O ressonar é extremamente frequente na população adulta. Estudos populacionais mostram percentagens variáveis — dependentes da definição usada (ressonar ocasional, habitual, ou associado a apneia) — mas prevalências de ressonar habitual na ordem dos 10–30% em adultos não são invulgares, com homens a ressonar mais que mulheres. Além disso, o ressonar pode ser apenas um sintoma de doença mais grave: a apneia obstrutiva do sono (AOS), que está associada a aumento do risco cardiovascular, acidentes e redução da qualidade de vida. PubMed
Estudo: The prevalence of snoring in adult population
Índice
- O que é o ressonar: fisiologia básica
- Causas e factores de risco
- Quando o ressonar significa apneia (paragens respiratórias): sinais de alarme
- Perigos e consequências para a saúde (curto e longo prazo)
- Diagnóstico (quando e como avaliar)
- Como evitar e tratar de forma natural (mudanças de hábitos)
- Tratamentos não farmacológicos (posicionais, dispositivos orais, CPAP, cirurgia)
- Uso de medicamentos: quando e quais (e precauções)
- Melhor posição para dormir e características da almofada que ajudam a reduzir o ressonar
- Recomendações práticas para o dia a dia
- Conclusão e resumo
- Lista completa de fontes bibliográficas científicas
O que é o ressonar?
Fisiologia básica
Ressonar é o som produzido pela vibração dos tecidos das vias aéreas (nariz, palato mole, úvula, faringe) durante o sono quando o fluxo de ar é parcialmente obstruído. O estreitamento das vias aéreas durante o sono faz com que o ar em passagem provoque vibrações que geram o som do ressonar. Em muitos casos o ressonar é isolado e apenas incómodo para o parceiro; noutros está associado a colapsos mais importantes da via aérea (apneias ou hipopneias). Explicação fisiológica baseada em literatura de revisão sobre sleep-disordered breathing. PubMed
Estudo: The Diagnosis and Treatment of Snoring in Adults
Causas e factores de risco
Principais causas e factores que favorecem o ressonar:
- Excesso de peso e obesidade –> a gordura perofaríngea reduz o calibre da via aérea. PubMed Estudo: Effect of an Interdisciplinary Weight Loss and Lifestyle Intervention on Obstructive Sleep Apnea Severity
- Anatomia da via aérea –> amígdalas grandes, palato longo, retrognatia, desvio septal nasal. PubMed
- Idade e sexo –> prevalência aumenta com a idade; mais prevalente nos homens e nas mulheres a partir da menopausa. PubMed
- Consumo de álcool e sedativos antes de deitar –> relaxam músculos faríngeos. PubMed
- Tabagismo –> inflamação das vias aéreas. PubMed
- Congestão nasal crónica, rinites e alergias. PubMed
Ressonar e apneia obstrutiva do sono (paragens respiratórias)
Sinais que sugerem apneia obstrutiva do sono (AOS):
- Pausas respiratórias observadas pelo parceiro;
- Sonolência diurna marcante, queda de atenção, “adormecer ao volante”;
- Acordar com sensação de asfixia ou com dor de cabeça matinal;
- Irritabilidade, depressão, perdas cognitivas progressivas.
Se existirem estes sinais, deve procurar-se avaliação especializada (estudo do sono/ polissonografia). A apneia obstrutiva do sono é a condição em que há episódios repetidos de obstrução da via aérea (apneia ou hipopneia) durante o sono. PubMed
Perigos e consequências para a saúde
O ressonar associado a apneia obstrutiva do sono tem implicações importantes:
- Aumento do risco de hipertensão e de eventos cardiovasculares (enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca). Estudo: Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease: Role of the Metabolic Syndrome and Its Components
- Maior risco de acidente vascular cerebral (AVC). Estudo: Snoring Is Associated With Increased Risk of Stroke: A Cumulative Meta-Analysis
- Diabetes e resistência à insulina associadas à fragmentação do sono e ao aumento da inflamação. PubMed
- Redução da qualidade de vida, memória e concentração, aumento do risco de acidentes. PubMed
Nota: mesmo o ressonar sem AOS pode estar associado a riscos aumentados (dados observacionais), pelo que o contexto clínico e avaliação são importantes. Nature Estudo: Regular snoring is associated with uncontrolled hypertension
Diagnóstico
Quando e como avaliar?
- Avaliação inicial: história clínica (sono, sonolência, pausas respiratórias), exame ENT (vias nasais, orofaringe), índice de massa corporal.
- Testes: dispositivos de rastreio domiciliário (monitorização respiratória), ou polissonografia em laboratório para confirmar e quantificar o índice de apneia-hipopneia (AHI –> apnea–hypopnea index ).
- Encaminhamento para pneumologia/sono ou otorrinolaringologia conforme resultados.
Tratamento natural
Como evitar e tratar de forma natural?
Descrevo de seguida as principais mudanças de estilo de vida frequentemente recomendadas e com evidência de benefício:
- Perda de peso –> mesmo reduções moderadas de peso diminuem o índice apneia-hipopneia (AHI) e o ressonar ou seja intervenções estruturadas mostram melhoria clínica. PubMed
- Evitar álcool e sedativos antes de dormir –> estes reduzem o tônus da via aérea e aumentam o ressonar e apneias. PubMed
- Deixar de fumar –> a cessação tabágica reduz a inflamação e congestão das vias aéreas. PubMed
- Melhorar higiene do sono –> horários regulares, ambiente escuro e calmo; evitar refeições pesadas à noite e próximas da hora de deitar.
- Exercício físico –> provoca melhoria geral do sono, controlo de peso e redução da gravidade da apneia obstrutiva do sono mesmo sem perda de peso substancial. PubMed
- Terapia miofuncional (exercícios orofaríngeos) –> alguns estudos mostram redução do ressonar e do indice apneia-hipopneia (AHI) com fortalecimento dos músculos da língua e faringe. A evidência cresce, sendo recomendada como adjuvante para casos selecionados. PubMed Estudo: European Respiratory Society guideline on non-CPAP therapies for obstructive sleep apnoea
Tratamentos não farmacológicos
Posicionais, dispositivos orais, pressão positiva contínua (CPAP), cirurgia
- Terapia posicional (positional therapy): para pessoas cuja apneia obstrutiva do sono é muito dependente da posição supina (apneias muito mais frequentes de costas ) ou decúbito dorsal, onde a pessoa fica deitada de costas com a cabeça e os ombros ligeiramente elevados. Existem dispositivos e estratégias para evitar dormir sobre as costas; meta-análises mostram benefício em casos posicionais, embora menos eficaz que CPAP nos AOS moderado-grave. PubMed Estudo: The undervalued potential of positional therapy in position–dependent snoring and obstructive sleep apnea—a review of the literature
- Elevar a cabeceira / dormir inclinado: alguns estudos e intervenções digitais mostraram redução do ressonar e melhoria do sono. PubMed Estudo: Sleeping in an Inclined Position to Reduce Snoring and Improve Sleep: In-home Product Intervention Study
- Almofadas específicas: existem estudos que testaram almofadas com desenho para abrir a orofaringe e reduzir o ressonar — resultado promissor em alguns protótipos, mas a evidência ainda não é massiva; escolha de almofada deve focar suporte cervical e manter alinhamento. PubMed
- Dispositivos de avanço mandibular (DAM / MAD): aparelhos dentários que avançam a mandíbula e aumentam o espaço faríngeo; recomendados para AOS ligeiro-moderado e para reduzir o ressonar. Guias clínicos (AASM/ERS) suportam o seu uso em pacientes selecionados. PubMed Estudo: Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Snoring with Oral Appliance Therapy: An Update for 2015
- Pressão positica contínua (CPAP): tratamento de referência para AOS moderado-grave — reduz apneias, melhora sono e diminui riscos cardiovasculares quando usado corretamente. No entanto, para ressonar isolado ou AOS ligeiro existem alternativas. (Guias e evidência). PubMed Estudo: European Respiratory Society guideline on non-CPAP therapies for obstructive sleep apnea
- Cirurgia: indicada em casos anatómicos (amígdalas muito grandes, desvio septal, colapso faríngeo) quando outras medidas falham. Avaliação por ENT é essencial.
Tiras nasais
As tiras nasais do tipo Breathe Right® podem ser eficazes, mas o grau de benefício depende da causa do ressonar ou da obstrução nasal.
✅ Como atuam
- São tiras adesivas colocadas transversalmente sobre o dorso do nariz.
- Possuem uma pequena “mola” flexível que, ao tentar voltar à sua forma original, puxa suavemente as asas nasais para fora.
- Este efeito alarga mecanicamente a válvula nasal (a parte mais estreita das vias respiratórias superiores), reduzindo a resistência ao fluxo de ar.
- O resultado é uma respiração nasal mais fácil, sobretudo em pessoas com congestão nasal, desvio do septo ou colapso da válvula nasal.
📊 Eficácia (com base em estudos)
- Reduzem a resistência nasal e melhoram o fluxo aéreo em doentes com obstrução nasal documentada.
- Podem diminuir o ressonar em pessoas cujo problema está relacionado com obstrução nasal (e não faríngea).
- Contudo, não são eficazes em casos de apneia obstrutiva do sono moderada a grave, já que o colapso ocorre sobretudo na faringe.
- Ensaios clínicos mostraram melhorias subjetivas na respiração e no sono do parceiro, mas os efeitos são variáveis e geralmente modestos.
📌 Em resumo:
- Funcionam melhor em ressonadores ocasionais ou leves, ligados a nariz entupido.
- São pouco eficazes para apneia obstrutiva do sono significativa (a causa está mais atrás na garganta).
- Podem ser úteis como complemento, mas não substituem avaliação médica quando há pausas respiratórias noturnas ou sonolência diurna.
A partir da literatura:
- As tiras nasais externas (como Breathe Right) podem ajudar a diminuir o ressonar, melhorar a sensação de respirar pelo nariz, diminuir a secura da boca e algo da sonolência diurna — especialmente em pessoas sem apneia do sono significativa, ou com apneia ligeira, ou cujo ressonar esteja bastante ligado à obstrução nasal ou ao estreitamento da válvula nasal.
- Contudo, em casos de apneia moderada a grave, os estudos apontam que não há melhoria significativa nos parâmetros objetivos mais importantes como o índice apneia-hipopneia (AHI) ou desaturações de oxigénio. O tratamento de referência para esses casos continua a ser CPAP ou outras intervenções mais fortes.
- Também há boas evidências de que os benefícios subjetivos (como melhorar sensação de sono, diminuir desconforto, etc.) muitas vezes têm componente placebo ou dependem muito das expectativas, mas isso não significa que não sejam reais para quem os sente.
Medicamentos
Os fármacos têm papel limitado e específico; a principal terapêutica é mecânica/posicional e alterações de estilo de vida. Sempre discutir com médico. PubMed
- Não há fármacos aprovados especificamente para “parar o ressonar”. Alguns fármacos são estudados para AOS ou para sintomas associados:
- Inibidores da anidrase carbónica (ex.: acetazolamida) têm sido estudados em contextos específicos (altitude, e como adjuvantes) e aparecem nas recomendações da ERS para situações selecionadas — não são uma solução de rotina. PubMed
- Modafinil / armodafinil podem ser usados para tratar sonolência residua apesar do tratamento da AOS (ex.: em doentes sob CPAP com sonolência persistente) — tratam a sonolência, não as apneias.
- Antagonistas sedativos e hipnóticos geralmente pioram a obstrução e não são recomendados se houver suspeita de AOS.
Melhor posição para dormir
Posição para dormir
- Dormir de lado (posição lateral) reduz frequentemente o ressonar e apneias em pessoas com apneia obstrutiva do sono posicional, porque evita o colapso posterior da língua e palato que ocorre quando se dorme de costas. Posicionais (evitar supino) são muitas vezes o primeiro passo. PubMed
- Elevar a cabeceira (15–30°) ou usar uma cama/inclinação pode reduzir o ressonar em alguns estudos. PubMed
Almofada melhores características
- Suporte cervical adequado: manter a cabeça e pescoço alinhados com a coluna; evitar almofadas demasiado altas (que dobram o pescoço) ou demasiado baixas. Estudos sobre almofadas desenhadas para reduzir snoring sugerem que designs que mantêm posição da cabeça e abrem a orofaringe podem ajudar. PUbMed
- Altura ajustável: permite adaptar a almofada à posição (lateral vs. supino).
- Material respirável e hipoalergénico: reduz congestão alérgica, que pode agravar o ressonar.
- Formato ergonómico: almofadas em cunha, com recortes ou com suporte cervical reforçado podem ajudar a manter a via aérea mais patente; há almofadas inclinadas/anti-ronco no mercado com evidência variável. PubMed
Recomendações práticas para o dia a dia
- Se ressonas é ocasional e não tens sonolência diurna nem pausas respiratórias observadas –> começar por mudanças de hábitos (perda de peso se necessário, evitar álcool antes de dormir, melhorar higiene do sono, dormir de lado).
- Se o parceiro reporta pausas respiratórias, ou tens sonolência diurna marcada: –> procurar avaliação médica (estudo do sono).
- Considerar terapia posicional ou almofada inclinada com elevação da cabeceira como tentativa inicial não invasiva. PubMed
- Para apneia obstrutiva do sono confirmada –> discutir com especialista opções como CPAP, dispositivo de avanço mandibular, cirurgia ou terapias combinadas conforme gravidade e anatomia. PubMed
Concluindo
O ressonar é muito frequente e, embora por vezes inofensivo, pode ser sinal de apneia obstrutiva do sono, uma condição com claras implicações cardiovasculares, metabólicas e de qualidade de vida. A avaliação clínica é essencial quando há sinais de alarme (pausas respiratórias observadas, sonolência diurna). Medidas naturais e de estilo de vida (perda de peso, evitar álcool, parar de fumar, exercício, dormir de lado) são a base do tratamento e têm evidência de benefício. Para apneia obstrutiva do sono confirmada, o CPAP continua a ser o padrão ouro para casos moderados a graves, enquanto dispositivos orais e terapias posicionais são alternativas válidas em casos selecionados. A medicação tem papel muito limitado e deve ser sempre considerada por um especialista. PubMed
Fontes bibliográficas
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Biblografia sobre tiras nasais
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Djupesland, P. G., Skatvedt, O., & Lyberg, T. (1997). The nasal dilator strip in the treatment of snoring. A clinical study. Acta Otolaryngol, 117(4), 596–599. doi:10.3109/00016489709113440
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