Fazer uma tatuagem significa introduzir milhares de pequenas partículas de pigmento na derme, uma camada da pele situada abaixo da epiderme. É precisamente por serem depositadas nesta camada mais profunda que as tatuagens podem permanecer visíveis durante décadas. Mas esta permanência também significa que tatuar não é simplesmente “pintar a pele”: é um procedimento invasivo que rompe repetidamente a barreira cutânea e introduz substâncias estranhas no organismo.¹⁻³ Este artigo aborda precisamente as tatuagens riscos cuidados e como remover.
Na maioria das pessoas, quando a tatuagem é realizada por um profissional qualificado, com material esterilizado, tintas regulamentadas e cuidados posteriores adequados, a cicatrização decorre sem complicações importantes.
No entanto, existem riscos: infeções bacterianas, hepatites transmitidas pelo sangue, reações alérgicas, granulomas, cicatrizes e queloides, exacerbação de doenças dermatológicas e dificuldades futuras na avaliação de sinais ou melanomas.¹˒⁴⁻⁸
Existe ainda uma questão científica particularmente interessante: parte dos pigmentos não permanece exclusivamente na pele. Foram identificadas partículas de pigmento, metais e dióxido de titânio nos gânglios linfáticos regionais de pessoas tatuadas.⁹ A relevância clínica a longo prazo desta migração continua, porém, por esclarecer.
E quanto ao cancro? Apesar de alguns estudos observacionais recentes terem levantado hipóteses sobre linfomas e outras neoplasias, a evidência disponível não permite afirmar que as tatuagens causem cancro. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 não encontrou associação estatisticamente significativa com cancro cutâneo nem, na análise principal, com neoplasias hematológicas.¹⁰ É um bom exemplo da diferença entre encontrar uma associação num estudo e demonstrar causalidade.
Se decidir fazer uma tatuagem, faça-a de forma informada e tão segura quanto possível.
Índice
- O que acontece à pele quando fazemos uma tatuagem?
- Para onde vai a tinta?
- Quais são os principais riscos?
- Que infeções podem ser transmitidas?
- As tintas podem provocar alergias?
- Que doenças dermatológicas podem aparecer ou agravar-se?
- Tatuagens e cancro: existe realmente risco?
- Porque não se deve tatuar por cima de sinais?
- Quem deve ter cuidados especiais?
- Como escolher um estúdio e um tatuador seguros?
- O que fazer antes da tatuagem?
- Cuidados imediatamente após a tatuagem
- O que evitar durante a cicatrização
- Como reconhecer uma tatuagem infetada
- Sol e tatuagens
- Tatuagens e ressonância magnética
- Arrependimento: é possível apagar uma tatuagem?
- Laser Q-switched ou laser de picossegundos?
- Porque algumas cores são mais difíceis de remover?
- Métodos de remoção que devem ser evitados
- Checklist final para uma tatuagem mais segura
- Conclusão
O que acontece à pele quando fazemos uma tatuagem?
Uma tatuagem permanente é produzida através da introdução repetida de pigmentos na derme, utilizando agulhas que perfuram a barreira cutânea muitas vezes por segundo. O organismo reconhece parte desse material como estranho e desencadeia uma resposta inflamatória e imunitária.¹˒³
Porque é que a tatuagem não desaparece?
A epiderme renova-se continuamente. Se a tinta permanecesse apenas nesta camada superficial, desapareceria progressivamente.
Na tatuagem permanente, os pigmentos atingem a derme. Parte das partículas fica retida no tecido e no interior de células, incluindo macrófagos, permitindo que o desenho permaneça durante muitos anos.
Ilustração em corte da pele mostrando:
agulha → epiderme → derme → depósito do pigmento → macrófagos → pequena migração de partículas para vasos linfáticos
SUPERFÍCIE DA PELE
────────────────────────────────────────
EPIDERME
↕ renovação contínua
────────────────────────────────────────
↓ agulha
↓
DERME
● ● ● ● ● ● ● ●
pigmentos da tinta
↑ células imunitárias
────────────────────────────────────────
TECIDO SUBCUTÂNEO
Para onde vai a tinta?
Um dos conceitos mais importantes — e menos conhecidos — é que nem todo o pigmento permanece no local onde foi introduzido.
Estudos utilizando técnicas avançadas de análise identificaram pigmentos orgânicos, metais e partículas de dióxido de titânio não apenas na pele tatuada, mas também nos gânglios linfáticos que drenam essa região.⁹
As partículas de menor dimensão parecem apresentar maior capacidade de migração.⁹
Isto demonstra que existe exposição biológica para além da própria pele. É essencial não transformar este facto numa conclusão que a ciência ainda não permite: encontrar pigmentos nos gânglios não significa automaticamente que provoquem doença, embora seja claro que não é uma circunstância positiva!
Os efeitos sistémicos da exposição durante décadas continuam a ser objeto de investigação.¹˒⁹
Quais são os principais riscos?
As complicações podem surgir imediatamente, durante as semanas seguintes ou, em alguns casos, meses ou anos depois.¹˒³˒⁸
Principais complicações das tatuagens
| Problema | Manifestação habitual | Importância |
|---|---|---|
| Infeção | dor, calor, pus, vermelhidão | Pode necessitar antibiótico |
| Alergia | comichão, eczema, edema | Pode tornar-se crónica |
| Granuloma | pequenos nódulos | Reação ao pigmento |
| Queloide | cicatriz exuberante | Pode ser permanente |
| Alteração pigmentária | pele mais clara/escura | Mais frequente após laser |
| Koebner | aparecimento de dermatose | Psoríase, líquen plano, vitiligo |
| Problemas de diagnóstico | sinal escondido pela tinta | Pode dificultar deteção de melanoma |
Que infeções podem ser transmitidas?
Ao perfurar repetidamente a pele, a tatuagem cria milhares de pequenas portas de entrada para microrganismos.
As infeções podem resultar de agulhas ou equipamento contaminados, falhas de higiene, manipulação inadequada durante a cicatrização ou até de tintas contaminadas. A FDA documentou contaminação microbiológica inclusivamente em recipientes de tinta fechados.¹˒²
Entre as infeções bacterianas encontram-se as provocadas por Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes e, mais raramente, micobactérias não tuberculosas.³˒⁴
Quando existe reutilização de material contaminado com sangue, existe potencial para transmissão de vírus como:
- vírus da hepatite B;
- vírus da hepatite C;
- VIH.
Uma meta-análise encontrou associação entre tatuagens e maior prevalência de hepatite C, particularmente em contextos onde os procedimentos não eram realizados em condições profissionais e higiénicas adequadas.⁵
Nas práticas profissionais modernas, com agulhas descartáveis e normas rigorosas de controlo de infeção, o risco é substancialmente menor.³
Uma tinta nova não é necessariamente uma tinta estéril
Este é um detalhe importante.
A infeção não depende apenas da agulha. Já foram identificados microrganismos em tintas comerciais, razão pela qual a qualidade, origem, armazenamento e rastreabilidade das tintas também são fundamentais.¹˒²
As tintas podem provocar alergias?
Sim. As reações alérgicas podem surgir imediatamente, mas também semanas, meses ou até anos depois da tatuagem.¹˒¹¹
A cor historicamente mais associada a reações crónicas é o vermelho, embora qualquer pigmento possa estar envolvido.³˒¹¹
Foram identificados pigmentos azo, compostos orgânicos e vestígios de metais, incluindo níquel e crómio, em tintas e em algumas reações cutâneas.¹¹˒¹²
Curiosamente, os testes cutâneos convencionais nem sempre conseguem identificar o alergénio responsável. Uma explicação possível é que determinadas substâncias alergénicas se formem apenas posteriormente, dentro da pele, através da transformação química ou fotoquímica dos pigmentos.¹³
Por isso, realizar previamente um pequeno “teste” com tinta não garante que nunca surgirá alergia.¹³
Atenção às tatuagens vermelhas
Uma reação persistente exclusivamente sobre uma determinada cor — especialmente vermelho — acompanhada de:
- comichão intensa;
- pele elevada;
- descamação;
- nódulos;
- inflamação persistente
deve ser avaliada por Dermatologia.
Que doenças dermatológicas podem aparecer ou agravar-se?
A agressão mecânica provocada pela tatuagem pode desencadear o chamado fenómeno de Koebner: aparecimento de lesões de uma determinada doença dermatológica precisamente numa região previamente traumatizada.¹⁴
Está particularmente descrito em:
- psoríase;
- líquen plano;
- vitiligo.¹⁴
Em pessoas com psoríase, por exemplo, podem aparecer placas seguindo exatamente as linhas da tatuagem. Estudos sugerem maior probabilidade de complicações quando a doença se encontra ativa.¹⁵
Também estão descritas reações granulomatosas e manifestações semelhantes à sarcoidose. Em alguns casos, alterações granulomatosas numa tatuagem podem justificar investigação de eventual doença sistémica.¹⁶
Tatuagens e cancro: existe realmente risco?
Esta é provavelmente uma das questões que mais preocupação suscita e merece uma resposta rigorosa.
Algumas tintas podem conter ou originar compostos potencialmente preocupantes do ponto de vista toxicológico. Por esse motivo, a União Europeia restringiu através do regulamento REACH milhares de substâncias perigosas em tintas de tatuagem e maquilhagem permanente, incluindo determinados compostos classificados como carcinogénicos, mutagénicos, tóxicos para a reprodução ou sensibilizantes.¹⁷
Isso, porém, não significa que esteja demonstrado que fazer uma tatuagem provoca cancro.
Foram publicados casos de melanoma, carcinoma espinocelular, carcinoma basocelular e outras neoplasias em pele tatuada. Uma revisão sistemática de 2024 identificou 160 tumores cutâneos descritos dentro de tatuagens na literatura científica.⁷
Relatos de casos não conseguem, contudo, provar causalidade.
Mais importante ainda, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, reunindo sete estudos observacionais e 140 841 participantes, não encontrou associação estatisticamente significativa entre tatuagens e risco global de cancro da pele (OR 0,92; IC95% 0,83–1,04). Também não encontrou associação significativa com neoplasias hematológicas na análise principal.¹⁰
Existe, portanto, investigação em curso, mas neste momento a mensagem cientificamente correta é:
Não existe evidência suficiente para afirmar que as tatuagens causam cancro. Os possíveis efeitos carcinogénicos a muito longo prazo continuam, contudo, sob investigação.
Porque não se deve tatuar por cima de sinais?
Este risco é muito mais concreto.
Uma tatuagem escura pode dificultar a observação da cor, dos limites e da evolução de um nevo melanocítico — vulgarmente chamado sinal.⁶˒¹⁸
O pigmento pode ainda tornar a dermatoscopia mais difícil.
Uma revisão publicada em 2025 encontrou melanomas diagnosticados dentro de tatuagens e levantou a preocupação de que o pigmento possa contribuir para atrasar o reconhecimento visual de algumas lesões suspeitas.¹⁸
Por isso:
não se deve tatuar diretamente sobre sinais ou outras lesões pigmentadas.
O ideal é deixar uma pequena área de pele não tatuada em redor do sinal, permitindo a sua observação futura.
Pessoas com muitos sinais, antecedentes pessoais ou familiares de melanoma ou sinais atípicos beneficiam particularmente de uma avaliação dermatológica antes de fazer tatuagens extensas.
Quem deve ter cuidados especiais?
Existem situações em que é prudente discutir previamente a decisão com um médico.¹⁹
Situações que justificam avaliação prévia
| Situação | Principal preocupação |
|---|---|
| Diabetes mal controlada | cicatrização/infeção |
| Imunossupressão | maior risco de infeção |
| Doença cutânea ativa | agravamento/Koebner |
| Tendência para queloides | cicatrização anormal |
| Alterações da coagulação | hemorragia |
| Anticoagulantes | maior hemorragia |
| Muitos sinais atípicos | vigilância de melanoma |
| Gravidez | princípio de precaução |
Nunca se deve suspender anticoagulantes, imunossupressores ou qualquer outra medicação prescrita apenas para fazer uma tatuagem sem indicação médica.
Como escolher um estúdio e um tatuador seguros?
A prevenção começa antes de a agulha tocar na pele.
Um estúdio profissional deve conseguir explicar claramente os seus procedimentos de higiene e mostrar a rastreabilidade dos produtos utilizados.
Checklist antes de tatuar
✓ Espaço visivelmente limpo e organizado
✓ Higienização adequada das mãos
✓ Luvas descartáveis
✓ Agulhas esterilizadas e de utilização única
✓ Material descartável aberto perante o cliente
✓ Superfícies protegidas e desinfetadas
✓ Recipientes individuais para tinta
✓ Nunca reutilizar restos de tinta entre clientes
✓ Tintas identificadas e destinadas especificamente a tatuagem
✓ Embalagens com lote e prazo de validade
✓ Cumprimento da regulamentação europeia REACH
✓ Instruções escritas para cuidados posteriores
✓ Possibilidade de identificar posteriormente marca, cor e lote utilizados
Na União Europeia, as tintas para tatuagem estão abrangidas por restrições específicas do regulamento REACH, aplicáveis desde janeiro de 2022, com limites para milhares de substâncias consideradas perigosas.¹⁷
O que fazer antes da tatuagem?
Uma tatuagem deve ser planeada como um procedimento que vai provocar uma ferida cutânea controlada.
Nos dias anteriores:
- não tatue pele com infeção, eczema, queimadura solar ou feridas;
- evite tatuar diretamente sobre sinais;
- escolha antecipadamente um estúdio profissional;
- confirme a origem das tintas;
- informe o tatuador sobre alergias relevantes;
- se tiver doença crónica importante ou tomar anticoagulantes/imunossupressores, procure aconselhamento médico;
- evite chegar alcoolizado ou sob influência de drogas.
Também vale a pena pensar numa questão aparentemente pouco médica:
Vou continuar a querer esta tatuagem daqui a 10 ou 20 anos?
Remover uma tatuagem é geralmente muito mais difícil, caro e demorado do que fazê-la.²⁰˒²¹
Cuidados imediatamente após a tatuagem
Uma tatuagem recente deve ser encarada como uma ferida superficial em cicatrização.
Nas primeiras horas é normal existir algum:
- eritema;
- sensibilidade;
- pequeno edema;
- exsudado;
- sensação de calor local.
Estes sintomas devem progressivamente diminuir — e não aumentar.
A European Academy of Dermatology and Venereology recomenda cuidados simples destinados a manter a região limpa, protegida e adequadamente hidratada.²²
Cuidados essenciais
Lavar as mãos antes de tocar na tatuagem.
Depois de remover o penso de acordo com as instruções recebidas, lavar suavemente a região com água e um produto de limpeza suave.
Não esfregar.
Secar suavemente, sem friccionar.
Quando indicado, utilizar um emoliente hipoalergénico sem perfume, numa camada fina.²²
Não aplicar sistematicamente antibióticos tópicos ou antissépticos fortes numa tatuagem normal. Segundo as recomendações da EADV, antibióticos tópicos não são necessários durante uma cicatrização normal e devem ser utilizados perante indicação clínica apropriada.²²
O que evitar durante a cicatrização?
A recuperação da barreira cutânea demora algum tempo e deve ser respeitada.
Enquanto a pele não estiver completamente cicatrizada:
Evitar:
- piscina;
- mar;
- jacuzzi;
- sauna;
- banhos prolongados;
- exposição solar;
- coçar;
- arrancar crostas;
- roupa muito apertada sobre a tatuagem;
- produtos perfumados ou irritantes.²²
Tomar banho normalmente é aceitável.
As crostas devem cair espontaneamente. Arrancá-las pode aumentar o risco de infeção, cicatriz e perda irregular de pigmento.
Como reconhecer uma tatuagem infetada?
Uma ligeira vermelhidão imediatamente depois de tatuar pode ser normal.
O mais importante é observar a evolução.
Normal ou sinal de alarme?
| Cicatrização habitual | Procurar avaliação médica |
|---|---|
| vermelhidão ligeira inicial | vermelhidão a aumentar |
| sensibilidade moderada | dor progressivamente maior |
| pequeno edema | edema intenso |
| ligeiro exsudado inicial | pus |
| melhoria progressiva | febre/calafrios |
| comichão ligeira tardia | linhas vermelhas a subir pelo membro |
Febre, arrepios, pus, dor intensa ou vermelhidão em expansão justificam avaliação médica rápida. Algumas infeções relacionadas com tatuagens podem exigir antibioterapia prolongada e, raramente, internamento.²
Sol e tatuagens
A radiação ultravioleta pode contribuir para degradação dos pigmentos e desvanecimento da tatuagem. Algumas pessoas apresentam ainda reações de fotossensibilidade em determinadas cores.³˒¹³
Durante a cicatrização, deve evitar-se exposição solar direta.
Depois de completamente cicatrizada, a proteção solar continua a ser importante — não apenas para conservar a tatuagem, mas sobretudo para prevenir fotoenvelhecimento e cancro cutâneo.
Uma tatuagem não protege do sol.
Tatuagens e ressonância magnética
Existem relatos raros de sensação de queimadura, edema ou desconforto numa tatuagem durante uma ressonância magnética.¹
Também pode ocorrer interferência na qualidade de algumas imagens, particularmente em determinados tipos de maquilhagem permanente.¹
No entanto, estas complicações são raras e ter uma tatuagem não é motivo para evitar uma ressonância magnética clinicamente necessária.
Informe simplesmente o técnico e o médico de que possui tatuagens ou maquilhagem permanente.¹
Arrependimento: é possível apagar uma tatuagem?
Sim, mas “remover” não significa necessariamente fazer a pele regressar exatamente ao estado anterior.
A remoção pode exigir várias sessões, ser dispendiosa e provocar:
- dor;
- bolhas;
- crostas;
- hiperpigmentação;
- hipopigmentação;
- alterações de textura;
- cicatriz;
- imagem residual ou “fantasma”.²⁰˒²¹
Algumas tatuagens nunca desaparecem completamente.
Laser Q-switched ou laser de picossegundos?
Os lasers são atualmente o principal método médico utilizado para remover tatuagens.
O princípio é engenhoso: pulsos extremamente curtos de energia são absorvidos seletivamente pelo pigmento e fragmentam as partículas em unidades menores, posteriormente eliminadas progressivamente pelo organismo.²⁰˒²¹
Principais tecnologias
| Tecnologia | Característica | Utilização |
|---|---|---|
| Q-switched | pulsos em nanossegundos | método clássico eficaz |
| Picossegundos | pulsos ultracurtos | tecnologia mais recente |
| Cirurgia | remove fisicamente a pele | tatuagens pequenas selecionadas |
Uma revisão sistemática que incluiu 36 estudos concluiu que tanto os lasers Q-switched Nd como os lasers de picossegundos podem ser eficazes, tendo estes últimos demonstrado vantagens particularmente para alguns pigmentos azuis, verdes e amarelos.²¹
Para tatuagens pretas, ambas as tecnologias podem apresentar bons resultados.²¹
Não existe, contudo, um laser universalmente perfeito para todas as cores, tipos de pele e tatuagens.
Porque algumas cores são mais difíceis de remover?
Cada pigmento absorve comprimentos de onda diferentes.
Por isso, a escolha do laser depende de:
cor da tatuagem + composição do pigmento + profundidade + densidade + fototipo da pele.
O preto é geralmente uma das cores mais favoráveis à remoção. Determinados verdes, azuis, amarelos e pigmentos cosméticos podem ser mais difíceis e exigir lasers/comprimentos de onda específicos.²⁰˒²¹
Algumas tintas cosméticas podem inclusivamente escurecer paradoxalmente após laser.²⁰
Importante: alergia à tinta e laser não são a mesma situação
Se existe uma reação alérgica crónica ao pigmento, a estratégia deve ser decidida por Dermatologia.
Fragmentar um pigmento alergénico com laser pode libertar ou dispersar substâncias capazes de intensificar a reação. Existem descrições de agravamento significativo, razão pela qual o tratamento de tatuagens com reação alérgica exige avaliação especializada.²³
Métodos de remoção que devem ser evitados
Produtos vendidos na Internet como “cremes removedores de tatuagens” não conseguem simplesmente retirar de forma segura pigmentos depositados profundamente na derme.
Também devem ser evitadas tentativas caseiras envolvendo:
- ácidos;
- substâncias cáusticas;
- lixamento/abrasão;
- queimadura;
- salabrasão;
- corte da pele.
O resultado pode ser uma cicatriz permanente sem remoção adequada da tatuagem.
A remoção deve ser avaliada por um profissional médico experiente em tecnologias laser, idealmente Dermatologia ou Medicina com experiência específica em laser cutâneo.
Uma questão especial: “henna preta”
Uma tatuagem temporária não é necessariamente inofensiva.
A chamada henna preta pode conter substâncias adicionadas para escurecer e acelerar a coloração, nomeadamente parafenilenodiamina (PPD). A FDA documentou reações cutâneas importantes associadas a estes produtos, incluindo cicatrizes.¹
A sensibilização adquirida pode ainda ter implicações em exposições futuras a produtos contendo substâncias relacionadas.
Henna preta não deve ser confundida com henna natural.
Os 10 mandamentos de uma tatuagem segura
De seguida descrevo em formato infografia partilhável os 10 pontos mais importantes para fazer uma tatuagem em segurança. Por favor partilhe.
Quando procurar um médico?
Quais os sintomas e sinais que podem ser graves e necessitar de apoio médico urgente? A infografia seguinte resume um organigrama muito útil para rápida avaliação da gravidade das situações. Por favor partilhe.
Também deve procurar Dermatologia se, semanas, meses ou anos depois, surgir persistentemente sobre a tatuagem:
comichão + nódulos + descamação + ulceração + alteração de um sinal + lesão que cresce ou sangra.
Tatuagens: o que sabemos e o que ainda não sabemos?
É importante distinguir ciência estabelecida de hipóteses.
Grau de certeza da evidência
| Afirmação | Evidência atual |
|---|---|
| Podem causar infeções | Bem estabelecida |
| Podem causar alergias | Bem estabelecida |
| Podem desencadear Koebner | Bem estabelecida |
| Pigmento chega aos gânglios | Demonstrado |
| Podem dificultar deteção de melanoma | Plausível/documentado |
| Causam cancro da pele | Não demonstrado |
| Aumentam risco de linfoma | Incerto |
| Efeitos sistémicos após décadas | Ainda em investigação |
Esta distinção é essencial. A presença de uma substância potencialmente perigosa numa tinta ou a deteção de pigmento num gânglio linfático não prova que essa exposição provoque doença. Da mesma forma, encontrar mais casos de determinada doença entre pessoas tatuadas num estudo observacional não demonstra automaticamente causalidade.
A ciência das tatuagens continua a evoluir.
Conclusão
Fazer uma tatuagem não é um procedimento biologicamente neutro. Implica romper a barreira protetora da pele e introduzir pigmentos que podem permanecer no organismo durante décadas. Existem riscos reais e bem documentados — particularmente infeções, reações alérgicas, granulomas, cicatrizes e exacerbação de algumas doenças dermatológicas. Parte dos pigmentos pode migrar para os gânglios linfáticos, embora as consequências clínicas desta exposição prolongada ainda não estejam completamente esclarecidas.⁹
Por outro lado, também não existe fundamento científico para afirmar simplesmente que “as tatuagens provocam cancro”. A evidência epidemiológica mais recente não demonstra um aumento global significativo de cancro cutâneo e permanece inconclusiva relativamente às neoplasias hematológicas.¹⁰ O melhor princípio é, portanto, precaução informada: escolher um profissional competente, utilizar tintas regulamentadas, nunca tatuar sobre sinais, cumprir rigorosamente os cuidados de cicatrização e procurar assistência médica perante qualquer alteração persistente.
O essencial para recordar
- Uma tatuagem é um procedimento invasivo, não apenas uma pintura sobre a pele.
- Utilize apenas estúdios profissionais com rigorosas condições de higiene.
- As agulhas devem ser estéreis e descartáveis.
- Na União Europeia, prefira exclusivamente tintas conformes com o regulamento REACH.
- Nunca tatue diretamente sobre sinais.
- Pele infetada, inflamada ou com doença dermatológica ativa não deve ser tatuada.
- Psoríase, vitiligo e líquen plano podem apresentar fenómeno de Koebner.
- Vermelhidão progressiva, pus, dor crescente ou febre são sinais de alarme.
- Não arranque crostas durante a cicatrização.
- Evite piscina, mar, sauna e sol até cicatrização completa.
- Pigmentos de tatuagem podem atingir os gânglios linfáticos, mas o significado clínico a longo prazo permanece incerto.
- Atualmente não está demonstrado que as tatuagens causem cancro.
- Remover uma tatuagem é consideravelmente mais difícil do que fazê-la.
- Q-switched e lasers de picossegundos constituem as principais tecnologias de remoção.
- A remoção completa sem alteração residual da pele nem sempre é possível.
- Não tente remover tatuagens com ácidos, cremes corrosivos ou métodos caseiros.
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