O paracetamol ou acetaminofeno é um dos medicamentos mais utilizados mundialmente como analgésico (dor) e antipirético (febre) ou seja no tratamento sintomático da dor ligeira a moderada e da febre. Estima-se que milhões de doses sejam consumidas diariamente em todo o mundo¹.
Contudo, apesar do seu perfil de segurança favorável quando usado incorretamente, o paracetamol é a principal causa de insuficiência hepática aguda no mundo ocidental, particularmente no Reino Unido e nos Estados Unidos²⁻³. Nos EUA, é responsável por cerca de 50% dos casos de falência hepática aguda relacionados com fármacos².
O desafio do paracetamol nas redes sociais
Numa nota informativa, a ordem dos farmacêuticos sublinha que tem sido identificado, nomeadamente entre os adolescentes, um aumento de comportamentos de risco associados ao denominado “desafio do paracetamol” em circulação nas redes sociais, no qual é incentivada a toma deliberada de doses elevadas deste fármaco numa competição doentia para testar quem aguenta mais tempo antes de aparecerem os sintomas e ter de ir com urgência ao hospital, correndo risco de vida!
Este fenómeno, já verificado em países como Alemanha, Bélgica, Espanha, França ou Suíça, representa um risco significativo para a saúde, uma vez que a toxicidade do paracetamol pode manifestar-se antes do aparecimento de sintomas clínicos, pelo que se torna imperativa a sua abordagem junto desta população.
Os utentes devem ser sensibilizados para o facto de que o paracetamol não é inócuo e que, tal como todos os medicamentos, apenas deve ser utilizado quando necessário e de acordo com a posologia indicada pelo médico, farmacêutico ou constante do folheto informativo.
O maior risco associado ao seu uso consiste na ingestão de doses superiores às recomendadas. Em adultos, a dose diária de paracetamol não deve geralmente ultrapassar os 3 g (500 mg a 1 g a cada 4–6 horas), devendo ser reduzida em caso de doença hepática ou presença de fatores de risco. Nas crianças, a dose é calculada com base no peso corporal.
A toxicidade associada ao paracetamol resulta maioritariamente de:
- Sobredosagem intencional
- Erros posológicos
- Uso prolongado acima das doses recomendadas
- Associação inadvertida com múltiplos medicamentos contendo paracetamol
Este artigo analisa, com base na evidência científica até 2026, os mecanismos fisiopatológicos da toxicidade, as doses terapêuticas e perigosas, os sinais clínicos, as abordagens terapêuticas e as apresentações disponíveis.
Índice
• Mecanismo de ação do paracetamol, sinais e sintomas de sobredosagem
• Metabolismo hepático e formação do metabolito tóxico
• Alterações fisiopatológicas na intoxicação
• Fases clínicas da intoxicação
• Doses terapêuticas recomendadas
• Doses tóxicas e potencialmente fatais
• Tabelas comparativas por faixa etária
• Tratamento da intoxicação aguda
• Papel da N-acetilcisteína
• Situações especiais (álcool, doença hepática, desnutrição)
• Marcas comerciais e dosagens disponíveis em Portugal
• Conclusão
Sinais e sintomas de alarme
A sobredosagem pode provocar lesão hepática grave e irreversível, podendo evoluir para insuficiência hepática aguda, necessidade de transplante hepático e, em casos extremos, morte. Em casos menos frequentes podem também ocorrer lesões renais, sobretudo associadas a utilização prolongada e/ou ingestão excessiva.
A sobredosagem pode ocorrer por ingestão única de uma dose elevada ou por uso crónico acima das doses recomendadas. Os sintomas iniciais surgem geralmente nas primeiras 24 horas e incluem náuseas, vómitos, sudação, mal-estar e letargia.
À medida que o dano hepático progride, pode surgir dor abdominal, evoluindo para complicações graves. Perante suspeita de sobredosagem, deve ser procurada assistência médica imediata, mesmo na ausência de sintomas, pois o tratamento é mais eficaz se iniciado precocemente.
Mecanismo de ação
O paracetamol exerce ação analgésica e antipirética predominantemente por:
- Inibição central da ciclooxigenase (COX)
- Modulação da via serotoninérgica descendente
- Influência sobre sistemas endocanabinóides
Não possui atividade anti-inflamatória significativa⁴.
Metabolismo hepático e formação do metabolito tóxico
Após administração oral:
- 90–95% é metabolizado por conjugação com glucuronídeo e sulfato
- 5–10% é metabolizado pelo citocromo P450 (CYP2E1 principalmente)
- Forma-se o metabolito reativo **NAPQI (N-acetil-p-benzoquinona imina)**⁵
Em condições normais:
- O NAPQI é neutralizado pela glutationa hepática
Em sobredosagem:
- A glutationa esgota-se
- O NAPQI liga-se às proteínas celulares
- Ocorre necrose hepatocelular centrolobular⁵⁻⁶
Alterações fisiopatológicas na intoxicação
As principais alterações incluem:
- Necrose hepatocelular centrolobular
- Aumento maciço de AST/ALT (>1000 UI/L)
- Coagulopatia (↑ INR)
- Acidose metabólica
- Encefalopatia hepática
- Insuficiência renal aguda associada
A falência hepática pode ocorrer 48–96 horas após ingestão tóxica⁶.
Fases clínicas da intoxicação
| Fase | Tempo após ingestão | Manifestações |
|---|---|---|
| I | 0–24h | Anorexia, náuseas, vómitos, sudorese |
| II | 24–72h | Dor abdominal no hipocôndrio direito, aumento transaminases, AST, ALT e, se a intoxicação for grave, bilirrubina e tempo de protrombina (em geral relatado conforme RNI) algumas vezes elevados |
| III | 72–96h | Insuficiência hepática, coagulopatia, encefalopatia Vômitos e sintomas de insuficiência hepática AST, ALT, bilirrubina e pico de RNI Às vezes, insuficiência renal e pancreatite |
| IV | > 5 dias | Resolução da hepatotoxicidade ou progressão para insuficiência de múltiplos órgãos (às vezes fatal) |
Fontes: Manuais MSD
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/hep.20293
Doses terapêuticas recomendadas
Adultos
| Parâmetro | Dose |
|---|---|
| Dose única habitual | 500–1000 mg |
| Intervalo | 6–8 horas |
| Dose máxima diária segura | 3–4 g/dia* |
* Atualmente muitos consensos recomendam máximo 3 g/dia em uso prolongado⁷.
Crianças
| Idade | Dose por toma | Máximo diário |
|---|---|---|
| 0–12 anos | 10–15 mg/kg | 60–75 mg/kg/dia |
Fonte: Rumack BH, Matthew H. Pediatrics. 1975 .
Doses tóxicas e potencialmente fatais
Toxicidade aguda (ingestão única)
| Grupo | Dose potencialmente tóxica |
|---|---|
| Crianças | ≥150 mg/kg |
| Adultos | ≥7,5 g numa única toma |
Risco aumentado acima de 200 mg/kg⁶.
Toxicidade crónica (ingestão repetida)
Pode ocorrer com:
- 4 g/dia durante vários dias
- 100 mg/kg/dia em crianças
- Doses menores em alcoólicos crónicos⁹
Dose potencialmente fatal
Não existe valor absoluto universal, mas:
- 250 mg/kg associa-se a alto risco de falência hepática
- 12–15 g pode ser fatal em adulto não tratado⁶
Tratamento da intoxicação aguda
Avaliação inicial
- Dose ingerida
- Tempo desde ingestão
- Paracetamol plasmático (nomograma de Rumack-Matthew)
- AST, ALT, INR, creatinina
Papel da N-acetilcisteína (NAC)
A NAC:
- Repõe glutationa
- Neutraliza NAPQI
- Melhora perfusão hepática
É eficaz se iniciada nas primeiras 8 horas, mas benéfica mesmo mais tarde¹⁰.
Esquema IV clássico:
- 150 mg/kg em 1 hora
- 50 mg/kg em 4 horas
- 100 mg/kg em 16 horas
Pode reduzir drasticamente a mortalidade¹⁰.
Situações de risco aumentado
• Alcoolismo crónico (indução CYP2E1)
• Doença hepática pré-existente
• Jejum prolongado / desnutrição
• Associação com indutores enzimáticos
Nestes casos recomenda-se dose máxima ≤2–3 g/dia⁷.
Marcas comerciais conhecidas (Portugal)
- Ben-u-ron®
- Dafalgan®
- Panadol®
- Tylenol® (internacional)
Dosagens disponíveis
| Forma | Dosagem |
|---|---|
| Comprimidos | 500 mg, 1000 mg |
| Xarope pediátrico | 120 mg/5 ml |
| Supositórios | 125 mg, 250 mg, 500 mg |
| Solução IV hospitalar | 1 g/100 ml |
Resumo comparativo de doses
Tabela geral
| Grupo | Dose terapêutica diária | Dose tóxica aguda | Dose alto risco |
|---|---|---|---|
| Crianças | 60–75 mg/kg | ≥150 mg/kg | ≥200 mg/kg |
| Adultos | 3–4 g | ≥7,5 g | ≥12 g |
Conclusão
O paracetamol mantém-se como um fármaco de primeira linha na dor e febre devido ao seu excelente perfil de segurança quando usado corretamente.
Contudo:
• É a principal causa de insuficiência hepática aguda nos países ocidentais
• A margem terapêutica não é ilimitada
• A sobredosagem pode ser silenciosa nas primeiras horas
• A N-acetilcisteína é altamente eficaz quando administrada precocemente
A educação farmacêutica é essencial para prevenir erros posológicos, especialmente em contexto pediátrico e em utentes polimedicados.
Referências Bibliográficas
- McCrae JC, et al. Long-term adverse effects of paracetamol. Ann Rheum Dis. 2018. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6138494/
- Lee WM. Acetaminophen toxicity. N Engl J Med. 2004.
- Bernal W, et al. Acute liver failure. Lancet. 2010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20638564/
- Graham GG, Scott KF. Mechanism of action of paracetamol. Am J Ther. 2005. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15662292/
- Jaeschke H, et al. Mechanisms of acetaminophen hepatotoxicity. Toxicol Sci. 2012. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0278691520301289
- NICE Guidelines Analgesia. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Hawton K et al. BMJ. 2012.
- Daly FF et al. Clin Toxicol. 2008. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Heard KJ. N Engl J Med. 2008. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Rumack BH, Matthew H. Pediatrics. 1975. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Prescott LF. Pharmacol Ther. 2000. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/hep.20293

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