Doença de Behçet e infliximab

Doença de Behçet e infliximab caso do Jorge

O Jorge é um homem na casa dos 50 anos, fumador, a quem foi diagnosticada a doença Behçet há muitos anos. Tem um histórico de trombose venosa mas atualmente sente-se bem, sem sintomas. Toma prednisolona 5 mg, ribaroxabano 15 mg e esomeprazol 20 mg. Deve fazer a transição para infliximab de forma a conseguir retirar a prednisolona?

O cenário clínico do “Jorge” é relativamente típico de muitos doentes com Doença de Behçet com envolvimento vascular prévio. A grande questão aqui não é apenas “retirar a prednisolona”, mas sobretudo perceber:

  • se existe ainda atividade inflamatória subclínica da doença;
  • qual o risco futuro de novas tromboses ou lesão vascular;
  • qual o custo-benefício de manter corticoterapia crónica versus iniciar um biológico como Infliximab.

A resposta curta é:

Sim, a introdução de infliximab pode ser uma estratégia muito racional e alinhada com recomendações modernas em Behçet vascular — MAS não é automaticamente obrigatória nem isenta de riscos.

A decisão depende sobretudo da atividade inflamatória atual da doença e do perfil de risco do doente.


O elemento mais importante: Behçet vascular ≠ trombose “normal”

Na Doença de Behçet, a trombose não é apenas um problema de coagulação.

Ela resulta principalmente de:

  • inflamação da parede vascular;
  • vasculite;
  • ativação imunitária persistente.

Isto significa que:

controlar a inflamação pode ser mais importante do que apenas anticoagular.¹

É precisamente aqui que os anti-TNF como infliximab ganharam enorme importância.


O problema da prednisolona crónica

O Jorge toma apenas 5 mg/dia, o que parece “baixo”.

Mas em medicina, especialmente após anos de utilização, 5 mg de prednisolona já não é uma dose trivial.²

Riscos acumulativos relevantes aos ~50 anos

ProblemaRelevância no Jorge
OsteoporoseElevada
Sarcopenia muscularImportante
DiabetesModerada
HipertensãoModerada
CataratasProgressiva
InfeçõesAumentadas
Risco cardiovascularRelevante

Além disso:

  • é fumador;
  • tem historial trombótico;
  • provavelmente já tem algum grau de inflamação vascular crónica.

O tabaco aumenta adicionalmente:

  • inflamação endotelial;
  • risco cardiovascular;
  • risco trombótico;
  • infeções respiratórias (importante se usar infliximab).

Então deve mudar para infliximab?

Situações em que a resposta tende para “sim”

A transição para Infliximab faz particularmente sentido se existir:

SituaçãoImportância
História de Behçet vascular significativoMuito forte
Necessidade contínua de corticoideForte
Marcadores inflamatórios elevadosForte
Recaídas anteriores ao reduzir corticoideMuito forte
Lesões vasculares persistentesMuito forte
Uveíte ou doença neurológicaMuito forte

Nestes casos, os guidelines europeus (EULAR) favorecem terapêutica imunossupressora potente, incluindo anti-TNF.³


Mas atenção: “sentir-se bem” não significa doença controlada

Este é provavelmente o ponto mais importante.

Muitos doentes com Behçet vascular:

  • podem estar clinicamente assintomáticos;
  • mas manter inflamação vascular silenciosa.

Por isso, antes da decisão terapêutica, faria muito sentido avaliar:

Exames importantes

ExameObjetivo
PCR e VHSInflamação
HemogramaAtividade/infeção
Ecografia venosaSequelas/trombose
Angio-TC ou RM vascularVasculite residual
Avaliação reumatológica/imunológicaAtividade global

Vantagens potenciais do infliximab neste caso

1. Possibilidade real de retirar corticoides

Este é um dos maiores objetivos terapêuticos modernos.

O infliximab frequentemente permite:

  • reduzir progressivamente prednisolona;
  • ou mesmo suspendê-la.

2. Melhor controlo da inflamação vascular

O anti-TNF atua mais profundamente sobre a fisiopatologia da doença.

Isto pode reduzir:

  • novas tromboses;
  • lesão vascular progressiva;
  • inflamação endotelial.

3. Melhor prognóstico a longo prazo

Especialmente em Behçet vascular, neurológico e ocular grave.


Principais riscos neste Jorge

Aqui entra uma nuance extremamente importante.

O Jorge é fumador

Isto aumenta significativamente alguns riscos do infliximab:

RiscoImpacto
PneumoniaAumentado
TuberculoseMais preocupante
DPOC/cancro pulmonarMaior relevância
Infeções respiratóriasMais frequentes

Risco infeccioso: o ponto crítico

Antes de iniciar infliximab, seria obrigatório excluir:

ExameNecessidade
Tuberculose (IGRA)Obrigatório
RX tóraxObrigatório
Hepatite B/CObrigatório
Avaliação infeções crónicasMuito importante

E o rivaroxabano?

Rivaroxabano não contraindica infliximab.

Aliás, muitos doentes com Behçet vascular utilizam:

  • anticoagulante +
  • imunossupressor/biológico.

Mas há debate científico relevante:

alguns especialistas defendem que controlar a inflamação é mais importante do que anticoagular indefinidamente.⁴

Isto porque a trombose em Behçet é fortemente inflamatória.

Contudo:

  • se o Jorge teve trombose importante,
  • recorrente,
  • extensa,
  • ou fatores trombóticos adicionais (tabaco, obesidade, genética),

…o rivaroxabano poderá continuar indicado.


E a dose de rivaroxabano?

Um detalhe interessante:

Rivaroxabano 15 mg/dia não é a dose “clássica” de manutenção prolongada em muitos cenários tromboembólicos.

Habitualmente:

SituaçãoDose típica
Fase inicial TVP/EP15 mg 2x/dia
Manutenção20 mg/dia
Redução prolongada em alguns casos10 mg/dia

Isto sugere que:

  • pode existir adaptação individual;
  • insuficiência renal;
  • risco hemorrágico;
  • ou estratégia específica do médico.

Vale a pena rever isto cuidadosamente com o especialista.


Como seria uma transição prudente?

Se a decisão fosse avançar para infliximab, o racional mais seguro seria:

Estratégia típica

  1. Iniciar infliximab
  2. Manter temporariamente prednisolona 5 mg
  3. Avaliar resposta clínica/laboratorial
  4. Reduzir lentamente corticoide
  5. Monitorizar recaídas

Nunca seria prudente:

  • parar abruptamente prednisolona;
  • iniciar infliximab sem rastreio infeccioso;
  • ignorar o tabagismo.

O fator talvez mais importante: deixar de fumar

Se tivesse de escolher apenas UMA medida com maior impacto global no prognóstico do Jorge, seria provavelmente:

cessação tabágica.

O tabaco piora simultaneamente:

  • risco vascular;
  • inflamação;
  • risco trombótico;
  • risco pulmonar;
  • risco infeccioso;
  • risco cardiovascular;
  • resposta terapêutica.

Conclusão clínica integrada

No cenário descrito para o Jorge, a introdução de Infliximab pode ser uma estratégia clinicamente muito sólida, sobretudo devido ao historial de Behçet vascular/trombótico e à necessidade de corticoterapia crónica, mesmo em baixa dose.

Contudo, a decisão ideal depende de confirmar se existe atividade inflamatória persistente ou risco elevado de recaída. Se houver evidência de doença vascular ativa ou historial de recaídas ao reduzir corticoides, o benefício do infliximab pode superar claramente os riscos.

O principal cuidado do Jorge seria:

  • risco infeccioso;
  • tabagismo;
  • rastreio rigoroso antes da terapêutica;
  • monitorização muito próxima após início do biológico.

Referências científicas principais

  1. Hatemi G et al. EULAR recommendations for the management of Behçet syndrome.
    https://ard.bmj.com/content/77/6/808
  2. Complications of glucocorticoid therapy.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21406334/
  3. Anti-TNF therapy in Behçet disease.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22143301/
  4. Venous thrombosis in Behçet disease: anticoagulants or immunosuppressives?
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24632564/