Doença de Behçet e infliximab

Doença de Behçet e introdução de Infliximab: vantagens, riscos e cuidados essenciais

A Doença de Behçet é uma doença inflamatória rara, crónica e potencialmente grave, caracterizada por inflamação dos vasos sanguíneos de diferentes calibres e localizações. Pode afetar múltiplos órgãos, incluindo pele, olhos, articulações, sistema nervoso, trato gastrointestinal e vasos sanguíneos arteriais e venosos.¹

Embora muitos doentes apresentem formas relativamente controláveis da doença, alguns evoluem para manifestações graves e resistentes ao tratamento convencional. Nestes casos, os medicamentos biológicos, como o Infliximab, revolucionaram o prognóstico da doença, especialmente em situações de envolvimento ocular, neurológico ou vascular severo.²

Uma situação clínica relativamente frequente na prática médica é a doente com Behçet medicada com anticoagulante e baixa dose de corticoide (como prednisolona 5 mg/dia), cuja médica assistente pretende iniciar infliximab devido à persistência ou agravamento da inflamação. Esta decisão pode trazer benefícios muito relevantes, mas também riscos importantes que devem ser cuidadosamente avaliados.


Objetivos deste artigo

  • Explicar o que é a Doença de Behçet
  • Descrever o que é o infliximab e como atua
  • Compreender quando o infliximab é recomendado
  • Avaliar vantagens e riscos da sua introdução
  • Explicar a relação entre infliximab, anticoagulantes e prednisolona
  • Descrever doses habituais e modo de administração
  • Identificar efeitos adversos importantes
  • Apresentar recomendações práticas de segurança e monitorização

Índice de conteúdos

  • O que é a Doença de Behçet?
  • Porque ocorre esta doença?
  • Sintomas mais frequentes
  • Complicações vasculares e risco trombótico
  • O que é o infliximab?
  • Como funciona o infliximab?
  • Quando é recomendado?
  • Introdução do infliximab num doente anticoagulado
  • Vantagens do infliximab
  • Riscos e efeitos adversos
  • Dosagens habituais
  • Como é administrado
  • Exames antes de iniciar tratamento
  • Monitorização clínica
  • Perguntas frequentes
  • Conclusão final

O que é a Doença de Behçet?

A Doença de Behçet é uma vasculite sistémica auto-inflamatória caracterizada por inflamação recorrente dos vasos sanguíneos.³

Os sintomas clássicos incluem:

  • Úlceras orais recorrentes
  • Úlceras genitais
  • Inflamação ocular (uveíte)
  • Lesões cutâneas
  • Dor articular
  • Tromboses venosas
  • Envolvimento neurológico
  • Problemas gastrointestinais

A doença tende a alternar entre períodos de agravamento (“crises”) e fases de remissão.


Porque ocorre esta doença?

A causa exata permanece desconhecida, mas acredita-se que exista uma combinação de:

FatorPapel provável
Predisposição genética (HLA-B51)Aumenta risco
Disfunção imunitáriaInflamação excessiva
Infeções desencadeantesPossível ativação
Alterações autoimunesProdução de citocinas inflamatórias

Entre as citocinas inflamatórias mais importantes encontra-se o TNF-alfa (Tumor Necrosis Factor-alpha), alvo terapêutico do infliximab.⁴


Complicações vasculares e risco trombótico

Uma das características mais importantes da Doença de Behçet é o risco aumentado de trombose venosa e inflamação vascular.⁵

Principais manifestações vasculares

ManifestaçãoFrequênciaGravidade
Trombose venosa profundaElevadaPotencialmente grave
Trombose cerebralMenos comumMuito grave
Aneurismas arteriaisRarosAlto risco
Vasculite venosaFrequenteModerada a grave

Por este motivo, alguns doentes necessitam de anticoagulantes de forma prolongada.


O que é o infliximab?

O Infliximab é um medicamento biológico pertencente ao grupo dos anti-TNF alfa.⁶

É um anticorpo monoclonal quimérico que bloqueia o TNF-α, uma molécula central da inflamação.


Como funciona o infliximab?

O infliximab liga-se ao TNF-alfa e impede a sua ação inflamatória.

Principais efeitos esperados

EfeitoResultado clínico
Redução da inflamação vascularMenos crises
Redução da uveíteProteção ocular
Menor atividade imunológicaControlo da doença
Redução de corticoterapiaMenos efeitos dos corticoides

Quando é aconselhada a utilização de infliximab?

As recomendações internacionais sugerem infliximab sobretudo em formas moderadas a graves da doença.⁷

Principais indicações

Situação clínicaUtilização recomendada
Uveíte graveSim
Behçet neurológicoSim
Vasculite importanteSim
Tromboses recorrentesFrequentemente
Falência de corticoides/imunossupressoresSim
Úlceras ligeiras isoladasGeralmente não

Introdução do infliximab num doente anticoagulado e sob prednisolona

Num doente que toma:

  • anticoagulante
  • prednisolona 5 mg/dia

…a introdução de infliximab pode ter racional clínico muito forte quando existe atividade inflamatória persistente.

Possíveis vantagens desta mudança terapêutica

VantagemImpacto
Melhor controlo da inflamaçãoMuito importante
Redução do risco de lesão vascularElevado
Possível redução de crisesElevada
Menor dependência de corticoidesMuito benéfico
Proteção ocular/neurológicaPotencialmente decisiva

Porque reduzir os corticoides é importante?

Mesmo doses aparentemente baixas de prednisolona podem causar problemas quando utilizadas cronicamente.⁸

Riscos da corticoterapia prolongada

Efeito adversoRisco
OsteoporoseElevado
DiabetesModerado
HipertensãoModerado
Aumento infeçõesElevado
CataratasModerado
Atrofia muscularProgressiva

Assim, um dos grandes objetivos do infliximab é precisamente permitir reduzir ou suspender corticoides.


Riscos importantes da introdução de infliximab

Apesar dos benefícios, o infliximab exige monitorização rigorosa.

Principais riscos

RiscoImportância
Infeções gravesMuito importante
Tuberculose reativadaCrítico
Hepatite B reativadaGrave
Insuficiência cardíacaPossível agravamento
Reações infusionaisFrequentes
Maior risco de alguns cancrosPequeno mas relevante

Infeções: o principal problema

O bloqueio do TNF reduz a defesa imunológica.

Infeções mais preocupantes

  • Tuberculose
  • Pneumonia
  • Herpes zoster
  • Sépsis
  • Infeções fúngicas
  • Hepatite B reativada

Por isso, antes de iniciar infliximab são obrigatórios exames de rastreio.⁹


Exames antes de iniciar infliximab

Avaliação recomendada

ExameObjetivo
IGRA ou teste tuberculinaTuberculose
RX tóraxAvaliação pulmonar
Hepatite B e CRastreio viral
HemogramaEstado hematológico
Função hepáticaSegurança
PCR/VHSAtividade inflamatória

O infliximab aumenta o risco hemorrágico?

O infliximab não é anticoagulante.

No entanto:

  • o doente já toma anticoagulante
  • infeções graves ou alterações hepáticas podem alterar risco hemorrágico
  • alguns doentes podem necessitar de ajustes terapêuticos

A vigilância médica é fundamental.


Dosagens habituais do infliximab

A dose depende da indicação clínica e peso corporal.¹⁰

Esquema clássico

FaseDose habitual
Semana 05 mg/kg IV
Semana 25 mg/kg IV
Semana 65 mg/kg IV
Manutenção5 mg/kg cada 6–8 semanas

Em casos graves podem ser usadas doses superiores.


Como é administrado?

O infliximab é administrado:

  • por perfusão intravenosa
  • em ambiente hospitalar ou unidade especializada
  • lentamente durante várias horas

Durante a administração o doente é monitorizado devido ao risco de reação infusional.


Sintomas de alerta após administração

Procurar ajuda médica urgente se ocorrer:

  • febre persistente
  • tosse importante
  • falta de ar
  • perda de peso inexplicada
  • suor noturno
  • sangue nas fezes
  • dor torácica
  • erupção intensa

Vacinas e infliximab

As vacinas são extremamente importantes antes do início da terapêutica.

Geralmente recomendadas

VacinaRelevância
GripeElevada
PneumocócicaElevada
COVID-19Elevada
Herpes zosterEm muitos casos

Vacinas vivas geralmente devem ser evitadas após início do tratamento.


Comparação simplificada: prednisolona vs infliximab

CaracterísticaPrednisolonaInfliximab
Ação rápidaMuito rápidaModerada
Uso prolongadoProblemáticoPossível
Risco osteoporoseElevadoBaixo
ImunossupressãoSimSim
Controlo doença graveLimitadoMuito eficaz
Toxicidade crónicaElevadaModerada

Perguntas frequentes (FAQ)

O infliximab cura a Doença de Behçet?

Não. Controla a inflamação e reduz crises, mas não cura definitivamente a doença.


Quanto tempo demora a fazer efeito?

Alguns doentes melhoram após poucas semanas, mas o efeito máximo pode demorar vários meses.


O infliximab pode substituir os corticoides?

Em muitos casos sim, permitindo reduzir significativamente a dose de prednisolona.


Pode ser usado com anticoagulantes?

Sim, frequentemente é utilizado em doentes anticoagulados, mas exige monitorização médica rigorosa.


O tratamento é para toda a vida?

Depende da gravidade da doença e da resposta clínica.


Conclusão final

A introdução de Infliximab na Doença de Behçet representa uma das maiores evoluções terapêuticas das últimas décadas, sobretudo em doentes com formas graves, vasculares, neurológicas ou oculares da doença. O controlo mais eficaz da inflamação pode reduzir dramaticamente crises, lesões irreversíveis e necessidade prolongada de corticoterapia.

No entanto, trata-se de um medicamento potente e imunossupressor, que exige rastreio infeccioso rigoroso, monitorização clínica especializada e vigilância contínua de efeitos adversos. A decisão de iniciar infliximab deve sempre ser individualizada, ponderando cuidadosamente benefícios e riscos para cada doente.


Referências bibliográficas

  1. Criteria for diagnosis of Behçet’s disease. Lancet.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1970380/
  2. Hatemi G, Christensen R, Bang D, et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of Behçet’s syndrome.
    https://ard.bmj.com/content/77/6/808
  3. Behçet Disease. Nature Reviews Disease Primers.
    https://www.nature.com/articles/nrdp201520
  4. Tumor necrosis factor-alpha in Behçet’s disease.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12794795/
  5. Vascular involvement in Behçet disease.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25529940/
  6. Infliximab mechanism of action and clinical applications.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14586737/
  7. EULAR recommendations for the management of Behçet syndrome.
    https://ard.bmj.com/content/77/6/808
  8. Complications of glucocorticoid therapy: a comprehensive review.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21406334/
  9. Screening for tuberculosis infection prior to initiation of anti-TNF therapy.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17711889/
  10. Remicade (Infliximab) prescribing information.
    https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2023/103772s5411lbl.pdf