  • Redução da HbA1c
  • Perda de peso moderada (~5–8%)
  • Redução de eventos cardiovasculares

Vantagens

  • Administração semanal
  • Perfil de segurança bem estabelecido
  • Forte evidência cardiovascular

Desvantagens vs semaglutido e tirzepatida

  • Menor eficácia na perda de peso
  • Menor potência glicémica
  • Menor impacto metabólico global

Comparação direta (GLP-1 e dual agonistas)

Eficácia

FármacoMecanismoPerda de pesoHbA1c
SemaglutidoGLP-1~15%Elevada
TirzepatidaGLP-1 + GIP~20–22%Muito elevada
DulaglutidoGLP-1~5–8%Moderada

Comparação clínica completa

Ozempic | Wegovy | Rybelsus | Mounjaro | Trulicity

Composição e indicação

MedicamentoSubstânciaIndicação
OzempicSemaglutidoDiabetes tipo 2
WegovySemaglutidoObesidade
RybelsusSemaglutidoDiabetes
MounjaroTirzepatidaDiabetes / obesidade
TrulicityDulaglutidoDiabetes tipo 2

Posologia e forma farmacêutica

MedicamentoDoseViaFrequência
Ozempic0.25–1 mgSCSemanal
Wegovyaté 2.4 mgSCSemanal
Rybelsus3–14 mgOralDiário
Mounjaro2.5–15 mgSCSemanal
Trulicity0.75–4.5 mgSCSemanal

Efeitos adversos

MedicamentoEfeitos principais
OzempicNáuseas
WegovyGI intensos
RybelsusGI moderados
MounjaroGI frequentes
TrulicityNáuseas leves/moderadas

Preço e SNS (Portugal)

MedicamentoPreço (€)SNS
Ozempic90–120Sim
Wegovy250–350Não
Rybelsus100–130Sim
Mounjaro200–300Limitado
Trulicity80–110Sim

Segurança tiroideia

As C-células tiroideias produzem calcitonina⁶. Estudos em roedores demonstraram risco de tumores com agonistas GLP-1⁷, mas em humanos o risco permanece teórico.


Os 12 peptídeos reclassificados (FDA 2026)

Análise dos 12 peptídeos

1. BPC-157 (Body Protection Compound)

Pentadecapeptídeo derivado de proteínas gástricas com propriedades citoprotetoras. Estudos animais sugerem efeitos na cicatrização de tendões, músculo e mucosa gastrointestinal8.

  • Potencial: regeneração tecidular
  • Evidência: predominantemente pré-clínica
  • Via: subcutânea/oral (experimental)
  • Riscos: desconhecidos em humanos

2. TB-500 (Thymosin Beta-4)

Peptídeo envolvido na migração celular e angiogénese. Demonstra potencial em regeneração muscular e cardiovascular9.

  • Potencial: reparação tecidular, angiogénese
  • Evidência: modelos animais
  • Riscos: possível promoção tumoral teórica

3. MOTS-c

Peptídeo mitocondrial associado à regulação metabólica e sensibilidade à insulina10.

  • Potencial: diabetes, obesidade, longevidade
  • Evidência: estudos em roedores + ensaios iniciais humanos
  • Via: subcutânea

4. Semax

Análogo do ACTH com propriedades neuroprotetoras e nootrópicas11.

  • Potencial: AVC, défice cognitivo
  • Evidência: estudos clínicos na Rússia
  • Via: intranasal

5. Selank

Peptídeo ansiolítico derivado da tuftsin12.

  • Potencial: ansiedade, perturbações do humor
  • Evidência: limitada fora de países de Leste
  • Via: intranasal

6. Epitalon

Peptídeo associado à regulação da telomerase e envelhecimento13.

  • Potencial: longevidade
  • Evidência: estudos experimentais
  • Riscos: desconhecidos

7. GHK-Cu

Complexo peptídeo-cobre com efeitos na regeneração cutânea14.

  • Potencial: dermatologia, cicatrização
  • Evidência: razoável em humanos (uso cosmético)

8. CJC-1295

Análogo do GHRH que estimula a hormona de crescimento15.

  • Potencial: sarcopenia
  • Riscos: resistência à insulina, edema

9. Ipamorelin

Agonista seletivo da secreção de GH19.

  • Melhor perfil de efeitos adversos comparado com outros GHRPs

10. Thymalin

Peptídeo imunomodulador derivado do timo20.

  • Potencial: imunossenescência
  • Evidência: limitada

11. Pinealon

Peptídeo neuroprotetor com ação epigenética21.


12. KPV (Lys-Pro-Val)

Peptídeo anti-inflamatório derivado da α-MSH22.

Tabela 1 — Mecanismo, potencial e evidência

PeptídeoMecanismoPotencialEvidência
BPC-157RegeneraçãoLesõesPré-clínica
TB-500AngiogéneseReparaçãoPré-clínica
MOTS-cMetabolismoDiabetesInicial
SemaxNeuroproteçãoAVCModerada
SelankAnsiolíticoAnsiedadeLimitada
EpitalonTelomeraseLongevidadeExperimental
GHK-CuRegeneraçãoPeleModerada
CJC-1295GHSarcopeniaInicial
IpamorelinGHHormonalInicial
ThymalinImuneImunidadeLimitada
PinealonNeuroSNCExperimental
KPVAnti-inflamatórioIntestinalInicial

Tabela 2 — Dose, via e riscos

PeptídeoDose típicaViaRiscos
BPC-157200–500 mcgSCDesconhecidos
TB-5002–5 mgSCTeóricos
MOTS-c5–10 mgSCLimitados
Semax0.1–1 mgIntranasalBaixos
Selank0.25–1 mgIntranasalBaixos
Epitalon5–10 mgSCDesconhecidos
GHK-CuvariávelTópicoBaixos
CJC-12951–2 mgSCEdema
Ipamorelin200–300 mcgSCBaixos
ThymalinvariávelIMLimitados
PinealonvariávelSCDesconhecidos
KPVvariávelOral/SCBaixos

Conclusão

Os peptídeos terapêuticos representam uma transformação estrutural na medicina moderna. O sucesso de Semaglutido, Tirzepatida e Dulaglutido demonstra que esta classe pode redefinir o tratamento das doenças metabólicas.

Contudo, os 12 peptídeos recentemente reclassificados pela Food and Drug Administration permanecem numa fase inicial de desenvolvimento, exigindo validação clínica robusta.

Pontos-chave

  • GLP-1 e GIP revolucionaram o tratamento metabólico
  • Dulaglutido é eficaz, mas menos potente
  • Tirzepatida lidera em eficácia
  • Novos peptídeos ainda não validados
  • Futuro altamente promissor

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Anticoagulantes interações com medicamentos, alimentos e como tratar as dores fortes

Os anticoagulantes e os antiagregantes plaquetários reduziram de forma muito significativa a incidência de acidente vascular cerebral, enfarte do miocárdio, tromboembolismo venoso e trombose associada a doença cardiovascular. No entanto, o seu benefício depende de um equilíbrio delicado ou seja anticoagular pouco aumenta o risco tromboembólico; anticoagular ou antiagregar em excesso aumenta o risco hemorrágico, por vezes com gravidade major ou fatal.1-3

Na prática clínica, uma parte relevante das complicações não resulta do fármaco “em si”, mas de interações com outros medicamentos, fitoterápicos, suplementos, chás, infusões, álcool, alterações dietéticas importantes e automedicação para a dor, sobretudo com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs).2,3

O objetivo deste artigo é explicar, de forma clara mas cientificamente rigorosa, a diferença entre anticoagulantes, antiagregantes plaquetários e antagonistas da vitamina K; identificar as interações mais relevantes com ibuprofeno, diclofenac, naproxeno, etoricoxibe, antibióticos mais prescritos, alimentos e suplementos; propor uma estratégia prática para o tratamento da dor moderada, forte e muito forte em doentes hipocoagulados, minimizando o risco hemorrágico e o risco tromboembólico.1-3

Resumo do artigo

Em termos simples:

  • Anticoagulantes orais diretos (DOACs) como o apixabano e o rivaroxabano, reduzem a formação de fibrina e interferem com a cascata da coagulação.
  • Antiagregantes plaquetários como o clopidogrel, ticagrelor, reduzem a ativação e agregação das plaquetas.
  • Antagonistas da vitamina K, como a varfarina, também são anticoagulantes, mas com perfil de interações muito diferente, sobretudo com alimentos ricos em vitamina K e múltiplos medicamentos.1,2,14

Ao longo do artigo ficará claro que:

  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) sistémicos, como ibuprofeno, diclofenac, nimesulida e naproxeno, são, em geral, a classe mais problemática quando associados a anticoagulantes ou antiagregantes;
  • Macrólidos, especialmente a claritromicina, merecem cautela acrescida com apixabano e rivaroxabano;
  • Erva de São João pode reduzir a eficácia de alguns anticoagulantes;
  • Interações alimentares são muito relevantes com varfarina, mas menos previsíveis e menos fortes com DOACs;
  • Na dor, a opção mais segura costuma começar por paracetamol, evoluindo depois de forma prudente para opioides selecionados quando clinicamente necessário.3,4,11-18

Anticoagulantes, antiagregantes plaquetários e antagonistas da vitamina K: qual é a diferença?

Anticoagulantes orais diretos (DOACs)

Os DOACs mais usados em 2025 e 2026 incluem apixabano e rivaroxabano. São fármacos anticoagulantes, mas não são antiagregantes. O seu alvo principal é a cascata da coagulação, sobretudo o fator Xa no caso do apixabano e do rivaroxabano. São utilizados sobretudo na fibrilhação auricular não valvular, no tratamento e prevenção do tromboembolismo venoso e, em certos contextos, em doentes coronários ou vasculares selecionados.1,2,13

Vantagens dos DOACs

  • Início de ação rápido
  • Dose fixa na maioria das situações
  • Menor necessidade de monitorização laboratorial rotineira
  • Menor risco de hemorragia intracraniana do que a varfarina em muitos cenários clínicos.1,2
  • Não necessita de monitorizar o INR.

Desvantagens dos DOACs

  • Dependência de função renal e, em alguns casos, hepática
  • Interações com fármacos que modulam P-gp e CYP3A4
  • Maior dificuldade em “medir” o efeito anticoagulante de rotina
  • Problemas clínicos se houver má adesão, porque a perda do efeito pode ser relativamente rápida.1-3

Antiagregantes plaquetários

O clopidogrel é um antiagregante plaquetário, não um anticoagulante. Atua sobretudo ao inibir irreversivelmente o recetor P2Y12 nas plaquetas, reduzindo a sua agregação. É muito usado em doentes com síndrome coronária aguda, após angioplastia/stent, e em alguns contextos de prevenção secundária vascular.8,10

Vantagens

  • Fundamental na doença coronária e após stent
  • Forte evidência em prevenção de eventos isquémicos arteriais.10

Desvantagens

  • Risco hemorrágico, sobretudo gastrointestinal
  • Variabilidade de resposta por genética CYP2C19
  • Interações importantes com alguns inibidores da bomba de protões, nomeadamente omeprazol e esomeprazol.8,9

Antagonistas da vitamina K

A varfarina pertence aos antagonistas da vitamina K. Continua a ser muito relevante em certos doentes, sobretudo quando existem indicações específicas ou contextos em que os DOACs não são a melhor opção. Contudo, a varfarina tem um perfil clássico de interação com alimentos ricos em vitamina K, com múltiplos medicamentos e com alterações agudas do estado clínico.2,14,20

Vantagens

  • Grande experiência clínica
  • Pode ser usada em situações em que os DOACs não são adequados
  • Monitorização por INR permite medir a intensidade do efeito.14

Desvantagens

  • Variabilidade interindividual elevada
  • Necessidade de vigilância laboratorial frequente
  • Interações alimentares e medicamentosas muito numerosas.2,14,20

O INR, ou International Normalized Ratio, é um índice utilizado para avaliar a coagulação do sangue. Este exame é fundamental para pacientes que fazem uso de anticoagulantes, como a varfarina, pois permite monitorar a eficácia do tratamento e ajustar as doses de medicação. O INR é um exame que ajuda a identificar problemas na coagulação, avaliar o risco de hemorragia e o funcionamento do fígado. Além disso, é um índice padronizado adotado mundialmente para unificar as análises do tempo de protrombina, que indica a tendência de coagulação do sangue de um paciente.


Tabela 1. Principais classes, exemplos, indicações e pontos críticos

ClasseExemplosIndicações principaisVantagensDesvantagens/interações
Anticoagulantes orais diretos (DOACs)Apixabano, RivaroxabanoFibrilhação auricular, TVP, EPDose fixa, menos monitorização, menos hemorragia intracraniana que varfarina em muitos cenáriosInterações com P-gp/CYP3A4; cautela com antibióticos, antifúngicos, antiepiléticos, fitoterápicos1-3
Antiagregantes plaquetáriosClopidogrel TicagrelorStent, síndrome coronária aguda, prevenção vascularMuito eficazes na prevenção de trombose arterialRisco hemorrágico; interação com omeprazol/esomperazol; variabilidade genética CYP2C198-10
Antagonistas da vitamina KVarfarinaIndicações selecionadas, algumas valvulopatias/próteses valvularesINR permite ajuste finoInterações muito numerosas com alimentos e antibióticos; instabilidade do INR2,14,20

Como acontecem as interações?

As interações importantes dividem-se em dois grandes mecanismos: Farmacocinéticas e farmacodinámicas.2,3

Interações farmacocinéticas

Alteram a absorção, transporte ou metabolização do fármaco. Em apixabano e rivaroxabano, ganham particular importância os moduladores da P-gp e do CYP3A4. Um inibidor pode aumentar a concentração plasmática e o risco de hemorragia; um indutor pode reduzir a concentração e aumentar o risco tromboembólico.2,3,13

Interações farmacodinâmicas

Não alteram necessariamente a concentração do anticoagulante, mas somam efeitos sobre a hemostase. É o que acontece com:

  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
  • Ácido acetilsalicílico
  • Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSRIs) tais como sertralina, fluoxetina, paroxetina, escitalopram e citalopram
  • Antidepressivos Inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina (SNRIs) tais como venlafaxina e duloxetina
  • Fitoterápicos com potencial antiagregante.2,3,11

Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): o maior problema evitável

Os AINEs são uma das associações mais perigosas e mais frequentes. Isto aplica-se tanto a doentes sob anticoagulação como a doentes sob antiagregação, e o risco pode ser ainda maior quando coexistem idade avançada, história de úlcera, insuficiência renal, uso de corticoides, álcool ou polimedicação.6,7,15,19

Porque são problemáticos?

Os AINEs:

  • Lesam a mucosa gastrointestinal;
  • Reduzem a síntese de prostaglandinas protetoras;
  • Alguns interferem adicionalmente com a função plaquetária;
  • Combinados com anticoagulantes/antiagregantes, aumentam o risco hemorrágico por soma farmacodinâmica.2,6,7

A meta-análise mais recente disponível identificou aumento significativo do risco de hemorragia quando AINEs são coadministrados com anticoagulantes orais.6 O grande estudo dinamarquês em doentes com fibrilhação auricular sob anticoagulação observou risco hemorrágico hospitalar quase duplicado com uso concomitante de AINEs.7

Tabela 2. AINEs frequentes e risco relativo em doentes hipocoagulados

FármacoComentário prático
IbuprofenoEntre os AINEs não seletivos, tende a apresentar risco gastrointestinal relativamente menor do que alguns outros, mas continua a ser clinicamente problemático com anticoagulantes/antiagregantes.19
DiclofenacAINE eficaz, mas com risco hemorrágico e gastrointestinal relevante; não deve ser encarado como “seguro” em doente anticoagulado.6,7
NaproxenoMuito usado, mas o risco de hemorragia gastrointestinal é relevante e a associação com antitrombóticos deve ser evitada sempre que possível.6,7
EtoricoxibeOs seletivos COX-2 podem reduzir parte do risco gastrointestinal comparativamente com alguns AINEs não seletivos, mas não anulam o risco hemorrágico global em doentes sob anticoagulação/antiagregação.15,19
CetorolacParticularmente desfavorável em termos hemorrágicos; deve ser evitado em associação com anticoagulantes e antiagregantes.19

Conclusão prática sobre AINEs

Em doentes a tomar apixabano, rivaroxabano ou clopidogrel, a regra geral deve ser evitar AINEs sistémicos, salvo exceções clínicas muito justificadas e por períodos tão curtos quanto possível, com avaliação do risco gastrointestinal e hemorrágico.3,6,7,15


Antibióticos quais preocupam mais?

Claritromicina

A claritromicina é a associação antibiótica que mais justifica cautela com apixabano e rivaroxabano. Trata-se de um inibidor importante do CYP3A4 e da P-gp, podendo aumentar a exposição ao fármaco. Um grande estudo populacional em idosos sob DOAC mostrou que a coadministração com claritromicina se associou a uma taxa de hemorragia major superior à observada com azitromicina.4

Azitromicina

A azitromicina é, em geral, menos problemática do que a claritromicina do ponto de vista de interação com DOACs. Isso não significa risco nulo, mas o perfil é globalmente mais favorável.4,5

Ciprofloxacina

A ciprofloxacina merece prudência. A evidência é menos robusta do que para claritromicina, mas há dados observacionais e farmacológicos que justificam vigilância, sobretudo em idosos, em doentes frágeis, polimedicados ou com insuficiência renal.3,5

Amoxicilina e amoxicilina/ácido clavulânico

Com apixabano e rivaroxabano, estas combinações não figuram entre as interações farmacocinéticas major clássicas. Na prática, costumam ser opções mais simples do que claritromicina. Ainda assim, em doentes frágeis, o contexto clínico importa: diarreia, desidratação, alteração renal ou hepática, e polimedicação podem modificar o risco global.3 Com varfarina, a história é diferente: vários antibióticos, incluindo penicilinas em determinados contextos, podem descompensar o INR.20

Tabela 3. Antibióticos frequentes e impacto prático

AntibióticoApixabano/RivaroxabanoClopidogrelVarfarina
AmoxicilinaSem interação major clássica conhecida; vigiar contexto clínicoSem interação major clássicaPode alterar INR em alguns doentes3,20
Amoxicilina + ácido clavulânicoSem interação major clássica conhecida; vigiar contexto clínicoSem interação major clássicaPode alterar INR em alguns doentes3,20
AzitromicinaGeralmente preferível à claritromicina quando clinicamente adequadaGeralmente sem grande problemaPode exigir vigilância em doentes selecionado4,5,20
ClaritromicinaEvitar ou vigiar muito de pertoPode aumentar risco hemorrágico por contexto terapêutico globalPode interagir e aumentar instabilidade anticoagulante3,4,20
CiprofloxacinaPrudência e vigilância, sobretudo em idosos/polimedicadosSem interação clássica major, mas atenção ao doente globalPode alterar INR3,5,20

Clopidogrel interações importantes

Quando se fala em clopidogrel, o foco excessivo nos alimentos pode fazer esquecer duas interações clinicamente mais relevantes como os inibidores da bomba de protões (IBP) como o omeprazol e esomeprazol mas também com os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs).

Omeprazol e esomeprazol

A orientação prática do Specialist Pharmacy Service é clara: evitar a combinação de clopidogrel com omeprazol ou esomeprazol devido à inibição do CYP2C19, que pode reduzir a ativação do clopidogrel e, portanto, a sua eficácia antiagregante.9

Genética CYP2C19

Alguns doentes são metabolizadores intermédios ou pobres e podem responder pior ao clopidogrel. Isso é particularmente relevante em contexto coronário e de stent. O guideline CPIC reforça esta dimensão farmacogenética.8

AINEs e dupla agressão hemorrágica

Com clopidogrel, os AINEs aumentam o risco hemorrágico por dupla via: agravam a lesão gastrointestinal e, em alguns casos, somam interferência sobre a hemostase. Isto é particularmente importante quando o clopidogrel é usado com aspirina ou quando o doente tem historial gastrointestinal.10


Ticagrelor

O Ticagrelor é um antiagregante plaquetário pertencente à classe dos inibidores do recetor P2Y12, tal como o clopidogrel. No entanto, apresenta diferenças farmacológicas importantes que têm implicações clínicas relevantes. O ticagrelor é um antiagregante plaquetário de ação direta e reversível, que inibe o recetor P2Y12 nas plaquetas, impedindo a sua ativação e agregação.

Ao contrário do clopidogrel:

  • não necessita de ativação hepática (não é pró-fármaco)
  • tem início de ação mais rápido
  • apresenta efeito mais potente e consistente entre doentes 1,2

É amplamente utilizado em:

  • síndrome coronária aguda (SCA)
  • após angioplastia com colocação de stent
  • prevenção secundária de eventos cardiovasculares de alto risco1

Vantagens do ticagrelor

  • Maior eficácia na redução de eventos cardiovasculares (enfarte, morte cardiovascular) comparativamente ao clopidogrel em vários estudos, incluindo o ensaio PLATO1
  • Menor variabilidade interindividual (não dependente do CYP2C19)
  • Início de ação rápido (vantajoso em contexto agudo)
  • Inibição plaquetária mais previsível

Desvantagens e efeitos adversos

  • Maior risco de hemorragia não relacionada com cirurgia comparativamente ao clopidogrel<sup>1</sup>
  • Dispneia (efeito adverso relativamente frequente, geralmente ligeiro a moderado)
  • Bradicardia em alguns doentes
  • Necessidade de administração 2 vezes por dia, o que pode comprometer a adesão
  • Custo superior

Interações medicamentosas relevantes

O ticagrelor é metabolizado principalmente pelo CYP3A4, o que o torna suscetível a interações importantes.

Fármacos que aumentam o risco hemorrágico

  • Anticoagulantes (ex: Apixabano, Rivaroxabano)
  • AINEs (ex: Ibuprofeno, Naproxeno)
  • Outros antiagregantes

👉 Efeito: aumento significativo do risco de hemorragia (interação farmacodinâmica)2,3


Inibidores fortes do CYP3A4 (evitar)

  • Claritromicina
  • Antifúngicos azóis (ex: cetoconazol)

👉 Efeito: aumento dos níveis de ticagrelor → ↑ risco hemorrágico2


Indutores do CYP3A4 (evitar)

  • Rifampicina
  • Carbamazepina
  • Erva de São João

👉 Efeito: redução da eficácia → ↑ risco trombótico<sup>2,4</sup>


Interações com alimentos e hábitos

  • Toranja (grapefruit): pode aumentar níveis do ticagrelor (inibição CYP3A4)
  • Álcool: aumenta risco hemorrágico global
  • Não apresenta interação relevante com vitamina K (ao contrário da varfarina)

Ticagrelor vs clopidogrel: comparação prática

CaracterísticaTicagrelorClopidogrel
TipoAntiagregante diretoPró-fármaco
Ativação hepáticaNãoSim (CYP2C19)
Início de açãoRápidoMais lento
VariabilidadeBaixaElevada
EficáciaSuperior em SCABoa
Risco hemorrágicoMaiorMenor
Posologia2x/dia1x/dia

Integração clínica no contexto do artigo

No contexto global deste artigo, o ticagrelor deve ser entendido como:

  • Um antiagregante potente, frequentemente usado em associação com aspirina
  • Um fármaco com risco hemorrágico relevante, especialmente quando combinado com anticoagulantes ou AINEs
  • Um medicamento com interações metabólicas importantes (CYP3A4), ao contrário do clopidogrel (CYP2C19)

👉 Em doentes a tomar ticagrelor:

  • evitar AINEs sempre que possível
  • privilegiar paracetamol para dor
  • avaliar cuidadosamente antibióticos como claritromicina
  • ter atenção a suplementos e fitoterápicos

Referências científicas sobre ticagrelor
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Alimentos, infusões, chás e suplementos e risco hemorrágico

Aqui importa ser rigoroso. A evidência sobre alimentos e plantas é muito mais forte para varfarina do que para DOACs ou clopidogrel. Para muitos suplementos, a evidência baseia-se em séries de casos, plausibilidade biológica, estudos pequenos ou relatos perioperatórios, e não em grandes ensaios clínicos.11,12

Podem aumentar o risco hemorrágico

  • Ginkgo biloba
  • Alho em suplemento ou em doses elevadas
  • Gengibre em doses elevadas/suplementação
  • Camomila em alguns contextos
  • Curcuma em suplementação
  • Álcool em excesso
  • Associação de múltiplos produtos “naturais” com efeito antiagregante presumido.11,12

Tabela 4. Produtos com potencial para aumentar hemorragia

ProdutoComentário
Ginkgo bilobaSinal recorrente de risco hemorrágico, sobretudo quando combinado com anticoagulantes/antiagregantes.11
Alho (suplementos/doses elevadas)Dados sugerem potencial antiagregante; maior prudência em forma de suplemento do que em uso culinário normal.11
Gengibre (suplementos/doses elevadas)Evidência menos sólida, mas plausibilidade biológica e alguns sinais clínicos justificam prudência.11,12
CamomilaPossíveis interações descritas, sobretudo com anticoagulação; evidência não é de topo, mas merece cautela.12
Curcuma (turmeric)Possível efeito sobre hemostase; prudência em suplementos concentrados.11,12
ÁlcoolAumenta risco hemorrágico e favorece quedas/trauma; o excesso é particularmente problemático.14

O que pode diminuir a eficácia e aumentar o risco tromboembólico?

Erva de São João (Hypericum perforatum)

Esta é uma das interações fitoterápicas mais importantes e mais credíveis. A erva de São João pode induzir CYP3A4 e P-gp, reduzindo a exposição a apixabano e rivaroxabano, e aumentando o risco de subanticoagulação.2,12,13,21

Rifampicina, carbamazepina, fenitoína e outros indutores enzimáticos

Embora não sejam alimentos, são exemplos clássicos de substâncias que podem reduzir a eficácia dos DOACs. Clinicamente, são mais relevantes do que a maioria dos alimentos.2,3,13

Alimentos ricos em vitamina K (sobretudo com varfarina)

No caso da varfarina, a mensagem correta não é “proibir couves, espinafres ou brócolos”, mas sim manter uma ingestão consistente. Grandes oscilações na ingestão de vitamina K podem tornar o INR instável e reduzir ou aumentar o efeito anticoagulante.14

Tabela 5. Fatores que podem reduzir eficácia antitrombótica

FatorMais relevante emEfeito esperado
Erva de São JoãoApixabano, RivaroxabanoRedução do efeito anticoagulante; maior risco tromboembólico12,13,21
RifampicinaDOACsRedução do efeito anticoagulante2,3,13
Carbamazepina/fenitoínaDOACsRedução do efeito anticoagulante2,3,13
Alterações bruscas de dieta ricas em vitamina KVarfarinaMenor INR/menor efeito anticoagulante14
Omeprazol/esomeprazolClopidogrelMenor ativação do clopidogrel; potencial menor eficácia9

Os alimentos mais ricos em vitamina K são sobretudo os vegetais de folha verde escura. A NIH Office of Dietary Supplements refere que as principais fontes alimentares de vitamina K1 são precisamente os vegetais verdes, alguns óleos vegetais e, em menor grau, certos frutos; já a vitamina K2 aparece mais em alimentos fermentados e alguns produtos de origem animal.

Para quem toma varfarina, o ponto mais importante não é “proibir” estes alimentos, mas sim manter uma ingestão relativamente constante de vitamina K ao longo da semana, porque aumentos ou reduções bruscas podem alterar o INR e o efeito anticoagulante.

Tabela 6: alimentos muito ricos em vitamina K

Valores aproximados, com base em tabelas nutricionais do USDA compiladas em materiais clínicos da VA e da USDA/NAL. Os valores podem variar com a variedade, porção e método de confeção.

AlimentoPorçãoVitamina K (aprox.)
Folhas de mostarda, cozidas1/2 chávena415 µg
Folhas de beterraba, cozidas1/2 chávena350 µg
Natto (soja fermentada)100 gmuito elevado
Couve (kale), cozida1/2 chávena247 µg
Espinafres, cozidos1/2 chávena~220–240 µg
Couve-galega (collard greens), cozida1/2 chávena~220 µg
Brócolos, cozidos1 chávena162 µg
Couve-de-bruxelas, crua1 chávena156 µg
Espargos, cozidos1 chávena144 µg
Espinafres, crus1 chávena145 µg
Alface romana1 chávenavalor elevado, mas abaixo dos vegetais acima
Salsa frescapequena porção culináriamuito concentrada por grama
Fontes bibliográficas da tabela
  1. NIH Office of Dietary Supplements / LOINC summary on vitamin K food sources: vegetais de folha verde, óleos vegetais, alguns frutos; natto como fonte muito rica de menaquinonas.
  2. USDA / National Agricultural Library, tabela de vitamina K em alimentos.
  3. U.S. Department of Veterans Affairs, “Vitamin K Content of Foods”, com valores alimentares baseados em USDA FoodData Central.
  4. NHS/CUH/UHCW, recomendações dietéticas para doentes a tomar varfarina, com ênfase na consistência da ingestão.

Em termos práticos, os alimentos mais relevantes são

  • espinafres
  • couve kale
  • couve-galega e outras couves de folha
  • folhas de mostarda
  • folhas de beterraba
  • brócolos
  • couve-de-bruxelas
  • espargos
  • salsa
  • natto (menos comum em Portugal, mas extremamente rico em vitamina K2)

Nota importante se estiver a tomar varfarina

Não é necessário eliminar estes alimentos. O mais seguro é:

  • comer quantidades semelhantes de semana para semana
  • evitar mudanças bruscas, como passar de quase não comer vegetais verdes para comer grandes quantidades diariamente
  • avisar o médico ou farmacêutico antes de iniciar dietas, suplementos verdes, detoxes ou grandes alterações alimentares.

Toranja (grapefruit)

A toranja é um inibidor conhecido de CYP3A4 intestinal e pode aumentar a exposição a vários medicamentos. Em anticoagulantes, a relevância clínica é mais plausível para fármacos dependentes desta via, como apixabano e rivaroxabano, embora a robustez da evidência clínica seja muito inferior à que existe para interações medicamentosas clássicas como claritromicina ou rifampicina.2,12

A orientação mais prudente para o leitor geral é: evitar consumo elevado e regular de toranja/sumo de toranja sem aconselhamento profissional, especialmente se já existir polimedicação cardiovascular.2


Tratar a dor em doentes hipocoagulados

Num doente a tomar apixabano, rivaroxabano, clopidogrel, ticagrelor ou varfarina, a dor deve ser tratada de forma escalonada, mas com uma regra central: evitar AINEs sistémicos sempre que possível.3,6,7,15

Antes de tratar a dor, avaliar

  • Local da dor;
  • Causa provável;
  • Duração;
  • Febre, trauma, hematoma, sangue nas fezes, urina escura ou vómitos com sangue;
  • Função renal e hepática;
  • Idade;
  • Outras terapêuticas (aspirina, SSRI, corticoides, álcool, anti-hipertensores).1-3

Dor ligeira a moderada: primeira escolha

Paracetamol

  • Adultos: 500 mg a 1.000 mg por toma
  • Intervalo habitual: de 4 em 4 a 6 em 6 horas
  • Máximo habitual em adultos: 4 g/dia
  • Em idosos frágeis, baixo peso, hepatopatia, alcoolismo crónico ou outras situações de risco, a dose máxima deve ser mais conservadora.15

Porque é a opção de primeira linha?
Porque não aumenta o risco hemorrágico como os AINEs e, em uso habitual e prudente, é a opção analgésica mais segura no contexto de anticoagulação/antiagregação.3,15

Dor moderada não controlada com paracetamol

Tramadol

  • Formulações imediatas: habitualmente 50 mg por toma, podendo em contexto clínico selecionado usar-se 50 a 100 mg
  • Repetição: geralmente de 4/4 h a 6/6 h
  • Dose máxima habitual: 400 mg/dia em adultos apropriados, sendo necessária prudência em idosos e insuficiência renal/hepática.16

Pode ser uma opção útil quando se pretende evitar AINEs, mas não é um fármaco “inocente”: pode causar náuseas, tonturas, sedação, quedas, confusão e interações serotoninérgicas.16

Combinação paracetamol + tramadol
É uma estratégia frequente para dor moderada a forte, desde que prescrita com prudência e ajustada ao doente.

Dor forte

Morfina oral
A morfina é uma opção clássica para dor forte quando os AINEs devem ser evitados. A dose depende muito do contexto, do doente e da experiência prévia com opioides. Em prática clínica, podem usar-se formulações de libertação imediata em pequenas doses iniciais e ajustar conforme resposta, sempre com supervisão médica.17

Dor muito forte ou dor oncológica / refratária

Oxicodona
É uma opção importante para dor forte a muito forte, com formulações de ação imediata e prolongada. As formulações imediatas costumam existir em 5 mg, 10 mg e 20 mg, tomadas várias vezes por dia, e a titulação deve ser médica.18

Nestes quadros, o objetivo deixa de ser apenas “dar um analgésico” e passa a ser:

  • controlar a dor com menor risco hemorrágico possível;
  • reduzir sedação excessiva;
  • prevenir obstipação, quedas e depressão respiratória;
  • tratar a causa da dor, se possível.

Dor localizada músculo-esquelética

Sempre que possível, privilegiar:

  • medidas não farmacológicas;
  • gelo/calor consoante o caso;
  • fisioterapia;
  • repouso relativo;
  • avaliação médica quando a dor é persistente.

Os AINEs tópicos podem ter absorção sistémica muito inferior à dos orais, mas isso não significa risco zero em doentes anticoagulados. Em automedicação, devem ser usados com prudência e preferencialmente após aconselhamento profissional.15


Tabela 7. Estratégia prática para controlo da dor em doentes a tomar anticoagulantes ou antiagregantes

Intensidade da dorOpção preferívelDose habitual do adultoComentário
LigeiraParacetamol500 mg a 1.000 mg por toma, 4/4 a 6/6 h; máximo habitual 4 g/dia15Primeira escolha
ModeradaParacetamol ± TramadolTramadol 50 mg por toma; em casos selecionados 50–100 mg; máximo habitual 400 mg/dia16Evitar em doentes com maior risco de quedas/confusão sem avaliação
ForteOpioide sob prescriçãoAjuste individual; morfina oral com titulação clínica17Necessita supervisão médica
Muito forte/refratáriaOpioide forte / equipa de dorOxicodona em formulações imediatas ou prolongadas com ajuste médico18Dor complexa exige abordagem especializada
Qualquer intensidadeEvitar AINE oral se possívelIbuprofeno, diclofenac, naproxeno e semelhantes aumentam risco hemorrágico6,7,15

Procurar ajuda rapidamente se surgir:

  • sangramento nasal persistente;
  • urina com sangue;
  • fezes negras;
  • vómitos com sangue;
  • hematomas extensos sem explicação;
  • dor de cabeça nova e intensa;
  • queda com traumatismo craniano;
  • falta de ar ou dor torácica;
  • dor/inchaço unilateral numa perna.1,3

Antes de iniciar qualquer novo produto, confirmar:

  • é AINE ou não?
  • é antibiótico?
  • é suplemento “natural”?
  • é chá/infusão tomado todos os dias?
  • é omeprazol/esomeprazol em doente a tomar clopidogrel?
  • existe alteração renal, hepática ou idade avançada?3,9,11

Conclusão

Os anticoagulantes e os antiagregantes plaquetários salvam vidas, mas exigem rigor. Entre as interações mais importantes na prática diária destacam-se os AINEs sistémicos, os macrólidos, alguns indutores/inibidores enzimáticos e determinados fitoterápicos, em especial a erva de São João. Com varfarina, a alimentação rica em vitamina K continua a ser um ponto essencial; com clopidogrel, as interações com omeprazol e esomeprazol não devem ser esquecidas.2,3,8,9,14

Na dor, a estratégia mais segura passa, em regra, por paracetamol como primeira linha, reservando tramadol e, quando necessário, opioides mais fortes para contextos bem avaliados, evitando AINEs sempre que possível. Em doentes hipocoagulados, tratar a dor “como em qualquer outra pessoa” é um erro frequente — e potencialmente perigoso.6,7,15-18


Referências bibliográficas

  1. 2024 ESC Guidelines for the Management of Atrial Fibrillation Developed in Collaboration With EACTS
  2. Drug Interactions Affecting Oral Anticoagulant Use
  3. Managing Interactions With Direct Oral Anticoagulants (DOACs)
  4. Clarithromycin vs Azithromycin and Risk of Hemorrhage in Older Adults Taking Direct Oral Anticoagulants
  5. Bleeding Events Among Patients Concomitantly Treated With Direct Oral Anticoagulants and Macrolide or Fluoroquinolone Antibiotics
  6. Co-administered Oral Anticoagulants With Nonsteroidal Anti-inflammatory Drugs and the Risk of Bleeding: A Systematic Review and Meta-analysis
  7. Bleeding Risk Using Non-steroidal Anti-inflammatory Drugs With Anticoagulants After Atrial Fibrillation Diagnosis: A Nationwide Cohort Study
  8. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) Guideline for CYP2C19 Genotype and Clopidogrel Therapy
  9. Using Clopidogrel With Proton Pump Inhibitors (PPIs)
  10. Canadian Cardiovascular Society/Canadian Association of Interventional Cardiology Guidelines on Antiplatelet Therapy
  11. Dietary Supplements and Bleeding
  12. Pharmacokinetic and Pharmacodynamic Interactions Between Oral Anticoagulants and Food, Herbs, and Supplements
  13. Eliquis, INN-apixaban: European Medicines Agency Product Information
  14. Warfarin: NHS Medicines Information
  15. Paracetamol for Adults: NHS Medicines Information
  16. How and When to Take Tramadol: NHS Medicines Information
  17. Morphine: NHS Medicines Information
  18. How and When to Take Oxycodone: NHS Medicines Information
  19. Nonsteroidal Anti-Inflammatory Drugs and Risk of Gastrointestinal Bleeding: A Systematic Review and Meta-Analysis
  20. Warfarin and Antibiotics: Drug Interactions and Clinical Considerations
  21. Effects of Hypericum perforatum (St John’s Wort) on the Pharmacokinetics and Pharmacodynamics of Rivaroxaban in Humans

Autor: Dr. Franklim Moura Fernandes
Farmacêutico Comunitário
melhorsaude.org