Autismo e uso de paracetamol ou acetaminofeno na gravidez

Autismo e paracetamol ou acetaminofeno na gravidez, qual o perigo?

Autismo e utilização de paracetamol ou acetaminofeno na gravidez, qual o perigo? As autoridades de saúde norte americanas levantam preocupações sobre o uso por parte de mulheres grávidas de paracetamol, o ingrediente ativo, por exemplo, do Ben-u-ron e Tylenol que são algumas das marcas mais conhecidas com que este fármaco é comercializado e um dos medicamentos mais utilizados a nível global.

Neste artigo descrevo as evidências científicas credíveis para que possa, se necessário, tomar decisões mais informadas sobre esta polémica. Sobre a definição, diagnóstico, sinais e fatores de risco do autismo destaco o seguinte artigo de interesse:

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Autismo: O que é, quais os sinais, causas e fatores de risco desta doença tão limitante!

Causa da polémica

Segundo o jornal Público, os responsáveis norte americanos têm revisto investigações anteriores — incluindo uma revisão científica de Agosto conduzida por cientistas das universidades de Monte Sinai e de Harvard (Estados Unidos) — que indicam uma possível associação entre o uso deste medicamento no início da gravidez e um risco acrescido de autismo nas crianças. O plano passará por alertar as mulheres grávidas contra o uso de Tylenol no início da gravidez, a menos que apresentem febre, avançaram as quatro pessoas ouvidas pelo jornal The Washington Post.

Especialistas ouvidos pelo jornal The Washington Post enfatizam que o autismo não é uma epidemia e que parte deste aumento de casos se deve a uma melhor triagem, maior consciencialização e critérios de diagnósticos mais amplos. O rastreio do autismo é comum nos consultórios pediátricos, o que não acontecia há décadas e significa que mais casos são diagnosticados, como explicou Charles Nelson, professor de Pediatria e Neurociências no Hospital Infantil de Boston e na Escola Médica de Harvard. Os critérios de diagnósticos do autismo também foram ampliados para incluir sintomas mais leves e subtis.

Paracetamol durante a gravidez evidência científica

A Ordem dos Farmacêuticos Portugueses na sua função de suporte à intervenção profissional, publicou uma nota no seu boletim “Essencial OF” relativo a este polémico tema da utilização de paracetamol na gravidez e à sua possível ligação com casos de autismo e alterações do neurodesenvolvimento na infância.

Descrevo de seguida o conteúdo dessa informação pela sua extraordinária fiabilidade científica e relevância na clarificação das populações.

Nota informativa da Ordem dos Farmacêuticos

paracetamol é um fármaco analgésico e antipirético considerado de eleição para alívio da dor e da febre durante a gravidez. A maioria dos estudos aponta para que 40-65% das mulheres tomem paracetamol em alguma altura da gravidez.  

A associação entre a ocorrência de alterações do neurodesenvolvimento, nomeadamente transtorno de hiperatividade e défice de atenção (THDA) e perturbações do espetro do autismo (PEA), como consequência do uso de paracetamol no decurso da gravidez tem vindo a ser investigada desde há largos anos, com resultados inconsistentes. Alguns estudos têm apontado para a existência de uma maior incidência de THDA e PEA em filhos de mulheres que utilizaram paracetamol durante a gravidez, enquanto vários outros não o confirmam.1

A existência de uma relação causal entre o uso de paracetamol durante a gravidez e a ocorrência de alterações do neurodesenvolvimento nas crianças expostas foi recentemente anunciada, tendo por base estudos que supostamente sustentam esta afirmação.2 Porém, estes trabalhos não aportam evidência científica que proporcione suporte a esta alegação. 

Os estudos citados são maioritariamente de pequena dimensão, apresentando assinaláveis limitações metodológicas no seu desenho e nas conclusões formuladas com base nos dados recolhidos. Adicionalmente, não consideram adequadamente a presença de outros fatores que podem influenciar o risco de TADH e PEA, como fatores genéticos, ambientais, condição clínica materna, entre outros.3,4,5 Por outro lado, os próprios autores da recente revisão sistemática que é citada referem que a sua análise apresenta limitações que não permitem estabelecer uma relação causal entre o uso de paracetamol durante a gravidez e alterações do neurodesenvolvimento.6 

O estudo de maior dimensão realizado sobre esta questão, realizado na Suécia, que analisou uma população de cerca de 2,5 milhões de crianças e recolheu dados de quase 186 000 que foram expostas ao paracetamol durante a gestação, não encontrou evidência de risco aumentado quando, além da exposição ao fármaco, foram considerados fatores genéticos e ambientais, através da comparação com irmãos que não haviam sido expostos ao paracetamol no período pré-natal.7 

A análise da evidência atual permite concluir que é improvável que a exposição ao paracetamol durante a gestação se associe a um risco clinicamente significativo de desenvolver THDA ou PEA durante a infância. Os estudos que sugerem a existência desta associação são heterogéneos e apresentam importantes limitações metodológicas, enquanto os que têm uma estrutura adequada não o comprovam.  

Com base na análise dos dados atualmente existentes, não existe qualquer fundamento científico para alterar as normas de prática clínica de tratamento da dor e da febre durante a gravidez. O paracetamol mantém-se uma opção de tratamento essencial em mulheres grávidas, observando o princípio da utilização da menor dose eficaz pelo período mais curto. 


Referências bibliográficas

1. Damkier P, Gram EB, Ceulemans M, Panchaud A, Cleary B, Chambers C, Weber-Schoendorfer C, Kennedy D, Hodson K, Grant KS, Diav-Citrin O, Običan SG, Shechtman S, Alwan S. Acetaminophen in Pregnancy and Attention-Deficit and Hyperactivity Disorder and Autism Spectrum Disorder. Obstet Gynecol. 2025 Feb 1;145(2):168-176. doi: 10.1097/AOG.0000000000005802.  

2. The White House. FACT: Evidence Suggests Link Between Acetaminophen, Autism. September 22, 2025 [acedido a 23-09-2025]. Disponível em: 
https://www.whitehouse.gov/articles/2025/09/fact-evidence-suggests-link-between-acetaminophen-autism/

3. Liew Z, Kioumourtzoglou MA, Roberts AL, O’Reilly ÉJ, Ascherio A, Weisskopf MG. Use of Negative Control Exposure Analysis to Evaluate Confounding: An Example of Acetaminophen Exposure and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Nurses’ Health Study II. Am J Epidemiol. 2019 Apr 1;188(4):768-775. doi: 10.1093/aje/kwy288.  

4. Ji Y, Azuine RE, Zhang Y, Hou W, Hong X, Wang G, Riley A, Pearson C, Zuckerman B, Wang X. Association of Cord Plasma Biomarkers of In Utero Acetaminophen Exposure With Risk of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Autism Spectrum Disorder in Childhood. JAMA Psychiatry. 2020 Feb 1;77(2):180-189. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2019.3259.  

5. Baker BH, Burris HH, Bloomquist TR, Boivin A, Gillet V, Larouche A, Takser L, Bellenger JP, Pasquier JC, Baccarelli AA. Association of Prenatal Acetaminophen Exposure Measured in Meconium With Adverse Birth Outcomes in a Canadian Birth Cohort. Front Pediatr. 2022 Apr 5;10:828089. doi: 10.3389/fped.2022.828089.  

6. Prada D, Ritz B, Bauer AZ, Baccarelli AA. Evaluation of the evidence on acetaminophen use and neurodevelopmental disorders using the Navigation Guide methodology. Environ Health. 2025 Aug 14;24(1):56. doi: 10.1186/s12940-025-01208-0.  

7. Ahlqvist VH, Sjöqvist H, Dalman C, Karlsson H, Stephansson O, Johansson S, Magnusson C, Gardner RM, Lee BK. Acetaminophen Use During Pregnancy and   Children’s Risk of Autism, ADHD, and Intellectual Disability. JAMA. 2024 Apr 9;331(14):1205-1214. doi: 10.1001/jama.2024.3172.  

8. What we know (and don’t know) about autism, according to science (The Washington Post)

9. Autismo e Asperger sinais e novas descobertas