Tomar aspirina para evitar ataque cardíaco ou AVC sim ou não?

Aspirina para o coração será seguro?

O AVC (acidente vascular cerebral) e a doença cardíaca isquémica (ataque cardíaco) são duas das principais causas de morte e incapacidade a nível mundial. Em 2021 estimaram-se ≈12 milhões de novos AVC/ano e cerca de 94 milhões de pessoas viviam com sequelas de AVC; a carga global de doença cardiovascular continua elevada e diretamente ligada a fatores de risco modificáveis como hipertensão, tabagismo, diabetes, colesterol elevado e sedentarismo. Estas estimativas constam dos relatórios globais mais recentes sobre a carga do AVC e das doenças cardiovasculares. PubMed

Dado o enorme impacto, intervenções de prevenção (medicamentos e alterações de estilo de vida) são alvo de intensa investigação. A aspirina (ácido acetilsalicílico), por inibir a agregação plaquetária, foi durante décadas utilizada tanto em prevenção secundária (pessoas com doença isquémica comprovada) como, controversamente, em prevenção primária (pessoas sem doença conhecida). Nas secções seguintes explico causas, mecanismos, doses, evidência (até 2025), benefícios, riscos e recomendações práticas. PubMed

As cinco grandes mentiras sobre saúde
As cinco grandes mentiras sobre saúde

Índice

  1. Causas do AVC e do ataque cardíaco (resumo fisiopatológico)
  2. Justificação farmacológica: como a aspirina actua
  3. Evidência científica até 2025 — distinção clara: prevenção primária vs secundária
  4. Doses adequadas e regimes usados nos estudos
  5. Influência da idade e recomendações por faixas etárias
  6. Benefícios (o que a aspirina reduz)
  7. Riscos e efeitos adversos (sangramento, efeitos gastrointestinais, outros)
  8. Tomar aspirina: quando é claramente indicado (casos de prevenção secundária)
  9. Alternativas e abordagens complementares (outros fármacos, mudança de hábitos)
  10. Que hábitos mudar para reduzir risco de AVC e ataque cardíaco
  11. Conclusão-resumo
  12. Lista completa de fontes bibliográficas (principalmente PubMed / PMC)

Causas do AVC e do ataque cardíaco

  • AVC isquémico: resulta usualmente de oclusão de uma artéria cerebral por um trombo ou êmbolo, levando a isquémia do tecido neuronal. As principais causas incluem aterosclerose (placas arteriais que se ulceram), fibrilhação auricular (êmbolos cardioembólicos), estenose carotídea e doenças vasculopáticas menores. PubMed
  • Ataque cardíaco (enfarte do miocárdio): ocorre quando uma artéria coronária é obstruída — tipicamente por uma placa aterosclerótica que se rompe e forma um trombo que bloqueia o fluxo sanguíneo, causando necrose do músculo cardíaco. Os factores de risco partilhados incluem hipertensão, tabagismo, diabetes, hipercolesterolemia, obesidade e sedentarismo. PubMed

Como atua a aspirina

A aspirina inibe irreversivelmente a enzima cicloxigenase-1 (COX-1) nas plaquetas, reduzindo a produção de tromboxano A2, uma molécula potente que promove agregação plaquetária e vasoconstrição. Este efeito antiagregante diminui a tendência para formação de trombos arteriais — mecanismo plausível para reduzir eventos isquémicos arteriais (IAM, AVC isquémico). Contudo, o mesmo mecanismo aumenta risco de hemorragia (gastrointestinal e intracraniana). PubMed


Prevenção primária vs secundária

Prevenção secundária (pessoas com doença cardiovascular estabelecida):

  • Aqui a evidência é robusta e consistente: a aspirina (e outros antiagregantes) reduz mortalidade e eventos isquémicos recorrentes em doentes com enfarte prévio, stents, ou AVC isquémico prévio; está indicada salvo contra-indicações. (estes usos fazem parte das diretrizes cardiológicas). escardio European Society of Cardiology

Prevenção primária (pessoas sem doença cardiovascular diagnosticada):

  • A evidência contemporânea (ensaios randomizados grandes e meta-análises) mostra benefícios modestos na redução de eventos isquémicos (principalmente redução de IAM não fatal) mas aumento significativo do risco de hemorragias graves. Ensaios notáveis: ARRIVE, ASCEND, ASPREE (2018) e meta-análises subsequentes. Mais recentemente (2023–2025) meta-análises contemporâneas e revisões sistemáticas continuam a concluir que, em adultos sem doença previamente documentada, o benefício absoluto é pequeno e muitas guidelines recomenda que a toma rotineira não é indicada em população idosa e que a decisão em pessoas de risco intermédio deve ser individualizada. AhA The New England Journal of Medicine

Síntese prática da evidência (até 2025):

  • Prevenção secundária: claramente indicada. escardio.org
  • Prevenção primária: regra geral não iniciar aspirina rotineiramente em idosos (≥60–70 anos) devido a risco de sangramento; em adultos 40–59 com risco cardiovascular de 10-ano elevado (≥10%) a decisão pode ser individualizada após avaliação de risco/benefício e conversa médico-paciente — seguir recomendações como as da USPSTF e da literatura. Estudos e meta-análises recentes (até 2024–2025) reforçam a necessidade de personalização. us preventive services taskforce

Doses adequadas e regimes usados nos estudos

  • Nos grandes ensaios de prevenção primária e secundária a dose considerada “baixa” variou entre 75 mg e 100 mg por dia (em muitos países 81 mg ou 100 mg são doses comuns). Alguns estudos usaram 100 mg (ASPREE) ou 100 mg/81 mg; meta-análises consideram 75–100 mg/dia como dose eficaz para efeito antiagregante. nejm
  • Para prevenção secundária, o regime diário de baixa dose é padrão; em contextos agudos (síndromas coronários agudos) as doses iniciais de ataque são mais altas (por exemplo 150–300 mg de carga masticável) seguidas de dose baixa diária — isso foge ao âmbito de prevenção primária e requer prescrição hospitalar. escardio.org

Influência da idade na escolha

  • Idosos (≥60–70 anos): ensaios maiores (por ex. ASPREE) demonstraram ausência de benefício claro na prevenção de eventos cardiovasculares e aumento do risco de hemorragia e até achados preocupantes sobre mortalidade; por isso muitas agências (USPSTF 2022) recomendam não iniciar aspirina para prevenção primária em adultos ≥60 anos. Em pessoas que já tomam aspirina por prevenção primária e estiverem idosos, a decisão de interromper deve ser individualizada e discutida com o médico. nejm
  • Adultos de meia-idade (40–59 anos) com risco cardiovascular elevado: a USPSTF 2022 dá uma recomendação condicional (C): a decisão de iniciar pode ser considerada em quem tem risco 10-ano ≥10% mas apenas se o benefício estimado superar o risco de hemorragia; é fundamental avaliar risco de sangramento (história de úlcera, anticoagulação concomitante, etc.). us preventive services taskforce

Benefícios (o que a aspirina pode reduzir)

  • Redução relativa de eventos arteriais isquémicos (algumas análises mostram redução do risco de IAM não fatal e de eventos vasculares maiores de magnitude modesta). Em prevenção secundária o benefício é claro e clinicamente importante. Em prevenção primária o benefício absoluto tende a ser pequeno e muitas vezes compensado pelo risco de sangramento. AhA Journals

Riscos e efeitos adversos

  • Sangramento gastrointestinal (úlceras, hemorragia digestiva): risco aumentado; utilização concomitante de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), história de úlceras ou uso de corticosteroides aumenta ainda mais o risco. PubMed
  • Hemorragia intracraniana: risco aumentado — este é um dos eventos mais graves e que limita o uso em prevenção primária. PMC
  • Anemia crónica por perda sanguínea oculta e outras complicações relacionadas. Estudos com idosos reportaram aumento de anemia e de eventos hemorrágicos. nejm.org

Quem deve tomar aspirina

  • Sempre indicado (salvo contra-indicação) para prevenção secundária: pessoas com enfarte do miocárdio prévio, acidente vascular isquémico prévio (não-hemorrágico), angina instável, intervenção coronária percutânea com stent, e outras situações de aterotrombose documentada. Nestes doentes o benefício sobrepõe-se claramente ao risco de sangramento. escardio.org
  • Prevenção primária: regra geral não iniciar em idosos; em adultos mais jovens ou de meia-idade com risco cardiovascular elevado a decisão deve ser individualizada e tomada após avaliação do risco absoluto de doença cardiovascular a 10 anos versus risco de hemorragia. Para pessoas com diabetes a evidência (ASCEND) mostrou alguma redução de eventos vasculares mas com aumento dos sangramentos — novamente uma balança delicada. nejm

Alternativas e abordagens complementares

  • Outros fármacos: em prevenção secundária a terapêutica antiagregante pode incluir clopidogrel (e outros) conforme situação clínica; recentes estudos e análises (até 2024–2025) também investigam eficácia relativa de outros antiagregantes em determinados subgrupos — as escolhas dependem de condição clínica e risco de sangramento. (nota: não iniciar antiagregantes sem orientação médica). ASH Publications
  • Tratamento dos factores de risco: controlar hipertensão, dislipidemia, diabetes; cessação tabágica; perda de peso; exercício; dieta saudável; redução de consumo de álcool — muitas destas medidas têm impacto maior e mais seguro na redução do risco cardiovascular do que o início rotineiro de aspirina em indivíduos saudáveis. PubMed

Hábitos a mudar para evitar AVC e ataque cardíaco

As medidas com maior evidência de redução do risco:

  1. Controlar pressão arterial — é o factor único com maior impacto na redução de risco de AVC. Tratamento farmacológico se indicado e monitorização regular. PubMed
  2. Parar de fumar — reduz fortemente risco de enfarte e AVC. PubMed
  3. Controlar diabetes e glicemia — optimização da terapêutica e controlo glicémico. PubMed
  4. Dieta saudável — reduzir sal, gorduras saturadas e trans; aumentar frutas, vegetais, fibra e peixe. PubMed
  5. Atividade física regular — pelo menos 150 minutos/semana de atividade moderada ou equivalente. PubMed
  6. Perder peso se com excesso de peso/obesidade e tratar dislipidemia (estatinas quando indicadas) — estatinas reduzem risco de eventos isquémicos e têm favorável balança risco/benefício em prevenção primária em pacientes de risco elevado. escardio.org

Conclusão

  • Prevenção secundária: a aspirina continua a ser um pilar terapêutico para reduzir eventos recorrentes (IAM, AVC isquémico) em doentes com doença cardiovascular estabelecida. escardio.org
  • Prevenção primária: a evidência até 2025 mostra benefícios modestos e riscos mensuráveis (hemorragia). Em idosos (≥60–70 anos) a recomendação geral é não iniciar aspirina para prevenção primária. Em adultos mais jovens com risco cardiovascular significativo (p.ex. risco 10-ano ≥10%), a decisão pode ser individualizada após avaliação dos riscos (incluindo risco de sangramento) e discussão clínico-paciente. As guidelines (USPSTF 2022, revisões e meta-análises recentes) devem orientar a decisão. uspreventiveservicestaskforce.org
  • Recomendações práticas: não tome aspirina diariamente para “prevenir o coração” sem antes falar com o seu médico. Se tem doença cardíaca/AVC prévio, siga a terapêutica prescrita; se não tem doença, priorize controlo da tensão arterial, cessação de tabaco, controlo glicémico, estatinas quando indicadas e mudanças de estilo de vida — estas medidas geralmente trazem mais benefício e menos risco do que iniciar aspirina sem indicação clara. PubMed

Resumo esquematizado

❤️ O que está em causa

  • AVC e ataque cardíaco são principais causas de morte no mundo.
  • A aspirina reduz a agregação das plaquetas e diminui o risco de trombos, mas também aumenta o risco de hemorragia.

💊 Quando faz sentido tomar aspirina

Sim:

  • Pessoas que já tiveram enfarte, AVC isquémico ou colocação de stent.
    Prevenção secundária comprovada.

🚫 Não (em regra):

  • Pessoas sem doença cardiovascular conhecida.
    Prevenção primária raramente compensa o risco de sangramento, sobretudo em idosos (>60–70 anos).

📏 Doses utilizadas

  • Baixa dose diária: 75–100 mg/dia (única dose).
  • Nunca iniciar sem avaliação médica.

⚖️ Benefícios vs Riscos

Benefícios: pequena redução de eventos isquémicos.
Riscos: ↑ hemorragia gastrointestinal e cerebral, ↑ anemia.
👉 Em prevenção primária, o risco pode superar o benefício.


👵 A idade conta

  • Estudos como ASPREE, ASCEND e ARRIVE mostram que em idosos saudáveis a aspirina não previne enfarte nem AVC, e aumenta as hemorragias.
  • Decisão deve ser individualizada e médica.

🧠 Como realmente prevenir AVC e ataque cardíaco

  1. Controlar tensão arterial.
  2. Deixar de fumar.
  3. Controlar diabetes e colesterol.
  4. Fazer exercício regular.
  5. Alimentação mediterrânica.
  6. Manter peso saudável e evitar o stress crónico.

🩸 Conclusão

Tomar aspirina só é benéfico para quem já teve doença cardiovascular.
Em pessoas saudáveis, o risco de hemorragia pode ser maior que o benefício.
A decisão deve ser individualizada e feita com o médico.


📚 Fontes científicas

  • USPSTF 2022 — Aspirin Use for Prevention of CVD
  • NEJM 2018 — ASPREE, ASCEND, ARRIVE Trials
  • ESC 2021 — Guidelines on CVD Prevention
  • Lancet 2024 — GBD Stroke and CVD Updates

Fontes bibliográficas

Observação: incluí estudos randomizados grandes, meta-análises e recomendações de organismos oficiais até 2025.

  1. Feigin VL, et al. World Stroke Organization Global Stroke Fact Sheet 2025. (Relatório/PMC). PMC
  2. GBD 2019 Stroke Collaborators. Global, regional, and national burden of stroke and its risk factors (Lancet/GBD). 2021/2024 updates. PubMed
  3. U.S. Preventive Services Task Force. Aspirin Use to Prevent Cardiovascular Disease — Recommendation Statement. Apr 26, 2022. (USPSTF). uspreventiveservicestaskforce.org
  4. McNeil JJ, et al. ASPREE Investigators. Effect of aspirin on cardiovascular events and bleeding in the healthy elderly. NEJM 2018 (ASPREE). nejm.org
  5. ASCEND Study Collaborative Group. Effects of aspirin for primary prevention in persons with diabetes. NEJM 2018 / PMC. PubMed
  6. Gaziano JM, et al. ARRIVE trial (aspirin for primary prevention in moderate-risk). NEJM 2018. PubMed
  7. Christiansen M, et al. Primary prevention of cardiovascular events with aspirin — systematic review and meta-analysis. 2019. PubMed
  8. Recent meta-analyses and reviews (2023–2025) sobre aspirina em prevenção primária (ex.: revisões 2024–2025 que sintetizam ASPREE/ASCEND/ARRIVE): artigos em PubMed/PMC que concluem benefício modesto e aumento de hemorragias. Exemplos: Kim KH 2024 meta-analysis; Caldeira D 2025 meta-analysis/discussões. PubMed
  9. European Society of Cardiology — Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice (2021; actualizações e orientações relacionadas). escardio.org
  10. American Heart Association / estatements and reviews summarising aspirin evidence (2022–2024 reviews). AhA Journals

Nota final e recomendação prática

Se está a ponderar tomar aspirina regularmente para “proteger o coração”, o passo mais seguro é marcar com o seu médico para calcular o seu risco cardiovascular global (por exemplo risco a 10 anos), avaliar risco de hemorragia (história de úlcera, anticoagulação, hepatopatia, etc.) e decidir em conjunto. Para a maioria das pessoas sem doença prévia, priorizar o controlo da pressão arterial, cessar tabaco, tratar colesterol e adoptar hábitos saudáveis traz mais benefício e menos risco do que iniciar aspirina de rotina.