SUPLEMENTOS NO DESPORTO

Suplementos no desporto quais os perigos? Quais os mais eficazes? Quando tomar proteína e hidratos de carbono? Como fazer a melhor hidratação? Esteroides anabolizantes quais os perigos e utilizações?

Autor: Aurora Simón, Diretora técnica do CIM (Centro de Informação do Medicamento) Ordem dos Farmacêuticos

Neste artigo são tratados os seguintes temas:

  • Alimentação saudável ou suplementos, qual a melhor opção?
  • Quando se deve usar proteina como suplemento? E os Hidratos de carbono?
  • Como fazer a hidratação correcta?
  • Bebidas desportivas
  • Geles e barritas desportivas
  • Alimentos desportivos e suplementos alimentares
  • Riscos dos suplementos alimentares
  • Problemas de dopagem
  • Esteroides anabolizantes
  • Doenças e efeitos adversos causados pelos anabolizantes
  • Proteinas
  • Excesso de proteína
  • Cafeína
  • Taurina
  • Vitaminas
  • Minerais
  • Antioxidantes
  • Creatina
  • Bicarbonato de sódio
  • Beta-alanina
  • Nitrato
  • Carnitina
  • Aminoácidos de cadeia ramificada, leucina, valina e isoleucina
  • Queimadores de gorduras como chá verde, ácido lipoico e piruvato
  • Outras substâncias como glutamina, zinco, equinácea, quercetina, vitamina C, vitaminas D, vitamina E, crómio, glucosamina, condroitina, etc.

Suplementos no desporto vs Alimentação

Na maioria dos casos, as necessidades de um desportista saudável podem ser cobertas com uma alimentação equilibrada e variada. Esta proporciona geralmente toda a proteína necessária para o desenvolvimento muscular e a reparação dos tecidos corporais.

Proteína

Tem sido sugerido que a necessidade de proteína aumenta em treinos intensos de resistência, mas a evidência não é clara ou universal. Os atletas em maior risco de não preencher as suas necessidades proteicas são os que limitam de forma importante a ingestão energética ou a variedade de alimentos. Os desportistas podem satisfazer o aumento das necessidades consumindo mais alimentos. Contudo, a toma de uma pequena quantidade de alimento com proteína logo após o treino pode ser vantajosa.

Hidratos de carbono

Os hidratos de carbono proporcionam energia, armazenando-se no fígado e nos músculos. Têm um papel essencial no desempenho desportivo, particularmente na recuperação da função muscular após um exercício extenuante. A alimentação deve proporcionar suficientes hidratos de carbono para o exercício e para a recuperação da reserva de glicogénio nos músculos.

Os hidratos de carbono complexos (massa, pão integral ou arroz) contêm também fibra, vitaminas e minerais. Os açúcares simples, presentes em certas bebidas ou nos doces, proporcionam calorias, mas não outros nutrientes. Durante o exercício, as principais fontes de energia são as reservas de gordura e de hidratos de carbono. Enquanto as primeiras são relativamente abundantes, as de hidratos de carbono são limitadas, sendo fundamental que sejam eficazmente restabelecidas cada dia. Depois de exercício intenso é necessário o consumo de hidratos de carbono para aumento da reserva nos músculos.

Água líquidos e hidratação corporal

Água e líquidos são essenciais para manter a hidratação corporal, especialmente importante em climas quentes e em altitude. Alimentos e bebidas devem conter suficientes sais para repor os perdidos com a transpiração. Vitaminas e minerais são nutrientes necessários para o correto funcionamento do organismo. As recomendações nutricionais devem ser ajustadas individualmente, considerando as necessidades energéticas.

A necessidade de alimento de cada grupo dependerá do tipo de desporto e de treino, e do tempo de atividade. Em certas situações (determinados desportos, gasto energético muito importante, ou climas extremos) pode ser útil um aporte suplementar de vitaminas, minerais e outros nutrientes. Os vegetarianos também podem estar em risco de falta de alguns nutrientes.

Suplementos alimentares vs alimentos desportivos

Alguns alimentos têm sido desenvolvidos para fornecer energia e nutrientes aos desportistas em formas de fácil consumo. Os alimentos desportivos podem ser convenientes quando as necessidades diárias não podem ser colmatadas com a alimentação, embora geralmente sejam mais caros. Em certas situações, o consumo de alimentos normais pode não ser prático por problemas de preparação e armazenagem, ou pelos horários de treino.

Existem produtos para: hidratação, para recuperação de eletrólitos e de energia depois da atividade física ou, como referido, para fornecer nutrientes concretos de forma mais cómoda.

Bebidas desportivas

As bebidas desportivas proporcionam líquidos, hidratos de carbono e eletrólitos durante o exercício e também reidratação e aporte de energia após o exercício. Em práticas de 60 minutos ou superiores, podem ser necessárias para manter os níveis de glucose e para prolongar o tempo até à fadiga.

Geles e barritas desportivos

Os geles desportivos contêm hidratos de carbono e, em alguns casos, cafeína ou eletrólitos, para consumo durante o exercício. As barritas desportivas podem incluir hidratos de carbono, proteínas, vitaminas e minerais. Costumam ter pouca gordura e podem incluir outros ingredientes, para os quais não existem bases científicas e que podem aumentar o risco de contaminação.

Podem ser apropriadas quando se necessita energia antes da prática desportiva e podem ajudar a reparar os músculos posteriormente como, por exemplo, após 2 h de exercício, quando uma refeição equilibrada não vai estar disponível.

Existem também produtos para:

  • Substituição de eletrólitos (pó ou comprimidos),
  • Suplementos de alimentação em forma líquida,
  • Alimentos enriquecidos em proteína (leite, iogurte, barras de cereais),
  • Suplementos proteicos, que serão analisados em separado.

As denominadas bebidas energéticas, de consumo crescente, publicitam aumento de atenção e melhora do desempenho físico e mental. Podem conter hidratos de carbono, cafeína (que será abordada em separado), taurina, vitaminas do grupo B e outros ingredientes, alguns com evidência de utilidade variável e certo risco. Referidos, por exemplo:

  • Glucuronolactona,
  • Antioxidantes,
  • Minerais,
  • Guaraná,
  • Ginkgo biloba,
  • Ginseng,
  • Carnitina.

Podem aumentar temporalmente a atenção e resistência física, mas não há suficientes dados sobre aumento de força ou de potência. Algumas bebidas energéticas têm um conteúdo elevado de cafeína ou outros estimulantes.

O consumo em quantidade excessiva, ou combinado com outros suplementos ou álcool, pode ser perigoso. O consumo em quantidades elevadas pode causar agitação, palpitações, insónia, aumento da pressão arterial, convulsões, ou alteração do humor. Ao terem muito açúcar contribuem para o risco de cárie dentária, ganho de peso e agravamento da diabetes.

O alto conteúdo em hidratos de carbono resulta numa lenta absorção pelo estômago e pode causar problemas digestivos. O uso moderado não parece causar desidratação, se bem que não devam ser usadas para hidratação. Em alguns casos, os componentes podem interagir com medicamentos. Em adolescentes, a intoxicação por cafeína pode surgir mais facilmente, pela menor tolerância nestas idades.

Suplementos alimentares

Os suplementos alimentares são géneros alimentícios que se apresentam sob a forma de produto pré-embalado e destinam-se a complementar e/ou suplementar um regime alimentar. Constituem fontes concentradas de determinadas substâncias nutrientes ou com efeito nutricional ou fisiológico. Devem respeitar a regulamentação específica.

Aos suplementos alimentares não se podem atribuir propriedades curativas ou preventivas de doenças ou dos seus sintomas, função que pertence aos medicamentos. Podem fazer-se acompanhar por alegações de saúde só se autorizadas. Desde 2016 os vulgarmente denominados “Alimentos para desportistas”, que eram um grupo de produtos de alimentação especial, passaram a ser considerados géneros alimentícios comuns, cuja colocação no mercado não carece de notificação à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária.

No entanto, continuam a existir alimentos destinados a desportistas enquadrados como suplementos alimentares se:

  • Se apresentarem em forma doseada (comprimidos, cápsulas, saquetas e outras formas análogas às farmacológicas);
  • Se destinarem a ser consumidos em unidades medidas de quantidade reduzida – no máximo, 25 g ou 25 ml (pode haver várias tomas por dia, mas cada toma não poder ultrapassar o valor indicado);
  • O valor energético total da toma diária não for superior a 50 Kcal.

Atualmente, o uso de suplementos pelos atletas é uma prática extensa, com grande variedade de produtos. Muitos utilizadores de ginásios e desportistas utilizam-nos para melhorar a forma física, ou o rendimento desportivo. Os motivos pelos quais são procurados incluem:

  • Aporte energético necessário para o treino,
  • Compensação de uma nutrição deficiente,
  • Manutenção da saúde,
  • Uma melhor recuperação,
  • Melhora do desempenho, da resistência, ou da massa muscular,
  • Perda de peso.

O termo “suplemento ergogénico” é geralmente utilizado para denominar os que têm como objetivo melhorar o desempenho desportivo e/ou promover as adaptações ao treino. A utilização de suplementos multivitamínicos/multiminerais e de micronutrientes individuais só resultará num melhor rendimento se a suplementação corrigir um desequilíbrio alimentar.

Quando o estado nutricional não é ótimo, podem ser usados nutrientes para reverter a situação ou prevenir mais deficiências. Os suplementos podem ajudar a alcançar os objetivos nutricionais, prevenir e tratar deficiências de nutrientes e, em alguns casos, podem ter um efeito ergogénico direto.

Um marketing agressivo e, em ocasiões, com publicidade enganosa tem conduzido a uma grande utilização. Muitas vezes existem poucas, ou nenhumas, bases científicas para os supostos benefícios. Há que ter em consideração que não é exigido que estes produtos superem os controlos pelos quais passam os medicamentos.

Fundamentar os benefícios da suplementação de nutrientes é difícil e precisa de requisitos que raramente são alcançados:

  • Uma população apropriada,
  • Testes de desempenho válidos e confiáveis,
  • Uso apropriado de placebo,
  • Controle de fatores externos,
  • Do ambiente de estudo e
  • Utilização de técnicas estatísticas apropriadas.

Estudos científicos bem conduzidos mostraram que, sob condições específicas, alguns produtos podem ter alguns efeitos positivos no desempenho, força ou massa magra corporal. Outros mostraram eficácia em laboratório, mas não no ambiente desportivo. Porém, a maior parte das pesquisas realizadas não conseguiu sustentar efeitos ergogénicos na maioria dos suplementos.

Os dados científicos sugerem que só um pequeno número de substâncias tem este tipo de efeitos. Entre elas encontram-se a cafeina, a creatina, os nitratos, o bicarbonato de sódio e, possivelmente, a beta-alanina.

Riscos dos suplementos alimentares no desporto

A toma de suplementos alimentares justifica-se em certas situações, mas podem acarretar riscos. Estes podem estar relacionados com a segurança dos produtos, mas também com padrões inadequados de uso, incluindo misturas indiscriminadas, sem considerar as doses totais de alguns ingredientes, ou possíveis interações problemáticas entre eles. Podem chegar a ter efeitos nocivos sobre a saúde quando usados em doses inadequadas.

Os utilizadores podem não estar cientes de que o uso prolongado de alguns pode ter efeitos adversos, piorar certos problemas de saúde ou interagir com medicamentos. Podem existir dados sobre cada componente, mas há que considerar que podem atuar de forma diferente quando combinados. Em ocasiões podem surgir reações alérgicas ou toxicidade devida a contaminantes. Certos produtos podem ser preparados com falta de higiene ou não conter as doses indicadas. Alguns suplementos podem ser dispendiosos. Muitas vezes são tomados sem ter sido avaliada uma necessidade específica.

Problemas de dopagem

Uma situação preocupante (especialmente nos desportistas sujeitos a testes antidopagem) é a contaminação dos produtos com substâncias proibidas e que poderão ter consequências para a saúde.

Certos produtos podem incluir substâncias anabolizantes ou estimulantes, como a efedrina. Não devem ser adquiridos na Internet produtos sem garantias do fabricante. Em alguns estudos tem sido observado que alguns suplementos adquiridos através da internet estavam contaminados com substâncias não descritas na rotulagem. Alguns contêm deliberadamente substâncias proibidas, mas outros podem estar contaminados, isto é, as substâncias não estão declaradas no rótulo de forma não intencional.

Esteroides anabolizantes

Os esteroides anabolizantes têm efeitos androgénicos e anabólicos (aumento de massa muscular e óssea). Doses suprafisiologicas de testosterona durante várias semanas, juntamente com uma dieta controlada e exercício, aumentam a massa muscular, o tamanho, a força e promovem a cicatrização muscular em homens. Contudo, podem surgir importantes efeitos adversos como:

  • Supressão da função testicular,
  • Ginecomastia,
  • Hepatotoxicidade,
  • Alterações de humor,
  • Conduta agressiva,
  • Doença cardíaca,
  • Alterações da coagulação,
  • Virilização,
  • Efeitos dermatológicos,
  • Dependência.

Outras substâncias não esteroides anabolizantes, como o clenbuterol ou a tibolona em grandes quantidades, são usados para aumento da massa muscular. O uso deste tipo de suplementos representa uma preocupação de saúde pública. Têm sido banidos pelas organizações desportivas e não devem ser usados, a não ser para tratamento de doenças.

Quando os produtos foram desenvolvidos para evitar o controle regulamentar são denominados esteroides de desenho. Em muitos casos, os esteroides sintéticos nunca foram avaliados quanto à pureza, eficácia clínica ou toxicidade. São frequentemente comercializados em sites que promovem suplementos para dar volume muscular e força.

Podem conter pró-hormonas (como androstenediona, deidroepiandrosterona – DHEA e 19-norandrostenediona, precursores de testosterona). São estruturalmente derivadas de precursores de testosterona e outros esteroides anabolizantes.

Em ocasiões, estas substâncias têm sido identificadas como ingredientes não declarados. São promovidas como ajuda ergogénica ao elevarem os níveis de testosterona. Contudo, não têm sido demonstrados, de forma convincente, efeitos que apoiem a utilização para melhorar o exercício ou o rendimento físico.

Em muitas ocasiões, a análise dos dados sobre eficácia e segurança dos suplementos é difícil. Os utilizadores devem consultar um médico ou nutricionista ao invés de procurar orientação online, ou em colegas ou treinadores. O recurso à suplementação apenas deverá ser ponderado se os objetivos nutricionais não podem ser atingidos com a dieta.

Proteínas

As proteínas podem ter um papel na recuperação pós-exercício. Desportistas que realizam treino de força e de resistência podem ter um modesto aumento das necessidades proteicas. A ingestão diária deverá ser de:

  • Cerca de 1,2 a 1,7 g de proteína/kg/dia;
  • Até 2 g/kg/dia, em caso de realização de algum treino intenso;
  • 1,7-2,2 g/kg/dia para quem realizar uma elevada quantidade de treino intenso.

Geralmente, as recomendações de ingestão proteica podem ser alcançadas através da alimentação. Os alimentos ricos em proteína devem ser a primeira escolha pois proporcionam também as vitaminas e minerais necessários. Contudo, em certos casos, os suplementos podem ser uma forma prática e transportável de satisfazer as necessidades proteicas.

As mais utilizadas são:

  • Proteína do soro de leite;
  • Caseína do leite;
  • Ovo;
  • Proteína de soja.

Existem produtos em pó, líquidos ou barritas. Após o exercício, podem consumir-se cerca de 20 g de proteína.

Excesso de proteína

As quantidades não devem ser excedidas, pois uma maior dose não produz massa muscular ou força adicionais. O excesso de proteína parece aumentar a produção de ureia, com maior necessidade de ingestão de água para a sua excreção pela urina.

O soro lácteo é uma fonte de proteína de alta qualidade, rapidamente absorvido e muito utilizado. Alguma evidência sugere que, como parte de um programa de treino, aumenta a massa magra e a força; Outros estudos não mostraram estes efeitos. Pode ajudar na velocidade de recuperação do músculo após exercício intenso. Em quantidades adequadas a toma parece segura

Cafeína

Estimulante presente de forma natural no café, chá, cola ou cacau, podendo também ser sintetizada. Encontra-se em bebidas e barritas energéticas. A cafeína tem efeito ergogénico em várias situações desportivas. Uma pequena quantidade pode ser útil em atividades baseadas na resistência e em sprints repetidos de curta duração.

A cafeína pode ajudar na realização de exercício com o mesmo nível de intensidade por um tempo mais longo e a reduzir a perceção de fadiga. Não são convenientes mais de 400 mg/dia de cafeína nos adultos (equivalente a cerca de três chávenas de café), quantidade sem risco para a maioria das pessoas. Não devem ser esquecidas as fontes dietéticas.

A quantidade de cafeína que os atletas podem tomar antes de uma competição está limitada. Os efeitos secundários da cafeina podem ter impacto no desporto. Um uso excessivo pode causar:

  • Alterações do sono,
  • Irritabilidade,
  • Nervosismo,
  • Ansiedade,
  • Aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial,
  • Cefaleia,
  • Tonturas,
  • Desidratação.

Pode interferir com a absorção de cálcio no organismo. Doses elevadas não parecem aumentar os efeitos positivos e causam mais facilmente efeitos adversos

Taurina

Aminoácido encontrado naturalmente na carne e peixe. A maioria das bebidas energéticas não a contêm em quantidade suficiente para ter resultados no desempenho desportivo ou efeitos adversos. Pouco se sabe sobre os seus efeitos quando tomada em grandes quantidades ou a longo prazo. Os dados de eficácia são limitados ou variaveis.

Vitaminas, minerais e antioxidantes

Geralmente, um desportista não profissional com uma alimentação variada não precisará de suplementação. Em ocasiões, os requerimentos podem não ser cobertos só com a alimentação e, nesse caso, os suplementos podem ser benéficos.

Se existir deficiência vitamínica, estaria justificado o uso da vitamina concreta. Em atletas que limitam a ingesta energética para lograr objetivos de peso e nos que seguem padrões alimentares com restrição de algum tipo de alimento pode existir risco de deficiência vitamínica.

Tiamina, riboflavina e piridoxina – Desportistas com treinos intensivos podem precisar de vitaminas implicadas na produção de energia (tiamina, riboflavina ou piridoxina), mas estas podem ser obtidas aumentando a ingestão de alimentos.

Vitamina D – A principal fonte de vitamina D é a exposição solar. Parece intervir no processo de adaptação a exercício exigente, mas os dados sobre o seu papel na função muscular e na recuperação são equívocos. Deve existir suplementação se os níveis são insuficientes; os dados atuais não apoiam o seu uso como ajuda ergogénica.

Ferro – O ferro é necessário para transporte de oxigénio no organismo, encontra-se em alimentos como carne, aves ou peixe. O ferro procedente de plantas absorve-se pior, mas os alimentos ricos em vitamina C ajudam na absorção.

Os vegetarianos, ou quem faz regularmente exercício intenso, podem precisar de suplementos se os níveis de ferro forem baixos. Uma fadiga inexplicada deve ser investigada, mas não é prudente o uso de ferro como rotina, ou a utilização sem certeza de carência.

A suplementação em indivíduos com níveis de ferro adequados pode resultar em vómitos, diarreia, dor abdominal, desenvolvimento de hemocromatose e insuficiência hepática.

Cálcio – A melhor fonte de cálcio, essencial para os ossos, são os produtos lácteos ou os alimentos fortificados à base de soja. É recomendável uma ingesta mais elevada na mulher. Suplementos com antioxidantes têm sido utilizados para compensar um stress oxidativo aumentado pelo esforço físico. Contudo, estudos realizados com as vitaminas C e E não mostraram vantagens no desempenho desportivo, e alguns até mostraram o efeito contrário. Deve-se evitar a suplementação crónica com doses elevadas, aumentando a toma de antioxidantes através dos alimentos.

Creatina

A creatina, substância endógena derivada de aminoácidos, é produzida principalmente no fígado e rins, e armazenada sobretudo no musculo esquelético, para servir como fonte de energia. Encontra-se em alimentos de origem animal como a carne e o peixe.

A suplementação pode melhorar o desempenho em desportos envolvendo exercício repetido de curta duração e alta intensidade em adultos, embora a extensão do benefício seja variável. Existiram melhoras em programas de treino baseados nestas características, conduzindo a ganhos na massa magra e na potência muscular.

Melhorou o desempenho em desportos que requerem curtas explosões de energia (como sprint em corrida ou bicicleta) ou em desportos de equipa. Contudo, em desportos de resistência pode não proporcionar muito benefício.

Os díspares resultados podem ser consequência de estudos de pequeno tamanho com utilização de doses e testes distintos. Cerca de um terço dos indivíduos não responde à suplementação com creatina. A creatina também é usada em síndromas com deficiência.

A creatina monoidrato é a forma mais estudada. Existem poucos dados de segurança de formas mais recentes, como a creatina etil ester, ou de eficácia em associações. São referidas doses iniciais de cerca de 15-25 g/dia (em 4 doses) durante 4-7 dias e posteriormente 2- 5 g/dia,1,5,6,20 durante umas 4 semanas. Nas quantidades e protocolos recomendados não tem mostrado risco para a saúde.

Têm sido relatados efeitos adversos como:

  • Dor nas extremidades inferiores,
  • Cãibras e, com menor frequência,
  • Desconforto gastrointestinal (menor frequência)

Contudo a evidência para os dois últimos é fraca.

  • Muitos utilizadores ganham peso, possivelmente por retenção de água pelo músculo.
  • O fornecimento de água deve ser adequado.
  • Precaução em doença renal.
  • Parece não afetar adversamente uma função renal normal, se bem que o consumo expõe a aumento da creatininemia.

Pode ser usada só durante o tempo necessário, por exemplo, antes de um evento ou durante a época desportiva. Os efeitos de uso prolongado não são bem conhecidos, e não deve ser tomada em doses excessivas. Não se recomenda em adolescentes.

Bicarbonato de sódio/Beta alanina

O exercício intenso durante vários minutos faz com que os músculos produzam ácidos, como o láctico, que reduzem a força muscular e provocam cansaço. O bicarbonato de sódio e a beta alanina melhoram o desempenho em exercício que poderia ser limitado por transtornos ácido-base associados com altas taxas de glicólise anaeróbia.

O Bicarbonato de sódio e beta alanina poderiam proporcionar certo benefício em exercício mantido de alta intensidade. É necessária investigação em desportos específicos. O bicarbonato pode causar desconforto gastrointestinal quando ingerido em quantidade suficiente para melhorar o desempenho o que, contrariamente, pode ser prejudicial.

A beta alanina de rápida absorção em doses elevadas pode causar parestesias o que não sucede em formulações de libertação lenta ou se tomada em doses divididas. Não existem dados sobre o uso prolongado.

Nitrato

Aumenta a disponibilidade de óxido nítrico, que tem um importante papel na função do musculo esquelético. Dados preliminares sugerem que os nitratos podem reduzir a fadiga. Poderiam melhorar a tolerância ao exercício e as práticas de resistência.

A eficácia é menos clara em atletas de alto nível. São necessários estudos que determinem as doses, os benefícios reais, que desportos podem beneficiar e os efeitos a longo prazo. Em atletas suscetíveis, têm sido referidos problemas gastrointestinais.

Precauções

Não usar nitratos orgânicos, nem confundir com sais nitrito, que podem ser tóxicos, causando meta-hemoglobinémia. Assegurar só o uso da forma inorgânica de nitrato.

Carnitina

Encontra-se no musculo esquelético e cardíaco. Nos alimentos existe em:

  • Carne,
  • Peixe,
  • Alguns produtos lácteos.

Durante o exercício intenso, a carnitina tem um papel no metabolismo dos hidratos de carbono. Teoricamente, pode incrementar a utilização e conservação de glicogénio nos músculos, mas não existe evidência de qualidade de que a suplementação melhore o desempenho desportivo.

Vários estudos controlados não mostraram melhoras ou aumento dos níveis de carnitina no músculo; outros mostraram alguns efeitos. É necessária maior investigação para determinar benefícios no desempenho ou na composição corporal.

Aminoácidos de cadeia ramificada

Os aminoácidos de cadeia ramificada mais abundates no músculo são os seguintes:

  • Leucina,
  • Valina,
  • Isoleucina.

Estão presentes em grandes quantidades em carnes vermelhas e lácteos. São aminoácidos necessários para a síntese proteica nos músculos, mas não há estudos de qualidade que examinem os efeitos da suplementação usada com esta finalidade.

Alguns estudos mostraram redução de dor muscular após suplementação, provavelmente mais prominente em indivíduos não treinados. Contudo, há poucos dados que apoiem a sua utilização para aumento do rendimento físico, desenvolvimento da musculatura ou na recuperação muscular após o exercício.

Outras substâncias

Uma doença que interrompa o treino ou ocorra durante uma competição pode representar um problema e alguns suplementos são promovidos como apoio ao sistema imunitário.

Para muitos, os dados são muito limitados, sem forte evidência de ser particularmente efetivos nos atletas, como por exemplo:

  • Glutamina,
  • Zinco,
  • Equinácea,
  • Quercetina,
  • Vitamina C,
  • Vitaminas D,
  • Vitamina E.

Probióticos – São necessários mais estudos sobre o efeito dos probióticos na redução de problemas gastrointestinais, por exemplo, em atletas que viajam.

Proteína – A proteína é o principal ingrediente de suplementos que promovem aumento de peso e alguns estudos concluíram que favorece o aumento de massa magra, quando combinada com exercício de resistência, mas o efeito não é importante.

Queimadores de gorduras” – Outros produtos alegam reduzir os níveis de gordura corporal e aumentar o tamanho muscular. Os dados de eficácia dos “queimadores de gordura” são inconclusivos e, para a maioria, mínimos. Os efeitos são pequenos ou triviais para substâncias como por exemplo:

  • Chá verde,
  • Ácido lipoico,
  • Piruvato.

Crómio – Não existe evidência de efeito no caso do crómio, que não é recomendado. Nenhuma substância deste tipo proporciona um substancial benefício no desporto.

Beta hidroximetilbutirato – ácido gordo derivado da leucina, tem sido referido aumento de massa muscular, redução de dor muscular e melhora da capacidade aeróbica. Todavia, os dados disponíveis sugerem que provavelmente os efeitos são modestos, e têm sido sobretudo relatados em indivíduos que iniciam os treinos. É necessária mais investigação.

Glucosamina, condroitina e metilsulfonilmetase – Em ocasiões são utilizados suplementos para ossos e articulações (glucosamina, condroitina e metilsulfonilmetase), com a finalidade de prevenir ou reverter dano causado por desporto intenso ou prolongado. A glucosamina pode proporcionar alívio subjetivo em alguns idosos com osteoartrite, mas há pouca ou nenhuma evidência de benefício em atletas saudáveis. Não mostrou prevenção ou reversão do desgaste das articulações.

Para muitas outras sustâncias usadas por desportistas existe uma limitada evidência de utilidade ou dados controversos (adenosinatrifosfato, ácido fosfatídico, ácido araquidónico, citrulina, glutationa). Também é necessária investigação adicional no caso de: selénio, cisteína, cistina, arginina, resveratrol ou ribose.

Programas de educação e intervenção

O aconselhamento alimentar ou a dispensa de suplementos a praticantes de atividade desportiva na farmácia podem ser oportunidades de esclarecimento. Em muitos casos, os utentes não dispõem de informação ou esta pode ser errónea.

As doses usadas podem estar acima das quantidades recomendadas. A informação proporcionada pelos profissionais de saúde é importante para paliar o desconhecimento dos riscos, especialmente na utilização prolongada. Podem ser evitadas interações e, se a pessoa insiste na continuação da toma, poderá realizar os controlos necessários para não surgirem efeitos adversos.

Os desportistas devem ser alertados para não usar suplementos de forma indiscriminada e os jovens ativamente dissuadidos do seu uso. Deve ser recomendado aos utentes que comuniquem os efeitos nocivos e evitem a toma prolongada ou repetida de suplementos sem o aconselhamento de profissionais, especialmente se existirem problemas médicos.

Desaconselha-se a toma em indivíduos com os seguintes fatores de risco:

  • Risco cardiovascular,
  • Alteração da função renal
  • Alteração da função hepática,
  • Problemas neuropsiquiátricos,
  • Grávidas,
  • Mães a amamentar.

O caso dos utentes que consomem anabolizantes é mais complexo, especialmente se existe relutância em cessar a toma. É conveniente informar sobre os efeitos e incentivar a interrupção, transmitindo a importância da realização de estudos hormonais.

Conclusão

Os alimentos e suplementos para desportistas não devem substituir uma dieta saudável. Algumas substâncias proporcionam algum benefício, dependendo do tipo e intensidade da atividade, outras não parecem ser efetivas e algumas poderiam ser nocivas para a saúde. Há que considerar sempre se os produtos são necessários e seguros. Deverá ser dada atenção especial às implicações do uso de suplementos não adequadamente controlados. A intervenção farmacêutica é importante, especialmente pela utilização atual da internet como fonte de informação e, em alguns casos, de aquisição.

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