As mortes por sobredosagem ou por efeitos adversos de medicamentos são um problema significativo de saúde pública tanto nos Estados Unidos como na Europa. Nos Estados Unidos, estimou-se que cerca de 107543 pessoas morreram de sobredosagem de drogas em 2023, com os opioides sintéticos, nomeadamente o Fentanilo, como principal contributo, segundo o jornal The Guardian.
Na Europa, segundo o relatório da EMCDDA/EUDA (Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction / European Union Drugs Agency), estimou-se que cerca de 7 500 mortes induzidas por droga ocorreram em 2023 (na União Europeia), com os opioides envolvidos em mais de dois terços desses casos. euda.europa.eu
Em particular, o uso concomitante de opioides com benzodiazepinas ou outros sedativos aumenta substancialmente o risco de morte por sobredosagem, segundo estudos disponíveis na PubMed. Estes dados evidenciam que, mesmo quando prescritos legalmente, certos medicamentos de uso frequente merecem vigilância reforçada e uma boa gestão clínica.
Neste contexto, o presente artigo analisa alguns dos medicamentos mais frequentemente utilizados — tanto em medicina de rotina como em contextos de dor crónica ou ansiedade/insónia, que se associam a riscos elevados, apresentando-se os seus princípios ativos, indicações terapêuticas, efeitos adversos, formas farmacêuticas e posologia típica. O objetivo é reforçar a consciência sobre os riscos associados e promover uma prescrição e utilização mais cuidadosa.
(Nota: não se descrevem todas as centenas de medicamentos com risco, apenas alguns exemplos representativos com evidência científica disponível.)
Índice de temas
- Opioides para dor: Oxycodona
- Benzodiazepinas e sedativos-hipnóticos: Alprazolam
- Analgésicos combinados e hipnóticos: Tramadol
- Gabapentinoides: Gabapentina e Pregabalina
- Outros sedativos ou antiepilépticos usados off-label: Gabapentina
Oxycodona
Nome comercial: Por exemplo, OxyContin®, Roxicodone® (dependendo do país)
Princípio activo (nome científico): Oxycodona
Indicação terapêutica: Analgésico opioide indicado para dor moderada a grave, quando são adequadas terapias com opioides.
Laboratório produtor / nacionalidade: Inicialmente Purdue Pharma (EUA) para a formulação original OxyContin. Subsequentemente genéricos produzidos por várias empresas.
Atividade terapêutica: Actua como agonista dos recetores µ-opioides no sistema nervoso central, reduzindo a transmissão da dor e produzindo sedação, euforia e supressão respiratória.
Inovador ou não: A oxycodona é um opioide estabelecido há décadas, não se considera “inovadora” no sentido de terapias recentes.
Principais efeitos secundários / adversos
Sedação, náuseas/vómitos, obstipação, depressão respiratória, dependência, hipersensibilidade, risco de sobredosagem. Estudos forenses mostram que em mortes por intoxicação com oxycodona existiam frequentemente outros depressores do Sistema Nervoso Central (SNC). PubMed
Forma farmacêutica e posologia típica: Pode existir em comprimidos de libertação imediata (IR) ou prolongada (SR/ER). A posologia depende da intensidade da dor e da experiência anterior com opioides. Por exemplo, a formulação de libertação imediata pode começar por 5 a 10 mg de 4/4 horas para dor aguda, enquanto a de libertação prolongada pode variar consoante a dose de manutenção e escalonamento.
Observações de risco: Um estudo retrospectivo mostrou que, entre 2.241.530 utilizadores de opioides, a exposição concomitante a benzodiazepinas ou sedativos/hipnóticos aumentou o risco de sobredosagem em ~60% comparado a opioides sozinhos (PubMed). Outro estudo encontrou que em mortes por intoxicação por oxycodona existia 5,6 vezes mais probabilidade de ter outros depressores do SNC associados (PubMed).
Notas: A prescrição de oxycodona exige monitorização cuidadosa do paciente, avaliação do risco de abuso/dependência e evitar associações perigosas.
Alprazolam
Nome comercial: Xanax®, Alprox® (varia por país)
Princípio activo (nome científico): Alprazolam
Indicação terapêutica: Tratamento de transtornos de ansiedade, ataques de pânico.
Laboratório produtor / nacionalidade: Originalmente Pfizer (EUA) entre outros.
Atividade terapêutica: Benzodiazepina que potencia a acção do neurotransmissor GABA no recetor GABA-A, provocando efeito sedativo, ansiolítico, relaxante muscular e anticonvulsivante.
Inovador ou não: Embora relevante na sua categoria, é uma molécula estabelecida há décadas, não inovadora recente.
Principais efeitos secundários / adversos
Sonolência, ataxia, confusão, amnésia retrógrada, tolerância, dependência, risco de abstinência grave e risco elevado de depressão respiratória e morte, especialmente em combinação com opioides ou álcool . Estudos mostram que a toxicidade isolada é rara, mas em polifarmácia torna-se grave (Medscape).
Forma farmacêutica e posologia típica: Comprimidos orais de 0,25 mg, 0,5 mg, 1 mg, 2 mg. Posologia comum para ansiedade: 0,25 a 0,5 mg 2 a 3 vezes por dia; para ataques de pânico pode ser 0,5 a 1 mg 3 vezes por dia, ajustando conforme resposta e tolerância.
Observações de risco: A combinação com opioides ou álcool aumenta significativamente o risco de mortalidade; por exemplo, entre veteranos em tratamento com analgésicos opioides, a prescrição concomitante de benzodiazepinas multiplicou o risco de morte por sobredosagem (HR ~3,86) comparado com quem não tomava benzodiazepinas (PubMed).
Notas: Deve-se evitar o uso prolongado e prescrever apenas o mínimo necessário, com plano de cessação quando adequado.
Tramadol
Nome comercial: Ultram®, Tramal® (dependendo do país)
Princípio activo (nome científico): Tramadol (cloridrato de tramadol)
Indicação terapêutica: Analgésico para dor moderada a grave – frequência em dor crónica e dor oncológica em algumas jurisdições.
Laboratório produtor / nacionalidade: Originalmente Grünenthal (Alemanha).
Atividade terapêutica: Atua por duas vias principais, agonista fraco dos recetores µ-opioides + inibição da recaptação de noradrenalina e de serotonina.
Inovador ou não: Quando introduzido, ofereceu alternativa aos opioides clássicos; contudo já está amplamente estabelecido.
Principais efeitos secundários / adversos
Náuseas, tonturas, sudorese, obstipação, sonolência, convulsões (em doses elevadas ou em combinação com inibidores de serotonina), risco de abuso/dependência e risco de sobredosagem. Algumas evidências apontam para envolvimento em mortes por medicamentos prescritos. Por exemplo: “Prescription histories and dose strengths associated with overdose deaths” refere tramadol entre os opioides associados. OUP Academic
Forma farmacêutica e posologia típica: Comprimidos de 50 mg, formulações de libertação prolongada (100 mg, 200 mg). Posologia típica para dor moderada: 50–100 mg cada 4–6 horas, com dose máxima diária de por exemplo 400 mg (varia por país). Para formulações de libertação retardada: 100 mg a 200 mg de 12/12 horas.
Observações de risco: Apesar de por vezes considerado “menos forte” que opioides clássicos, o risco de sobredosagem existe, especialmente se combinado com outros depressores do SNC ou no contexto de polimedicação.
Notas: Monitorizar função renal/hepática, estado epiléptico, interações farmacológicas (ex: com inibidores de CYP450/recaptação de serotonina).
Pregabalina
Nome comercial: Lyrica®
Princípio activo (nome científico): Pregabalina
Indicação terapêutica: Neuropatia diabética, fibromialgia, dor neuropática periférica ou central, e como terapia adjunta em certas formas de epilepsia.
Laboratório produtor / nacionalidade: Pfizer / Eli Lilly (EUA) – dependendo da licença em cada mercado.
Atividade terapêutica: Liga-se à subunidade α₂δ dos canais de cálcio dependentes de voltagem no SNC, reduzindo a libertação de neurotransmissores excitatórios (glutamato, noradrenalina, substância P).
Inovador ou não: Na data da sua introdução constituiu avanço relativamente aos tratamentos existentes para dor neuropática e fibromialgia, podendo considerar-se inovador na sua classe.
Os gabapentinoides são uma classe de medicamentos derivados do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA), como a gabapentina (por exemplo, Neurontin) e a pregabalina (por exemplo, Lyrica). Embora tenham sido originalmente desenvolvidos para tratar convulsões, são atualmente usados para várias outras condições.
Principais efeitos secundários / adversos
Tonturas, sonolência, edema periférico, ganho de peso, secura na boca; em contexto de uso abusivo ou com depressão respiratória associada (ex: com opioides) observou-se aumento de risco de morte: o relatório europeu aponta que em alguns países a pregabalina/gabapentina estiveram presentes em mortes por intoxicação (euda.europa.eu).
Forma farmacêutica e posologia típica: Cápsulas de 25 mg, 50 mg, 75 mg, 100 mg, 150 mg, 200 mg, 300 mg. Posologia habitual para dor neuropática: 150 mg/dia, podendo aumentar para 300 mg/dia conforme tolerância e eficácia, muitas vezes distribuída em duas tomadas.
Observações de risco: Embora seja uma medicação importante, requer vigilância em pacientes com risco de abuso ou combinados com outros depresores do SNC.
Notas: Avaliação prévia de função renal e ajuste posológico se insuficiência renal.
Gabapentina
Nome comercial: Neurontin® (entre outros)
Princípio activo (nome científico): Gabapentina
Indicação terapêutica: Epilepsia (como terapia adjunta), dor neuropática periférica, síndrome das pernas inquietas.
Laboratório produtor / nacionalidade: original da Pfizer (EUA).
Atividade terapêutica: É análogo do GABA, embora não actue directamente nos recetores GABA; pensa-se que modula os canais de cálcio α₂δ, reduzindo excitabilidade neuronal.
Inovador ou não: Na altura da sua introdução foi relevante; actualmente é uma medicação padrão.
Principais efeitos secundários / adversos
Tonturas, sonolência, ataxia, ganho de peso, edema; existe evidência de que gabapentina está associada a efeitos adversos graves quando combinada com opioides ou em uso abusivo (o relatório da EMCDDA menciona “pregabalina ou gabapentina” detectadas em algumas mortes por intoxicação). euda.europa.eu
Forma farmacêutica e posologia típica: Comprimidos de 300 mg, 400 mg; cápsulas de 100 mg, 300 mg. Posologia para dor neuropática: iniciar 300 mg ao deitar, depois 300 mg de manhã + 300 mg à noite (600 mg/dia), podendo aumentar até 900–3600 mg/dia em 3 a 4 tomadas (varia segundo local e indicação).
Observações de risco: Importante monitorizar em casos de polimedicação, em especial com depressão respiratória potencial ou abuso de substâncias.
Notas: A sua utilização “off-label” deve ser feita com precaução e sob monitorização.
Conclusão
Este artigo procurou evidenciar que vários medicamentos de uso relativamente frequente, como opioides (oxycodona, tramadol), benzodiazepinas (alprazolam) e fármacos adjuvantes para dor ou sistema nervoso (pregabalina, gabapentina), envolvem riscos importantes de sobredosagem, efeitos adversos graves ou mortalidade, sobretudo quando utilizados em combinação com outros depressivos do sistema nervoso central, ou em situações de polimedicação, uso indevido ou vulnerabilidade do doente.
Os dados mostram que, embora prescritos legalmente, estes fármacos exigem sempre grande atenção clínica, nomeadamente, prescrição criteriosa, monitorização, avaliação de risco de dependência/abuso, e educação do doente. Em termos de saúde pública, as estatísticas de sobredosagem nos EUA e na Europa indicam que há margens para melhorar a segurança do uso de medicamentos prescritos, reforçar vigilância farmacológica e aplicar estratégias de redução de danos.
Se desejar, posso expandir este artigo para incluir mais medicamentos (por exemplo anti-arrítmicos, anticoagulantes, psicotrópicos) ou aprofundar-se em cada classe com tabelas comparativas de risco, evidência epidemiológica e directrizes de segurança.
Referências bibliográficas
- Prescription histories and dose strengths associated with overdose deaths. Pain Medicine. 2014;15(7):1187-93. OUP Academic
- A Study of Deaths Involving Oxycodone. J Forensic Sci. 1994;39(4):… PubMed
- Oxycodone-Related Deaths: The Significance of Pharmacokinetic and Pharmacodynamic Drug Interactions. Int J Legal Med. 2022;136(3):935-944. PMC. PubMed
- Risk of Overdose with Exposure to Prescription Opioids, Benzodiazepines, and Non-benzodiazepine Sedative-Hypnotics in Adults: a Retrospective Cohort Study. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2023720. PubMed
- Alprazolam is relatively more toxic than other benzodiazepines in overdose. Br J Clin Pharmacol. 2004;58(1):69-73. bps.ac.uk
- Benzodiazepines and Z-Drugs: An Updated Review of Major Adverse Outcomes Reported on in Epidemiologic Research. Front Psychiatry. 2017;8:48. PMC. PubMed
- Benzodiazepine prescribing patterns and deaths from drug overdose among US veterans receiving opioid analgesics: case-cohort study. BMJ. 2015;350:h2698. PubMed
- Long-term adverse effects of benzodiazepine use. Research, Society and Development. 2022;11(14):e131111536322. RSD Journal
- Drug-induced deaths – the current situation in Europe. European Drug Report 2025. EMCDDA/EUDA. 2025. euda.europa
- European Drug Report 2024: Trends and Developments. EMCDDA. 2024. IFGC

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