Menopausa tratamento não hormonal

Menopausa e terapêuticas não hormonais

A menopausa, definida retrospetivamente como a inexistência de menstruação nos 12 meses prévios,1 é frequentemente acompanhada pela ocorrência de sintomas vasomotores (SVM), conhecidos como afrontamentos suores noturnos.1-5 Manifestam-se como uma súbita sensação de calor localizada na zona superior do peito e na face, que rapidamente se generaliza e que dura habitualmente entre 2-4 minutos, frequentemente associada a sudação profusa e por vezes seguida de arrepios e tremores. Quando ocorrem durante a noite podem perturbar o sono de modo significativo, sendo mais frequentes durante as primeiras horas de sono.2

Resumo rápido

  • Os afrontamentos e suores noturnos afetam até 80% das mulheres durante a menopausa.
  • A terapêutica hormonal de substituição (THS) continua a ser a opção mais eficaz para aliviar os sintomas vasomotores.
  • Quando a THS está contraindicada ou não é desejada, existem alternativas não hormonais com benefício clínico relevante.
  • Os ISRS/IRSN e o fezolinetant são atualmente as opções não hormonais com melhor evidência científica.
  • A escolha do tratamento deve ser individualizada, considerando sintomas, doenças associadas, medicamentos em uso e preferências da mulher.

Conteúdo baseado em artigo elaborado e publicado pela Ordem dos Farmacêuticos

Os SVM são os sintomas mais comuns da menopausa e ocorrem em até 80% das mulheres,1-5 podendo impactar significativamente a sua qualidade de vida,1-4 produtividade5 e inclusive a sua saúde geral,2,4,5 pois têm sido associados a aumento do risco cardiovascular e diminuição da densidade mineral óssea.1,4,5 Persistem habitualmente entre sete e dez anos.1,3,5

terapêutica hormonal de substituição (THS) permanece a abordagem terapêutica mais efetiva. Porém, algumas mulheres podem recusá-la ou ter contraindicações ao seu uso,1-4 tal como antecedentes de cancro sensível aos estrogénios, como o cancro da mama, historial de doença coronária, acidente vascular cerebral, tromboembolismo venoso2-4 ou elevado risco genético de doença tromboembólica,3,4 entre outros. As mulheres com cancro da mama são particularmente impactadas pelos SVM, pois são um possível efeito colateral de muitas das abordagens terapêuticas.2

Em mulheres que não são candidatas à THS, é importante considerar alternativas farmacológicas não hormonais1-4 que, apesar de não serem tão eficazes, podem ainda assim ser muito úteis no alívio dos SVM.1,4

As abordagens terapêuticas não hormonais que têm sido investigadas para alívio dos SVM incluem os inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), os inibidores de recaptação da serotonina e noradrenalina (IRSN), o fezolinetant, a gabapentina, a pregabalina, a oxibutinina e a clonidina.1-6

Menopausa tratamento não hormonal
Menopausa tratamento não hormonal

Terapêuticas não hormonais

FármacoBenefícioVantagemLimitação
ISRS/IRSN↓ afrontamentosAjuda ansiedadeNáuseas
Fezolinetant↓ SVM intensosMelhora sonoVigiar fígado
Gabapentina↓ SVM noturnosAjuda dormirSonolência
Oxibutinina↓ frequência SVMÚtil na bexigaRisco cognitivo

ISRS/IRSN

Existe evidência de que os ISRS/IRSN estão associados a melhoria ligeira a moderada dos sintomas vasomotores.1-5 Alguns fármacos destes grupos demostraram, em ensaios controlados por placebo, constituírem a alternativa farmacológica mais efetiva à THS.2 Podem igualmente ser úteis no tratamento de condições coexistentes, como depressão ou ansiedade,4,5 ou nas perturbações do sono.5 As doses que proporcionam controlo dos SVM são tipicamente inferiores às necessárias para o tratamento de alterações do humor,4,5 o que pode favorecer a sua tolerabilidade,5 pois os seus efeitos adversos mais significativos estão relacionados com a dose.4,6 

Apesar de não existirem estudos que realizem comparações diretas, ensaios controlados, aleatorizados e com dupla ocultação indicam que os fármacos mais eficazes são a paroxetina, o citalopram, o escitalopram, a venlafaxina1-6 e a desvenlafaxina.1-5 A paroxetina é o fármaco para o qual existe maior evidência de benefício,6 estando inclusivamente aprovada em alguns países para esta indicação.1,6 

No que concerne a outros ISRS, a fluoxetina e a sertralina não demostraram benefícios consistentes,1,2,4 pelo que não estão recomendadas.1-5 Quanto a IRSN, a duloxetina também mostrou efetividade,3-5 mas a evidência é inferior.2,4 

Caso um ISRS/IRSN não se mostre eficaz, pode ser tentado outro antes de avançar para outra classe farmacológica.2 É importante ter presente que a paroxetina inibe a atividade da isoenzima CYP2D6, responsável pela conversão do tamoxifeno ao seu metabolito ativo, com o potencial de reduzir a sua efetividade.1-4

Consequentemente, a paroxetina não deve ser utilizada em mulheres tratadas com tamoxifeno.2,4-6 Escolhas seguras nestas mulheres incluem a venlafaxina,1,3,5,6 a desvenlafaxina, o escitalopram ou o citalopram.1,3,5 

Entre os seus efeitos adversos mais significativos incluem-se as náuseas,3,4,6 que tipicamente melhoram no intervalo de 1-2 semanas.3 Podem ser mitigadas pela toma com alimentos,6 ou, no caso da venlafaxina, pelo uso de uma formulação de libertação controlada.2,6 Estão também associados a secura bucal, obstipação1,6 e a disfunção sexual.4-6 É importante informar as mulheres que sintomas frequentemente associados à menopausa, como cefaleias ou perturbações do sono, podem ser efeitos adversos dos ISRS/IRSN.4 

ISRS/IRSN mais usados

FármacoEvidênciaVantagemNota
ParoxetinaMuito elevadaMuito eficazEvitar tamoxifeno
EscitalopramElevadaBem toleradoSeguro
CitalopramElevadaPoucas interaçõesBoa opção
VenlafaxinaElevadaÚtil no cancro mamaPode causar náuseas

Fezolinetant

É um antagonista seletivo do recetor da neurocinina 3, aprovado para o tratamento dos sintomas vasomotores da menopausa.1-6  Demonstrou efeitos benéficos comparativamente ao placebo até 12 semanas de utilização,1-4 reduzindo a frequência e gravidade de SVM moderados a intensos.1,4 Mostrou ainda produzir melhorias clinicamente significativas no sono.2,4,5 Os seus principais efeitos adversos incluem diarreia, náuseas, cefaleias, 4,5 sonolência,5 alterações gastrointestinais 4 e elevações das transaminases.2,4,5 

Gabapentinoides

gabapentina e a pregabalina têm vindo a ser propostas para alívio dos SVM.1,6 Esta mostrou benefício face ao placebo num ensaio de curta duração.3 Contudo, a evidência atual é insuficiente para recomendar o seu uso.1-3
 

A gabapentina demonstrou melhorar a frequência e gravidade dos SVM em diversos estudos,1-5 mas de curta duração. 6 Os seus efeitos adversos estão relacionados com a dose e podem comprometer a adesão.6 Os mais frequentes são sonolência, tonturas,1,3-6 desequilíbrios,1,3-5 cefaleias,4,5 edema, náuseas,1,4 aumento de peso 4-6 e secura bucal.1,6 Têm o potencial de causar dependência 6 e deve ser usada na menor dose eficaz.4 Devido à sonolência que induz, a toma ao deitar pode constituir uma opção favorável em mulheres com SVM predominantemente noturnos,2-5 ao contribuir para melhorar o sono,1,2,5 minimizando os efeitos adversos diurnos.2,3

Oxibutinina

É um fármaco anticolinérgico utilizado no tratamento da bexiga hiperativa1-6 e da urgência urinária.1,4,5 Alguns estudos mostraram que proporciona uma redução significativa da frequência de SVM.1-6 Pode ser útil em mulheres com condições urinarias concomitantes,4,5 o que é frequente durante a menopausa.4 Porém, o seu uso pode não ser adequado em pessoas mais velhas, pela associação entre o uso prolongado de anticolinérgicos e declínio cognitivo.1-4 

Os seus efeitos adversos são dependentes da dose1,3 e os mais comuns são secura bucal1-6 e ocular, náuseas, alterações gastrointestinais,1,4,6 dificuldades urinárias,1,3-5 cefaleias1,6 e alterações da visão.1,4 

Efeitos adversos principais

FármacoEfeitosDose-dependenteDica
ISRS/IRSNNáuseasSimTomar com comida
FezolinetantCefaleiasParcialVigiar transaminases
GabapentinaTonturasSimTomar à noite
OxibutininaBoca secaSimCautela idosos

Clonidina

É um agonista adrenérgico α-2 de ação central, aprovado para esta indicação em alguns países, mas com evidência discordante.6  Demostrou benefício modesto face ao placebo,2-4 mas inferior ao proporcionado pelos ISRS, ISRN e pela gabapentina na redução dos SVM.3,4 Devido ao seu perfil de efeitos adversos e à existência de alternativas mais efetivas, o seu uso não é atualmente recomendado.2-4 

Menos recomendados

TerapêuticaEvidênciaProblemaEstado
ClonidinaModestaMuitos EANão recomendada
PregabalinaFracaPoucos estudosUso limitado
SuplementosInconsistenteSegurança incertaNão recomendados
Plantas medicinaisInsuficienteInteraçõesEvitar cautela

Outras abordagens terapêuticas

terapia cognitiva comportamental pode ser útil no alívio dos SVM2-4,6 ao alterar a sua perceção;4 parece mais eficaz para a insónia. Outras terapêuticas alternativas ou técnicas de autoajuda estão ainda insuficientemente estudadas ou não mostraram benefício.2 

A evidência atual acerca da eficácia e segurança de suplementos alimentares e produtos à base de plantas para alívio de SVM na menopausa é insuficiente para recomendar o seu uso,1-4 uma vez que muitos dos estudos têm falhas metodológicas, desenhos inadequados,4 pequena dimensão e curta duração.2 Os dados de segurança em mulheres com história de cancro da mama são inconsistentes, pelo que o seu uso deve ser evitado. Adicionalmente, alguns produtos acarretam risco de interação com o tamoxifeno.6 

seleção do tratamento deve ser individualizada em função das necessidades e preferências da mulher.4 A escolha do fármaco depende do padrão dos SVM, de estar ou não a tomar tamoxifeno,2 do risco de exacerbar outros sintomas da menopausa,4 ou da presença concomitante de alterações do humor2,5,6 ou do sono.2,5 

As terapêuticas farmacológicas para alívio dos SVM permanecem subutilizadas. É importante que o farmacêutico conheça as diferentes opções disponíveis, contribuindo, desta forma, para informar e melhorar o acesso das mulheres aos melhores cuidados.1 

Escolha conforme perfil

SituaçãoMelhor opçãoMotivo
AnsiedadeISRS/IRSNDuplo benefício
InsóniaGabapentinaMelhora sono
TamoxifenoVenlafaxinaMenos interação
Sintomas urináriosOxibutininaBenefício urinário

Referências bibliográficas:

1. Carson E, Vernon V, Cunningham L, Mathew S. Cooling the flames: Navigating menopausal vasomotor symptoms with nonhormone medications. Am J Health Syst Pharm. 2025 Apr 16;82(7):e332-e344. doi: 10.1093/ajhp/zxae254. 

2. Casper RF. Menopausal hot flashes. UpToDate®, topic last updated: Jan 06, 2026.

3. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023 Jun 1;30(6):573-590. doi: 10.1097/GME.0000000000002200. 

4. Iyer TK, Fiffick AN, Batur P. Nonhormone therapies for vasomotor symptom management. Cleve Clin J Med. 2024 Apr 1;91(4):237-244. doi: 10.3949/ccjm.91a.23067. 

5. Kling JM, Stuenkel CA, Faubion SS. Management of the Vasomotor Symptoms of Menopause: Twofers in Your Clinical Toolbox. Mayo Clin Proc. 2024 Jul;99(7):1142-1148. doi: 10.1016/j.mayocp.2024.03.028. 

6. British Menopause Society (BMS) Consensus Statement. Non-hormonal-based treatments for menopausal symptoms. Reviewed: November 2025 [acedido a 20-04-2026]. British Menopause Society. Disponível em: https://thebms.org.uk/wp-content/uploads/2025/11/04-BMS-ConsensusStatement-Non-hormonal-based-treatments-for-menopausal-symptoms-NOV2025-C.pdf