O cancro continua a ser uma das principais causas de morte a nível mundial. Segundo o relatório GLOBOCAN 2022 da Agência Internacional para Investigação em Cancro (IARC), ocorreram aproximadamente 20 milhões de novos casos de cancro e 9,7 milhões de mortes num único ano¹.
Estima-se que 1 em cada 5 pessoas desenvolverá cancro ao longo da vida¹. A Organização Mundial da Saúde projeta que o número anual de novos casos poderá ultrapassar 35 milhões até 2050, impulsionado pelo envelhecimento populacional e fatores ambientais².
Apesar destes números preocupantes, os anos de 2024, 2025 e 2026 marcaram avanços significativos na terapêutica oncológica, baseados em biologia molecular, imunologia e medicina personalizada.
Índice de temas do artigo
- O que mudou: do “órgão” para o “alvo molecular”
- Imunoterapia: novas combinações, novos alvos e melhor seleção de doentes
- Terapias celulares: do sangue para tumores sólidos
- Anticorpos biespecíficos: “engagers” e resposta profunda em hemato-oncologia
- ADCs (conjugados anticorpo-fármaco): quimioterapia mais dirigida e mais potente
- Radioligandos/teranóstica: tratar com precisão “guiada” por imagem
- Terapias alvo e estratégias tumor-agnostic
- Vacinas e terapias baseadas em RNA: a personalização acelera
- Biópsia líquida e MRD: tratar mais cedo, tratar menos (quando possível)
- IA na oncologia: diagnóstico, estratificação e apoio à decisão
- Limitações reais, riscos e o que esperar a seguir
- Conclusão e resumo prático
A revolução da medicina personalizada
Durante décadas, o tratamento do cancro era definido principalmente pelo órgão afetado. Hoje, a decisão terapêutica baseia-se cada vez mais em biomarcadores moleculares.
Terapias Tumor-Agnostic
Algumas terapias são agora aprovadas com base numa alteração genética específica — independentemente do tipo de tumor — como:
- Fusão NTRK
- MSI-H / dMMR
- TMB elevado
Este conceito representa uma mudança paradigmática na oncologia moderna³⁻⁵.
Imunoterapia de nova geração
Os inibidores de checkpoint imunitário (anti-PD-1, anti-PD-L1, anti-CTLA-4) continuam a evoluir.
Combinações terapêuticas
A investigação recente demonstra que a combinação de:
- Imunoterapia + imunoterapia
- Imunoterapia + terapias alvo
- Imunoterapia + ADCs
- Imunoterapia + radioterapia
pode aumentar significativamente a eficácia clínica⁶.
Superar resistência tumoral
Estudos mostram que o microambiente tumoral influencia a resposta imunológica, e novas estratégias procuram modular essa interação⁶.
Terapias celulares CAR-T em tumores sólidos
As terapias CAR-T revolucionaram os cancros hematológicos. Em 2025, um estudo publicado no The Lancet demonstrou resultados promissores com CAR-T dirigida a CLDN18.2 no cancro gástrico avançado⁷⁻⁸.
Este marco sugere que as terapias celulares podem finalmente expandir-se para tumores sólidos.
Anticorpos bioespecíficos: Nova era na hemato-oncologia
Os anticorpos biespecíficos (por exemplo CD3×CD20 e BCMA×CD3) permitem ativar células T diretamente contra células tumorais.
Revisões recentes confirmam a sua eficácia crescente em linfomas e mieloma múltiplo¹⁰.
ADCs – Conjugados Anticorpo-Fármaco
Os ADCs representam uma das áreas mais dinâmicas da oncologia moderna.
Exemplos incluem:
- Trastuzumab deruxtecan
- Sacituzumab govitecan
Estudos publicados em 2025 mostram melhoria significativa na sobrevivência em cancro da mama metastático¹²⁻¹⁴.
Estes fármacos permitem entregar quimioterapia de forma altamente direcionada.
Radioligandos e Teranóstica
A utilização de ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 no cancro da próstata metastático representa um avanço importante na terapêutica guiada por imagem molecular¹⁵⁻¹⁶.
Esta abordagem combina diagnóstico e tratamento num único conceito terapêutico.
Terapias Alvo: KRAS já não é “Inatingível”
A aprovação acelerada de adagrasib + cetuximab para cancro colorretal metastático com mutação KRAS G12C demonstra que mesmo alvos anteriormente considerados intratáveis podem tornar-se opções terapêuticas viáveis¹⁷⁻¹⁸.
Vacinas de RNA contra o cancro
As vacinas terapêuticas baseadas em mRNA estão a evoluir rapidamente.
Ensaios recentes em melanoma demonstraram potencial benefício quando combinadas com imunoterapia anti-PD-1⁶⁻¹⁹.
Biópsia líquida e Doença Residual Mínima (MRD)
A deteção de ADN tumoral circulante (ctDNA) permite identificar doença residual mínima após cirurgia.
Revisões recentes sugerem que esta abordagem pode ajudar a decidir quem necessita de quimioterapia adicional²⁰⁻²¹.
Inteligência Artificial na oncologia
A IA está a ser aplicada em:
- Patologia digital
- Radiologia
- Análise multi-ómica
Revisões recentes destacam o potencial da IA para melhorar diagnóstico e estratificação prognóstica²²⁻²³.
Tabela resumo: Descobertas recentes
| Descoberta | Tipo de Cancro | Fase Clínica | Impacto Prático |
|---|---|---|---|
| Terapias tumor-agnostic | Vários | Metastático | Tratamento baseado na mutação |
| CAR-T CLDN18.2 | Gástrico | Pós-linhas padrão | Primeira evidência sólida em tumores sólidos |
| ADCs | Mama e outros | Metastático | Quimioterapia dirigida |
| 177Lu-PSMA | Próstata | mCRPC | Terapia guiada por imagem |
| KRAS G12C | Colorretal | Pós-padrão | Novo alvo terapêutico |
| ctDNA | Colorretal | Pós-cirurgia | Decisão terapêutica personalizada |

Perguntas Frequentes
O que mudou no tratamento do cancro em 2026?
O tratamento tornou-se mais personalizado, baseado em biomarcadores moleculares, imunoterapia combinada, terapias celulares e inteligência artificial.
A imunoterapia pode curar o cancro?
Em alguns casos específicos pode induzir remissões prolongadas, mas a eficácia depende do tipo de tumor e perfil molecular.
O que é biópsia líquida?
É a deteção de ADN tumoral no sangue para monitorizar doença residual.
Conclusão
Os avanços recentes no tratamento do cancro mostram uma transição clara para:
- Medicina personalizada baseada em biomarcadores
- Terapias celulares e imunológicas mais eficazes
- Tratamentos dirigidos com maior precisão
- Monitorização molecular através de ctDNA
- Integração crescente de inteligência artificial
O futuro da oncologia é cada vez mais preciso, individualizado e biologicamente orientado.
Fontes bibliográficas
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- Martínez-Castedo B, et al. Minimal residual disease in colorectal cancer and ctDNA approaches. Ann Oncol. 2025.
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Referências adicionais
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12–14. ADCs breast cancer studies 2025.
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17–18. FDA approval adagrasib + cetuximab 2024.
20–21. ctDNA MRD reviews 2025.
22–23. AI in oncology reviews 2025.
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